O que é ser crossdresser


Por VeroniKa Schneider em janeiro de 2003

"If emancipated crossdressers have a "problem" let's define it as Gender Identity Euphoria, the treatment for which is Mastercard Therapy !!!" - (Lacey Leigh)

Entre todas as diversidades de transgêneros, podemos afirmar que as crossdressers constituem um dos grupos de maior complexidade. Geralmente confundidas com as travestis ou com as drag queens, em virtude do fator comum que é o uso de roupas femininas, as CD's, entretanto e apesar de todas as afinidades, possuem características próprias e intransferíveis, relacionadas diretamente com o trânsito possível entre os universos masculino e feminino. Criar artificialmente uma definição geral e fechada, capaz de responder à pergunta que dá título a este discurso, seria - a meu ver - apenas instituir mais um rótulo limitado e, por isso mesmo, incapaz de englobar todas as variáveis possíveis e divergentes. Por um lado, isso não significa exatamente que estejamos abordando um comportamento e uma realidade tão inacessíveis ao ponto de podermos afirmar a impossibilidade de uma delimitação conceitual; mas por outro, significa que essa delimitação é muito mais ampla e abrangente do que simplesmente declarar, por exemplo, que CROSSDRESSER é um homem que esporadicamente e por motivos relacionados com a sua libido ou com as suas pulsões sexuais, cultiva o hábito de usar roupas femininas.

Infelizmente e até o presente momento, a grande maioria das tentativas de obtenção de respostas eficientes têm, aparentemente, sempre passado em primeiro lugar pelo plano das cogitações sexuais, muito bem fundamentadas através da utilização de teorias psicanalíticas, principalmente as de orientação freudiana. O resultado desse posicionamento teórico diante da questão de comportamento proposta, é o de que, quase sempre, a grande maioria dos "especialistas" no assunto acaba, de uma forma praticamente incondicional, (apesar de não ser essa uma regra geral) incluindo as crossdressers no grupo dos indivíduos transgressores dos padrões sociais aceitáveis, podendo portanto, as suas atitudes serem caracterizadas como "desvio", "disforia", "distúrbio" ou até mesmo como "perversão" sexual, entre outras catalogações possíveis e, evidentemente, acompanhadas das respectivas metodologias recomendadas de "cura", através de análises e de terapias. É, também, a partir desse raciocínio que o comportamento de uma crossdresser pode acabar sendo diagnosticado - de forma incorreta, é claro - como alguma modalidade de psicopatia, como por exemplo a esquizofrenia, alegando-se, para tanto, a fragmentação da personalidade CD em duas identidades - uma masculina e outra feminina - gerando inevitavelmente entre elas, um conflito que, teoricamente, resultaria numa perda, parcial ou completa, de contato com a realidade. Ou ainda, numa atitude mais branda do que essa, simplesmente designando o comportamento crossdresser como um evento fundamentalmente excêntrico, permeado por anormalidades dos pensamentos e dos afetos, constituindo assim, uma outra modalidade de distúrbio esquizotípico. Todas essas considerações, no entanto, me parecem ser exclusivamente construídas por "observadores externos" que se julgam capazes de determinar cientificamente uma coletânea de fundamentos e de valores que seriam suficientes para delimitar a nossa condição diante desse conjunto que chamamos de sociedade. Sem apelar para os excessos de radicalismo ou de repulsa frente a essas possibilidades, podemos até considerar que em determinados casos individuais, e muito específicos, algumas dessas definições citadas possam ser aplicadas de forma coerente - pois não podemos refutar a viabilidade da fusão do crossdressing com outras manifestações da sexualidade, tais como o "fetichismo" ou o "voyerismo", por exemplo - mas sem que tenhamos a necessidade ou mesmo a obrigatoriedade de aceitar que todas essas definições psicanalíticas possam ser tomadas como verdades absolutas, irrefutáveis, ou ainda que todas elas possam ser aplicadas da mesma forma coerente em todos os casos gerais. Dessa forma, se algumas autoridades, como Stekel (1922, 1933) e Allen (1949), acreditam que "o homossexualismo seja a base primária ou principal do travestismo (e por extensão de raciocínio, também do crossdressing) e que, mesmo quando os travestis (e CD's) não praticam abertamente atividades homossexuais, eles inconscientemente gostariam de praticá-las", ou ainda, outras autoridades como Brown (1960), Kinsey, Pomeroy, Martin e Gebhard (1953), Overzier (1958), Storr (1957) e Thomas (1957), insistem em afirmar que "a maioria dos travestis, inclusive DRAG QUEENS e CROSSDRESSERS, são heterossexuais em suas inclinações mas ainda assim se sentem EXCITADOS quando vestem roupas do outro sexo"; nós mesmas, crossdressers posicionadas no outro lado desse discurso, também podemos levantar as nossas próprias hipóteses, bem como também as nossas suspeitas de que talvez essas autoridades pertencentes - não ao nosso grupo, mas ao grupo dos psicólogos, dos psicanalistas, dos psiquiatras, dos terapeutas em geral, bem como dos administradores de manicômios - possam estar, além de todos os seus interesses científicos - também motivadas inconscientemente pelo desejo de expansão e manutenção do mercado do desequilíbrio e da loucura, ao nos oferecerem as suas respostas patológicas, intrinsecamente relacionadas com os aspectos sexuais da questão e que nós mesmas podemos e devemos considerar como secundários. Em decorrência desta divergência de pontos de vista, talvez a resposta para a pergunta: - "O que é ser crossdresser?" possa ser melhor explicitada por nós mesmas CD's, diante do espelho de nossas almas, através de um verdadeiro mergulho pessoal dentro das nossas personalidades, descartando parcialmente as hipóteses sexuais e psicológicas e utilizando outros instrumentos de análise e interpretação.

Ao realizarmos esse mergulho, descobrimos que o primeiro fato recorrente e universal, comum a todas as CD's, é o de que as primeiras manifestações do crossdressing sempre acontecem bem cedo, geralmente entre os quatro e seis anos de idade ou, mais tardiamente, até no máximo a idade de dez ou onze anos e - portanto - sempre muito antes das primeiras manifestações e descobertas da sexualidade. Este talvez seja o primeiro dado importante que podemos utilizar para iniciar as nossas conclusões, pois determina a INEXISTÊNCIA de um vínculo absoluto entre a personalidade de uma crossdresser e as suas eventuais opções de sexualidade (o que é facilmente comprovado através da simples observação de que podemos encontrar CD's heterossexuais, CD's homossexuais, CD's bissexuais, etc.) e nos leva a afirmar que descobrimos a nossa identidade de gênero feminino sempre muito antes de conseguirmos perceber as diferenças sexuais existentes entre homens e mulheres. Evidentemente é exatamente esse fato que determina a inviabilidade das interpretações psicológicas, apoiadas nas argumentações sexuais, e que procuram demonstrar que o crossdressing tenha o homossexualismo como base fundamental, mesmo que isso possa ser verdadeiro em alguns casos isolados e específicos, ou seja, as causas não podem ser confundidas com as conseqüências. Um outro aspecto interessante a ser observado, é o de que a idade em que as primeiras manifestações do crossdressing acontecem, corresponde exatamente com a fase em que estamos começando a ter um contato mais direto com todos os mecanismos da linguagem, inclusive aprendendo a ler e a escrever, e aprendendo a interpretar os signos que utilizamos para representar o meio-ambiente social no qual vivemos. E é este, o segundo dado importante que podemos utilizar na busca da nossa resposta e que me leva a sugerir que, muito provavelmente, a Filosofia e a Semiótica (através de algumas das suas subdivisões, como a Teoria dos Signos e a Teoria da Linguagem) sejam - a meu ver - os aparelhos teóricos mais indicados e eficientes que podemos utilizar para analisar a nossa própria condição de CD's e encontrar uma resposta abrangente, que sirva para todas nós, mesmo que sejamos heterossexuais, homossexuais, bissexuais, ou mesmo que sejamos fetichistas, voyeristas, mulheres bem-comportadas ou pervertidas em nossas opções de sexualidade.

Através da utilização dessas duas teorias, podemos postular a existência de dois universos distintos, constituídos por SIGNOS verbais e signos não-verbais: um universo FEMININO e um outro universo MASCULINO, cada um deles oferecendo-nos os seus campos repertoriais particulares. Para exemplificar, uma saia ou um vestido, são signos não-verbais com os seus significados associados ao universo feminino, enquanto uma calça ou uma gravata estão associados ao universo masculino. Entretanto, esse conceito pode ser desdobrado infinitamente em milhares de outras variáveis que não apenas às de vestuário. Os gestos, os perfumes, o jeito de andar ou de sentar, o modo racional ou intuitivo de pensar sobre as coisas, as palavras escolhidas em um diálogo, bem como os temas discutidos, a entonação da voz, as cores, os esportes, as atitudes, e quase todas as coisas que possamos imaginar, pertencem a um ou ao outro desses dois universos. Nós, as crossdressers, escolhemos o universo feminino para habitar, do mesmo modo que a maior parte das mulheres genéticas, e mesmo que tenhamos, por força de circunstâncias variadas, que estar também presentes no outro lado, o masculino. Portanto, podemos afirmar, com certeza, que crossdresser NÃO é um homem que esporadicamente e por motivos relacionados com a sua libido ou com as suas pulsões sexuais, cultiva o hábito de usar roupas femininas, porque na verdade a crossdresser, apesar de ter um sexo masculino, possui o gênero feminino, como TODAS as outras mulheres e este gênero existe num plano SIMBÓLICO e não físico, fazendo com que o sexo seja apenas um aspecto secundário dentro desse panorama. Evidentemente, sentimos prazer ao nos vestirmos como mulheres, da mesma forma que sentimos prazer em nos arrumar e sentir que somos mulheres bonitas, como todas as outras, mas este prazer (termo que poderia ser melhor substituído por FRUIÇÃO) quase sempre NÃO está ligado à excitação sexual, embora essa excitação seja possível e, ao meu ver, não deva ser algo condenável e muito menos considerado como proibido.

Quanto à questão da fragmentação da personalidade, que afirma a condição de uma CD como um ser ambíguo, portador de duas identidades, uma masculina e outra feminina, habitando um mesmo corpo, podemos dizer que acontece exatamente o contrário: não existe uma personalidade fragmentada e dupla em uma crossdresser autêntica, porque a nossa personalidade é ÚNICA; um TODO indissolúvel que pode ser designado como um duplo-gênero (ou duplo gender) formado pelo nosso sexo biológico masculino, nosso gênero feminino e complementado pela nossa sexualidade, seja ela qual for. E é por tudo isso que devemos nos aceitar do jeito que somos e, ao mesmo tempo, defender o nosso direito irrefutável pela opção que fizemos ao prazer de "SER E DE ESTAR MULHER" e assim, olhar para o maravilhoso espelho interior das nossas almas e dizer para nós mesmas e para todos aqueles que quiserem nos ouvir:

- Eu nunca estive tão bem quanto hoje, eu sou MUITO FELIZ exatamente assim do jeito que sou, eu sou uma MULHER NÃO-GENÉTICA, eu sou UMA CROSSDRESSER !!!

Veja o VOCABULÁRIO.


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