O travestismo nas artes


Por Suzy Kelly em dezembro de 2002

O movimento dos homens que gostam de se trajar com roupas femininas não é novo e já se manifestou inclusive nas artes. O teatro japonês é um exemplo, mas a razão era cultural e tradicional porque as mulheres não podiam participar de peças teatrais e os homens as substituíam. Houve época em os nobres europeus vestiam roupas adornadas e saltos altos, com os quais ficou famoso o Rei Luis XV da França. 

Deixando de lado os nobres e os homens do meio artístico, que se vestiam profissionalmente, embora muitos apreciassem demasiadamente essa arte de se vestir com roupas femininas, vamos enveredar pelos casos dos homens que assim gostam de se trajar por outras razões, que é o caso dos transexuais, dos travestis, das drag queens e das crossdressers (eonistas).

Crossdressing ou Eonismo

Sem entrar mais detalhadamente nos casos dos transexuais, dos travestis e das drag queens, vamos procurar concentrar nossas atenções nos crossdressers.

Num editorial, intitulado "Crossdresser ou Eonista?" a associada Elisabeth Bardotti (Betinha) já se manifestou sobre sua preocupação com o desvirtuamento do que entendíamos por crossdresser, tendo em vista que a denominação tem sido utilizada por profissionais do sexo. Foi por esse motivo que passou a preferir ser chamada de Eonista, conforme explica em seus escritos.

Em outro editorial, intitulado "Eonismo", a associada Angela Augusta Giacometti (Guta), detalhou as pesquisas que fez através da internet (rede mundial de computadores) a respeito do significado e da origem da palavra e concluiu que no nosso caso a denominação mais adequada é justamente essa.

De outro lado, a Sociedade Beaumont Continental (da França) também se manifestou sobre o travestismo em homens de modo geral, contudo, tentando explicar o tipo de travestismo que a Betinha e a Guta denominaram como "eonismo".

Inicialmente vamos refletir sobre os casos dos homens (casados ou não) que gostam de se trajar com roupas femininas algumas vezes com fins sexuais, porém, em boa parte dos casos não.

O Problema das S/O (supportive opposite)

O grande problema das companheiras (esposas ou S/O) dos eonistas (crossdressers) não é propriamente a dúvida sobre a real opção sexual de seu marido, mas, sim, o que vão pensar ou dizer as demais pessoas quando souberem que ele usa roupas femininas não só esporadicamente, mas, em alguns casos, diuturnamente. E, quando isso não é possível por razões profissionais entre outras, também em alguns casos, o marido costuma usar lingeries iguais as de sua esposa por baixo das roupas masculinas que a sociedade o obriga a usar.

É interessante salientar que muitos maridos chegaram a tal ponto justamente com o incentivo de suas próprias esposas. Dentre as associadas do BCC temos alguns casos. Entretanto, isso não significa dizer ou suspeitar que as respectivas companheiras sejam lésbicas ("entendidas", como preferem as verdadeiras).

Manifestações Que Começam Desde Criança

A maior parte dos adeptos do eonismo (crossdressing) sentiu essa atração pelas roupas femininas desde criança e sem a influência direta ou indireta de alguém. Esse é um tipo de manifestação que vem do âmago de cada um.

Esse desejo, a partir daí se divide em dois grupos distintos:

É claro que também existe o inverso, que é o caso de crianças do sexo feminino que passaram a ter atração pelas roupas masculinas e por outras mulheres ou mesmo por homens.

Também existe o caso de crossdressers que muito tempo depois se converteram ao bissexualismo, ao homossexualismo e ao transexualismo.

Parece mais do que evidente que no BCC, assim como na sociedade em que vive o nosso lado masculino, também existe homossexuais e bissexuais, além dos heterossexuais. Porém, todos nós sabemos que isso é corriqueiro no mundo em que vivemos. Também parece que existe consenso de que não estamos interessadas em saber qual é a real opção sexual de cada uma das associadas do clube e qual o tipo de sexo realizado por elas entre quatro paredes com seus respectivos parceiros.

O que realmente nos preocupa e nos realiza é o fato de estar mulher, da forma mais perfeita possível.

O Tradicionalismo e o Preconceito

O lado negativo do tradicionalismo é o arraigado preconceito cultuado pelos ditos machistas, que em muito tem atrapalhado a aceitação do modo de ser desses homens (eonistas), os quais, em muitos casos, assim procedem com a aprovação de suas companheiras e de seus familiares. Mais negativo ainda é o procedimento de extremistas que chegam a atentar contra a integridade física e moral dos por eles ditos diferentes, imorais ou pervertidos.

O lado positivo do tradicionalismo está justamente no antigo teatro japonês e numa tribo da Oceania em que o primeiro filho, quando homem, é criado como mulher para que possa assumir os afazeres domésticos, substituindo a mãe. O que se tem notado é que, em muitos casos, este filho acaba optando pelo homossexualismo, talvez firmemente influenciado pelos próprios pais, que tradicionalmente o querem mulher.

O Crossdresser nos Meios de Comunicação

A Revista Marie Claire publicou, em uma de suas edições, matéria de capa em que discorria sobre o que chamou de "Casais Unissex". Foram entrevistados três casais, em que os lados masculinos de dois eram travestis e de um era crossdresser. Entre os casais entrevistados estava um do qual é parceiro um dos eonistas associados do BCC.

Quando era exibido pela TV Gazeta de São Paulo, o programa "Comando da Madrugada", de Goulart de Andrade, também versou sobre os Crossdressers, ocasião em que foram entrevistadas quatro associados deste Clube devidamente travestidos. Entre os entrevistados, dois eram casados e dois solteiros e um dos solteiros rumava para o transexualismo.

Dessa pequena amostra podemos concluir que ser crossdresser (eonista) não depende da opção sexual de cada um. Ser crossdresser (eonista) é simplesmente adorar o universo feminino e procurar vestir-se, agir e apresentar-se delicada e primorosamente como uma mulher, sem esquecer dos seus mínimos detalhes, ou seja, sem exageros ou caricaturas.

O Rei da Inglaterra, Quem Diria?

Uma das provas de que "crossdresser" não é coisa nova e que não é praticado por inconseqüentes, foi a publicação pela Revista VEJA, de 17/05/2000, que o Rei da Inglaterra Edward VIII era adepto do universo feminino e tinha alguns seguidores, como se vê na foto maior abaixo, que foi tirada quando o rei visitava um país africano. Edward VIII está destacado da foto em que se apresenta com os demais adeptos do "crossdressing".

  

O Prefeito de Nova Iorque

Ainda a Revista Veja, em 14 de março de 2001, publicou o seguinte texto com foto:

"Louco para aparecer, o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, já se fez de Marilyn Monroe e de dançarino à la Embalos de Sábado à Noite no jantar beneficente em que todo ano sobe ao palco para uma inesquecível performance. Neste ano, Rudy, no seu canto do cisne (está encerrando o mandato e um tratamento de câncer na próstata), primeiro pôs chumaços de algodão nas bochechas e encarnou Don Corleone, o poderoso chefão. Saiu do palco ovacionado e voltou em seguida - sem as calças. De meia cor da pele e salto alto, acompanhou um grupo de bailarinas no cancã. No dia seguinte, a especulação em Wall Street e arredores era: teria ele depilado as pernas? "Isso vocês só saberão quando fizer calor e eu for jogar golfe", provocou o prefeito."

Congêneres do BCC em Outros Países

É justamente nos Estados Unidos da América que existe o que talvez seja o maior clube de crossdresser do mundo: o Tri-Ess. E clubes deste tipo existem não só nas Américas com também na Europa.

O interessante é que anúncio do site da Tri-Ess, encontrado através do sistema de busca do Yahoo, diz que o The Society for The Second Self é um grupo educacional, social e de suporte para travestis heterossexuais.

Pelo menos o Brazilian Crossdresser Clube não tem preconceitos e não discrimina ninguém ao aceitar em seu quadro de associadas crossdressers de qualquer opção sexual, incluindo as do sexo feminino (que se vestem como homens).

Na Inglaterra existe a Beaumont Society UK National, que segue a tradição deixada pelo nobre Chevalier d'Eón (Cavaleiro d'Eón) - Charles de Beaumont - e edita a Revista Beaumont Magazine.

Na França existe a Association Beaumont Continental, que se diz uma associação francesa para eonistas.

E procurando no site de busca GOOGLE por principalmente "Chevalier d'Eon" encontraremos uma infinidade de sites de esclarecimento e informação, que também podem ser encontrados por "Charles Eon de Beaumont". Os sites geralmente estão em francês, alemão ou inglês. O interessante é que num dos links encontra-se o editorial deste site em que se discorre sobre essa figura que muito nos impressiona, cujo verdadeiro nome era CHARLES GENEVIÈVE LOUISE AUGUSTE ANDRÉ TIMOTHÉE D'EÓN DE BEAUMONT. Encontra-se também a página do meu site pessoal, onde tenho uma definição genérica sobre os crossdresser e cito o Cavaleiro d'Eón.




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