Eonismo


Por Ângela Augusta Giacometti (Guta) em julho de 2002

No último editorial, a Betinha discorreu, e muito bem, sobre o nosso grupo, principalmente questionando o abuso da sigla CD por pessoas que nem ao menos sabe o verdadeiro significado desta sigla. No seu ensaio "Crossdresser ou Eonista?" , a Betinha cita o termo "eonista". Afinal, o que isto significa?. Bom, para aquelas que não sabem, eu fiz uma longa pesquisa e descobri de onde se originou o termo.

Em primeiro lugar, consultei as enciclopédias:

1) DICIONÁRIO AURÉLIO ELETRÔNICO:

EONISMO - Charles de Beaumont, Cavaleiro de Éon

(1728-1810) - Do antropônimo do nobre e oficial francês (Éon + ismo) que fez uso de trajes femininos como disfarce, quando em desempenho de missão secreta na Rússia

S. m. Psiquiatria.

1.Travestismo em homem.

2) ENCICLOPÉDIA DELTA LARROUSSE:

Éon (Charles de Beaumont, cavaleiro D' Éon), diplomata e oficial francês (nasceu em Tonnerre - França em 1728 e morreu em Londres - Inglaterra em 1810). Agente secreto de Luis XV na Rússia (1755). Ministro plenipotenciário em Londres (1763), manteve com o rei uma correspondência política confidencial. Deixou suas memórias (Loisirs de Chevalier d'Éon - Lazeres do Cavaleiro d'Éon)

Depois, pesquisei outras fontes, inclusive um site maçônico, onde há a provas de que Chevalier D'Éon não só existiu de verdade, como pertenceu à loja maçônica francesa:

Segundo Wilma Azevedo em seu livro "Sadomasoquismo Sem Medo" Iglu Editora, Charles Éon de Beaumont (1728-1810) era um homem fisicamente normal, mas seus pais desde que era criança o vestiam com roupas do sexo oposto. Quando adulto o Chevalier d'Éon (Cavaleiro de Éon) tornou-se um exímio espadachim que preferia usar roupas de mulher, como parte de sua carreira de agente secreto. Convencia tão bem que durante 49 anos acreditou-se ser uma mulher que algumas vezes se vestia de homem.

Estes são alguns sites que visitei:

http://geocities.com/paris/arc/8639/deon.html

http://freemasonry.bcy.ca/biography/index.html

http://www.critpath.org/pflag-talk/tgKIDfaq.html

Veja a seguir, o que pude aprender sobre este exótico personagem que deu origem ao termo "eonismo":

Chevalier d'Éon (1728-1810)

Mesmo não tendo sido um dos principais personagens da Revolução Francesa, sua vida e particularmente seu sexo, despertou muito interesse na história francesa.

Em 5 de outubro de 1728, na famosa cidade vinícola francesa, Tonnerre, nasceu Charles Genevieve Louis Auguste Andre Timothee Deon de Beaumont. Seu pai, Louis d'Eon de Beaumont, era um advogado da alta corte de justiça e sua mãe, Francoise de Chavanson, era uma senhora da alta sociedade.

Não havia dúvidas quanto ao seu sexo quando ele nasceu. Médico, parteira, e outras pessoas que lá estavam durante o nascimento de d'Eon podiam testemunhar que ele era macho.

D'Eon cresceu como um menino normal. Mas sua mãe as vezes o vestia com as roupas de sua irmã apenas para se divertir. Ele completou sua educação no Colégio Mazarin em Paris e se tornou secretário do Monsieur de Sauvigny, administrador do departamento fiscal de Paris.

Chevalier d'Eon não possuía uma figura viril. Ele tinha um corpo pequeno e membros de formação delicada. Sua cintura era esbelta, suas mãos e pés eram pequenos. Ele tinha olhos azuis e cabelos longos e macios.

Certa vez, Chevalier d'Eon apostou com seus amigos que caso se vestisse como uma mulher poderia enganar Madame Pompadour, amante de Louis XV, no que obteve sucesso. Mas também foi uma oportunidade para ele. Louis XV também se enganou pensando que d'Eon era uma mulher. Louis XV ficou muito impressionado com a caracterização de d'Eon.

Naquela época Louis XV queria se reconciliar com a Rússia. Ele havia enviado dois embaixadores para discutir o assunto com a czarina Elisabeth da Rússia, mas falharam por­que os homens tinham sido banidos da corte russa. A fim de penetrar na corte e discutir com sucesso o assunto com a czarina Elisabeth, ele precisava enviar uma mulher, mas uma mulher não poderia lidar com uma missão de um grande perigo iminente. Dessa forma Louis XV decidiu enviar d'Eon como embaixador e agente secreto. D'Eon aceitou a missão.

A identidade de d'Eon foi mudada para Mademoiselle Lia de Beaumont. Em 1755 ele se infiltrou com sucesso na corte com a identidade de uma mulher. Mais tarde Elisabeth descobriu que d'Eon era um homem e se tornou sua amante. D'Eon conseguiu que Elisabeth assinasse o tratado entre a Rússia e a França o que beneficiou a França.

Tornou-se ministro plenipotenciário em Londres (1763) e maçon em 1768.

Em Versailles, surgia um boato popular de que d'Eon era um hermafrodita.

D'Eon voltou para a França. Mais tarde ele foi para a Inglaterra como capitão dos Dragões.

Na memória, acredita-se que ele era o pai do filho da Imperatriz Sophia-Charlotte da Inglaterra. Com a relação amorosa entre d'Eon e Sophia-Charlotte, a Inglaterra resolveu a reconciliação entre os dois países.

A confusão sobre a identidade de d'Eon ocorreu por causa do seguinte incidente:

A rainha da Inglaterra Sophia-Charlotte requisitou a presença de d'Eon em seu quarto numa madrugada por­que seu filho estava seriamente doente. Ela havia sonhado que somente d'Eon poderia curá-lo. Ela era supersticiosa e assim pediu a d'Eon para vir. Enquanto d'Eon estava no quarto de Sophia-Charlotte, o rei George III apareceu. Ele estava profundamente irritado por haver um homem no quarto de sua esposa tarde da noite. Com o objetivo de salvar a rainha e seu filho, Cockrell, uma assistente da rainha mentiu para George III dizendo que d'Eon era na realidade uma mulher. Mas como havia um constante boato de que d'Deon era um travestido e que seu sexo era desconhecido, o rei George III duvidou da afirmativa. Ele então escreveu uma carta a Louis XV.

A amante de Louis XV, Jeanne du Barry (Madame de Pompardour já havia falecido) sugeriu que Louis XV ajudasse a mentir sobre a identidade de d'Eon, o que ajudaria no relacionamento amoroso entre d'Eon e Sophia-Charlotte. Além disso, isto iria manter o relacionamento entre a França e a Inglaterra. Assim, Louis XV respondeu a George III "comprovando" que d'Eon era uma mulher.

Durante aquele período, o sexo de d'Eon era matéria de especulação até na bolsa de valores de Londres. Depois da morte de Louis XV, Louis XVI negociou com d'Eon. Uma transação foi feita entre Caron de Beumarchais, representante do rei e d'Eon. Louis XVI deu uma pensão e o título que era devido à d'Eon por Louis XV. Em troca do dinheiro, d'Eon entregou a Louis XVI, documentos importantes da estratégia francesa em relação à Inglaterra. Além disso, d'Eon não poderia retornar à França a menos que se vestisse como mulher e não portasse armas.

Em 1777, d'Eon deixou Londres e voltou à França após 14 anos. Ele foi a Versailles em seu uniforme de capitão dos Dragões. Marie Antoinette enviou sua própria costureira, Rose Berlin, para transformar d'Eon em uma mulher. Daquele dia em diante, Chevalier d'Eon (Cavaleiro de Eon - N.T.) se transformou em Chevaliere d'Eon (Cavaleira de Eon - N.T.).

Mas a história de d'Eon não termina por aí. Nadejda, sua primeira amante que ele encontrou em sua missão na Rússia quando ele era jovem, apareceu de novo em Paris após um longo silêncio. D'Eon pensava que ela estava morta todo esse tempo. Nadejda ficou feliz em ver d'Eon novamente e lhe contou que tinham um filho. Mas d'Eon contou a Nadejda a triste história que ele não era mais um homem de acordo com as regras do rei.

O filho de Nadejda morreu cedo devido a uma febre muita alta. Nadejda e d'Eon mais uma vez se mudaram para a Inglaterra. A Revolução Francesa começou. Como Louis XVI deixara de ser rei da França, a transação entre Louis XVI e d'Eon também não era mais válida, mas d'Eon continuou a vestir-se como mulher para proteger Sophia-Charlotte.

Ele desenvolvera a esgrima como seu passatempo, o que cultivou durante toda sua vida.

Ele então começou fazer demonstrações de esgrima para ganhar dinheiro. Suas demonstrações eram muito populares e multidões afluíam para ver o melhor espadachim do mundo ser vencido por uma mulher de meia idade. Ele ganhou muitos duelos. Em 1796 num combate de esgrima em Southampton, Inglaterra ele foi gravemente ferido e nunca mais se recuperou daquele ferimento.

As duas velhas senhoras, d'Eon e Nadejda foram vistas andando juntas pelas ruas de Londres. Transeuntes ficavam comovidos com a óbvia devoção de uma pela outra. Eles pensavam, que eram duas irmãs ou mãe e filha, mas nenhum deles podia imaginar que o relacionamento entre elas era o de marido e esposa. Chevalier d'Eon morreu em Londres em 1810, aos 83 anos de idade. Dez dias após sua morte, foi realizada uma autópsia onde se constatou que d'Eon ele era na verdade um homem.

Quando George III soube do resultado da autópsia, ficou louco e assim permaneceu até sua morte em 1820.


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