Crossdresser ou Eonista?


Por Elisabeth Bardotti em junho de 2002

Como num passe de mágica e de maneira espontânea, o BCC nasceu em 1997. Longos cinco anos se passaram, batalhas vencidas, lutas, desentendimentos e muita aprendizagem e companheirismo, desde então o termo Crossdresser vem sendo divulgado para todos os cantos deste imenso Brasil chegando até a mudar nomenclaturas em paises vizinhos. Na época, esta expressão caía como luva para nós, pois até então, dado a nossa estranha maneira de ser, não conseguíamos nos classificar entre as inúmeras categorias conhecidas dentro do universo transgenérico e graças à internet, graças a esta intensa comunicação, conseguimos nos diferenciar das travestis, das transexuais e das drag-queens. Conseguíamos nos fazer conhecidas e diferenciadas dentro desta tribo e graças a este trabalho de informação, hoje em dia ninguém mais faz a clássica pergunta: O que é CD?

Aos poucos essas letrinhas "CD" apareciam, eram conhecidas, difundidas e tornavam-se uma marca e uma característica nossa. Homens que gostam de viver momentos femininos, vestindo-se de maneira primorosa, cuidando dos menores detalhes, fazendo bonito em público e nunca jamais, devido a nossa postura e comportamento, serem discriminados.

Este é o CD que procurávamos difundir. Este era e ainda é o papel histórico que o BCC desempenha.

Foram cinco anos, cinco longos anos de muita paciência, de muito glamour e conscientização. Chegou o momento da definição. O BCC amadureceu, deixamos de nos amedrontar com possíveis violências ou discriminações e aprendemos que viver como mulher, estar como mulher, se portar como mulher é visto como uma elevação do ser humano e não mais uma aberração ou alguma tendência homossexual.

Aprendemos a ter orgulho do que somos, aprendemos a conviver com o nosso semelhante, aprendemos que ser CD é digno do ser humano e o sentimento de culpa que tínhamos se transformou num sentimento de júbilo, de euforia e de felicidade.

Hoje as letrinhas "CD" são conhecidíssimas e tudo que se torna conhecido tende a ser imitado. Notamos então, que outras tendências as vem adotando, outras sexualidades e com isso percebemos que aos pouco o significado dessas preciosas letrinhas vão tomando outro rumo, um pouco pejorativa para o nosso gosto. Nota-se com tristeza que ser CD está se tornando sinônimo de homens que vestem uma calcinha para se masturbarem, homens que se excitam e fazem desta prática um caminho para um melhor desempenho sexual. Aos poucos CD se transforma num fetiche de homens que fazem uso de certas peças da indumentária feminina para poderem se excitar de uma maneira mais poderosa. Com tristeza percebemos que homossexuais vem adotando esta nomenclatura para poderem atrair homens que sentem atração por rapazes afeminados.

Nós, as CDs cuja etimologia procurávamos difundir, estamos nos sentindo incomodadas com isso.

Buscando nos anais históricos, descobrimos uma personagem cujo nome sempre foi adotado pelos clubes europeus, altamente fechados, que abrigam homens que fazem da prática de se vestirem como mulher uma arte. Trata-se de Chevalier D'Eon que deu o nome aos clubes Eonistas europeus. Apesar do BCC ser um clube cujo nome possui a palavra Crossdresser, há dentro dele, drag-queens, transexuais, travestis, simpatizantes... e Eonistas.

Eonistas são aqueles CDs que se sentiram aliviados nos primórdios do BCC e hoje se sentem incomodados e aos poucos vão tentando se diferenciar dos "atuais" CDs e adotando a postura daqueles homens que seguem a linha de Chevalier D'Eon, cuja prática de se vestir como mulher se torna uma arte praticada com esmero, afinco, ardor e até um certo fanatismo, mas sem perder sua característica masculina responsável e respeitosa dentro da sociedade.

Eonistas são homens que não fazem desta prática um trampolim para o sexo, sabem diferenciar o seu "eu" masculino do feminino. São comprometidos com a sociedade, responsáveis perante a família. Os eonistas não se excitam quando mulheres, não são guiados pelo fetichismo, não utilizam esta prática para atrair nem homens nem mulheres nem quer que seja para o ato sexual. Eonista é aquele homem sério e respeitoso que um dia se viu diante do espelho, e percebeu dentro de sua essência algo que o impelia para o travestismo sem que com isso caísse na marginalidade da sociedade.

Crossdressers ou Eonistas?

Com certeza. EONISTAS.


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