HORMÔNIOS

HORMÔNIO: UM DESEJO PROIBIDO?

Você sabe da existência deles, sabe o que eles fazem e deseja ter quadris mais largos. A impressão de que é só tomar comprimidos ou uma injeção e o corpo muda, gera a idéia da mágica dos hormônios. Mas prestemos atenção no que é anterior à eles. Lá na infância de alguém surge o desejo de usar roupas do outro sexo ou de querer ser uma menina, por exemplo. Isso pode evoluir até levar a pessoa a desejar ter atributos sexuais opostos à sua anatomia.

Acontece que o indivíduo aprende a reprimir esse desejo por um simples fato:

Ele observa, que em sua arrasadora maioria, todos estão muito bem posicionados em seus respectivos papéis, o masculino e o feminino. E tudo acontece na cabeça dessa pessoa de maneira que ela pense que é errado sair fora do padrão, uma vez que uma simples olhada à sua volta, lhe mostra que existem só homens ou mulheres no mundo.

Então, ela sente estar errada por querer usar roupas ou ter o corpo ou parte dele, iguais às de outro sexo. Essa pessoa tenderá a tentar se adaptar ao mundo que a cerca, num impulso natural para que ela se sociabilize.

Mas, e seu desejo? Pra onde foi ?

De fato, ninguém consegue resolver nada à força sem causar seqüelas e quebras... O desejo continua habitando o interior do indivíduo e quanto mais força se faz contra, mais lhe dá importância. Essa pessoa adquire a consciência de que tem um desejo proibido; convive com ele mas a separação é inevitável: ELE (desejo) de um lado... ELA (pessoa) de outro... Em sua rotina diária, ela terá que dedicar algum tempo para este desejo. Então, aparecerão seus atos furtivos. Momentos no seu dia em que ela faz coisas que ninguém pode saber. E serão coisas proibidas. E se essa pessoa flagrasse o próprio filho fazendo algo semelhante? Talvez ela o proíba, da mesma maneira que proíbe a si própria.

Não é fácil esconder algo de alguém, principalmente quando esse alguém se trata do mundo todo... Mas porque ninguém sabe do lado oculto dessa pessoa ? Bem, a resposta mais simples é:

- Porque ela não contou a ninguém.

E se contou, esse alguém manterá um sigilo sobre o caso a pedido da própria. E se ela tem contato com um círculo de pessoas iguais, é natural que ninguém mais tenha conhecimento dessa sua atividade.

Ela continua furtiva... Com a evolução dos fatos, esta pessoa pode querer se hormonizar. E os hormônios terão uma implicação muito maior do que as contra-indicações e reações adversas que a bula contém. Eles podem contar às pessoas o que estava escondido através de seus efeitos (os seios, os quadris mais largos, e as gordurinhas melhor distribuídas...). Eles podem denunciar todo esse lado furtivo de que até então a pessoa tinha absoluto controle, e essa, seria a principal e verdadeira contra-indicação.

Hormônio não é um desejo proibido. Proibidos são os desejos que a pessoa aprendeu a reprimir desde cedo quando saiu de casa, e se deparou com um mundo tão notavelmente organizado, e observou pessoas bem postadas em seus respectivos papéis.

Hormônios são remedinhos como quaisquer outros e que têm suas implicações endocrinológicas. É isso o que eles são. Não é bom idealizá-los. É bom desmistificá-los. Eles não são mágicos, são técnicos. São arquitetos de uma química humana...

Se essa pessoa optar por tomá-los e ainda esconder dos outros o que está fazendo, deveria pensar no seguinte:

Talvez em seu interior exista um universo, um mundo imenso que sua razão aprendeu a reprimir. No entanto, esse seu universo precisa de atenção, dedicação, sua acolhida e seu abraço... Ele talvez esteja aparecendo na vida consciente dela, como um enorme desejo, uma compulsão ou uma coisa que se repete sempre , sempre... Talvez ela tenha feito tanta força pra que ele não existisse, que sua individualidade tenha se dividido, rompeu, quebrou...

Mas esse mundo oculto é real e clama por ser visto. Ele quer falar, quer ter vez em sua vida... E age contra sua razão, pois está no outro extremo.

Talvez o ser humano que ela é, só deseje ser ouvido... só deseje ter um espaço no mundo... ser compreendido... Talvez queira contar ao mundo que ele existe, e que tem um lado que grita por um lugar... É necessário que esse ser consiga falar... É necessário que ele decida sua vida, estando em comum acordo a sua subjetividade e a razão, o masculino e o feminino, o inconsciente e o consciente, e que esses pares caminhem juntos dentro dele, sem que um seja maior ou mais intenso que o outro, ou que a permissão para existir, não seja exclusividade de um deles.

Se conseguir, finalmente este ser humano poderá ter alguma propriedade de seus atos, decidir com consciência, e saber como lidar com seu desejo que durante toda sua vida, estava proibido.

Mayara Frade

Mayara Frade era uma Transexual. Uma das fundadoras do Brazilian Crossdresser Club
Viveu socialmente como uma mulher e se hormonizou por mais de dois anos.
Aguardou sua cirurgia de mudança de sexo mas faleceu antes de realizar seu sonho.
Extraído do site de Marcella Vitória Ribas