AGOSTO 2002

SER MULHER...

por Jan Morris

VIDA DE MULHER

"O encontro com o resto do mundo foi mais abrupto. Dizem que a distância social entre os sexos está diminuindo, mas eu só posso relatar que tendo eu, na segunda metade do século vinte, experimentado a vida em ambos os papéis, parece-me não haver nenhum aspecto da existência, nenhum momento do dia, nenhum contato, nenhum arranjo, nenhuma resposta, que não seja diferente para homens e para mulheres. O próprio tom de voz com que agora se dirigem a mim, a própria postura da pessoa atrás de mim na fila, o próprio ar de um aposento quando eu entro, ou de um restaurante quando sento-me à mesa, constantemente enfatizam minha mudança de status.

"E se a resposta dos outros mudou, assim mudou a minha. Quanto mais eu era tratada como uma mulher, mais mulher eu ficava. Eu me adaptei rapidinho. Se presumiam que eu era incompetente para dar a ré em carros, ou para abrir garrafas, estranhamente incompetente eu me descobria ser. Se achavam que uma mala era muito pesada para mim, inexplicavelmente eu acabava por achar também. Como agora eu me encontrava muito mais na companhia de mulheres que de homens, comecei a achar mais afinidade na conversa das mulheres. As mulheres tratavam-me com uma franqueza que, ao passo que fosse uma das mais felizes descobertas da minha metamorfose, implicava que eu tinha me tornado membro de um campo, um lado, uma escola de pensamento; e assim eu me achava gravitando sempre na direção das mulheres, seja ao compartilhar um vagão de trem, seja ao defender a mesma causa política. Os homens tratavam-me mais e mais como "Junior", do mesmo modo como o Chevalier d'Eon tinha sido obrigado a aceitar um guardião em sua vida como mulher - meu advogado, em um momento distraído certa manhã, chegou mesmo a me chamar de "minha criança"; e assim, sendo dirigido como um inferior cada dia da minha vida, involuntariamente, mês após mês, acabei aceitando essa condição. E descobri que, mesmo agora, os homens preferem que as mulheres sejam menos informadas, menos hábeis, menos falantes, e certamente menos auto-centradas, do que eles são; de forma que, em geral, eu os atendia.

"É difícil lembrar agora o que a vida cotidiana era para mim quando eu era homem - inequivocamente um homem, quero dizer, antes que minha metamorfose tivesse sequer se iniciado timidamente. Às vezes, no entanto, por um esforço consciente, eu tento recapturar a sensação, e percebo o contraste em minha condição agora. Diverte-me considerar, por exemplo, quando sou levada para almoçar por um dos mais gentis dos meu amigos homens, que há não muitos anos atrás o empertigado garçom estaria tratando a mim como agora está tratando a ele . Então, ele teria me cumprimentado com seriedade respeitosa. Agora, ele desdobra meu guardanapo com um floreado alegre, como se para me divertir. Então, ele teria anotado meu pedido com grave concentração, agora ele espera que eu diga algo frívolo (e eu digo). Então, ele teria ao menos fingido respeitar meu conhecimento de vinhos, agora não sou nem mesmo consultada. Então, ele teria se dirigido a mim como a um superior, agora ele parece pensar em mim (pois é um homem de índole alegre) como uma cúmplice. Sou tratada, é verdade, com a deferência convencional que uma mulher espera, o mover de cadeiras, o oferecer de casacos, a abertura de portas; mas eu sei que se trata de deferência de segunda classe, e que o homem atrás de mim é o cliente que conta.

Jan Morris, Conundrum, NY, Henry Holt and Company, 1987.