
JULHO / 2005
DAS PROFUNDEZAS DA ALMA DE UMA CROSSDRESSER
Por SAMANTHA VOLLPI - 01/06/2005
Após ler no nosso grupo de correio eletrônico quase 50 mensagens sobre o desabafo iniciado pela Jorgete Del Rio, começo agora o meu desabafo.
A discussão surgiu com o fato de muitas CDs, a maioria novatas, não se esforçarem no desenvolvimento do seu crossdressing e na realização do grande sonho de todas (ou quase todas) de se tornarem associada REAL do BCC. Ou seja, ter a maravilhosa experiência de sair nas ruas montada e curtir ser mulher, ainda que por algumas horas.
Pelos depoimentos que li, algumas CDs se satisfazem vestindo apenas uma calcinha e ficando diante do computador conversando com outras ou visitando sites de sapatos, roupas ou de qualquer outra coisa do gênero. E há algumas que também se satisfazem se montando ou se produzindo de 3 em 3 meses, sem sentir nenhuma falta no período de hibernação. Para estas, o meu desabafo não vai ter importância nenhuma.
Mas, grande parte das CDs têm uma porção mulher dentro de si que necessita de exposição ao público, de sair do armário, enfim, de VIVER!
A grande questão é COMO poderá realizar esse intento?
Dificuldades, compromissos e limitações, todas nós temos.
O que se tornou o "X" da questão é COMO CONCILIAR CASAMENTO E CROSSDRESSING?
Contar ou não contar para a esposa?
Para mim o contar ou não contar vai depender do grau e valor do crossdressing na vida de cada uma de nós. Se for importante e forte como o meu, da Denise, da Jorgete, da Bruna, da Leticia e tantas outras, então senta e conversa.
Não sou casada e não estou namorando no momento. Moro ainda com meus pais e dependo financeiramente deles. Mas estou a um passo de me abrir com minha mãe, pois não gosto de mentir e inventar estórias sobre o porquê tenho me depilado, o porquê dos fins de semana em lugar desconhecido, etc...
Quando tinha 16 ou 17 anos, meus pais me flagraram com roupas da minha irmã. Meu pai ameaçou me expulsar de casa se aquilo acontecesse novamente. Hoje tenho quase 36 anos e tenho constantemente avançado no meu caminho de ser CD.
Já joguei dúzias de roupas fora, mas, desde 2003, quando encontrei o site da Betinha e li as características sobre o que é ser CD, eu me encontrei. Chorei e disse: "Essa pessoa me conhece, leu meus pensamentos!"
Daí em diante, foi uma sucessão de descobertas. O BCC, pessoas iguais a mim, CDSessions, HEF - Holiday en Femme. Hoje sou uma pessoa feliz.
Gente, não escolhemos ser assim. Isto nasceu com a gente e está na nossa alma. Se você tem medo de perder sua esposa, vai viver com medo para o resto da vida e ser infeliz. Acredito no amor e acredito que casamento é uma relação baseada em AMOR, CONFIANÇA, CUMPLICIDADE, AMIZADE, COMPANHEIRISMO e por aí vai.
Vocês que casaram, obviamente fizeram o juramento de amar na saúde e na doença, na tristeza, na riqueza e na pobreza, entre outros bla bla blas...
Se a tua esposa te ama de verdade, vai compreender e te aceitar, pois QUEM AMA QUER A FELICIDADE DO OUTRO.
Tenho absoluta certeza de que quando abrimos o coração para alguém não seremos abandonados. Falar sobre o nosso crossdressing, é falar com a alma. E falar com a alma é derrubar TODOS os argumentos contra, mostrando e convencendo ao próximo que a sua natureza é essa, isto te faz feliz, te completa e nada no mundo vai mudar seu jeito de ser.
Ao voltar da Parada Gay de Sampa, contei para a filha da minha S/O. Ela tem 14 anos e uma cabeça incrível. Sabem o que ela me pediu? Para a Samantha ir pegá-la na saída da escola!!!! Não fosse a escola dela bem próxima da minha casa, eu iria. Não estou me abrindo para todos que me conhecem, mas se alguém bem próximo a mim me perguntar, já não faço muito esforço para esconder. Nem para minha mãe, se vier me perguntar alguma coisa, eu vou mentir.
Sei do risco que corro de ser incompreendida, mas não quero mais sofrer. Ser a Samantha é o motivo de estar viva, é o que me faz viver e ser feliz. E SE ALGUÉM FOR CONTRA, QUE VÁ PROCURAR A SUA TURMA, POIS NÃO FAÇO QUESTÃO DE CONVIVER COM QUEM NÃO ME ACEITA COMO SOU, pois se são meus amigos, devem querer a minha felicidade.
Meninas, tudo vai depender da maneira como vocês vão contar e se abrir para as suas esposas. Mas falem com a alma, com o coração.
TODAS as pessoas com quem já me abri, me deram força, me apoiaram e o melhor de tudo, a amizade ficou muito mais forte, pois foi um voto de confiança que lhes dei e isso todas elas reconheceram e me agradeceram por nelas confiar.
Para vocês terem uma idéia, já falei sobre isso no grupo de correio eletrônico do BCC. Sempre que falo a respeito do meu crossdressing, da importância que isto significa na minha vida, eu choro. É impossível segurar as lágrimas e agora não está sendo diferente. Por isso, digo a vocês que conversem com suas esposas e não tentem segurar as lágrimas, caso elas surjam. Não tenham vergonha de ser o que te faz feliz.
Tenham sempre em mente: SÓ A VERDADE TE LIBERTARÁ
Para as que sonham em se tornar REAL, só posso dizer que vocês não fazem idéia da alegria e felicidade que estão perdendo. Não dá para traduzir em palavras. Somente vivendo na pele e na alma para saber que SER MULHER É BOM DEMAIS !!!!!
NOTA DO BCC: Apesar do depoimento bonito, corajoso e emocionado da SAMANTHA VOLLPI, que transformamos em editorial, esperamos que todos reflitam por bastante tempo se eventualmente vale à pena uma situação de litígio com a esposa, se ela vier a não aceitar sua condição de CROSSDRESSER.