
JUNHO / 2005
A PARANÓIA DA CROSSDRESSER E O PRECONCEITO DE SEU PATRÃO
Por Suzy Kelly
O preconceito é um dos piores males do nosso mundo dito racional e avançado. E esse mal pode ser observado em nosso dia a dia com exorbitante freqüência.
Na Europa temos visto as manifestações dos torcedores de futebol contra os atletas negros ou descendentes. Na América do Sul os argentinos chamam os brasileiros de “macaquitos” porque nas antigas seleções brasileiras de futebol predominavam os descendentes da raça negra.
Isto significa que esses preconceituosos ainda seguem de forma conservadora e irracional aquela absurda doutrina nazista, preconizada por Adolf Hitler, de que a raça ariana é superior
Entre os teóricos do racismo alemão, os arianos eram europeus de raça branca supostamente pura, descendentes dos árias - povo pré-histórico da Ásia Central que teria migrado para a Europa e para a Índia.
Os empresários também cultivam vários tipos de preconceitos, mantendo-os latentes e em prejuízo próprio. Os realmente inteligentes bem que poderiam tirar proveito dessa esdrúxula situação, mas preferem estupidamente cultuar o antigo preconceito herdado de seus antepassados ou absorvido de estranhos em razão do seu baixo tino (discernimento). O inexplicável é que o preconceito se verifica principalmente naqueles que em tese possuem cultura mais avançada e que conseguiram o sucesso financeiro através das vias profissionais e empresariais.
Alguns profissionais das artes e das comunicações também procuram irradiar o preconceito em seus eventos e programas. O ator e entrevistador Antonio Abujamra, por exemplo, em seu programa “Provocações” da TV Cultura de São Paulo demonstrou alto grau de preconceito contra Paulo Coelho, talvez com inveja do consagrado sucesso nacional e internacional do citado escritor. Isto aconteceu quando entrevistava uma antiga atriz ou teatróloga (não lembro exatamente quem era), a qual revelou que ia fazer seções de psicoterapia para ler Paulo Coelho. E entrevistador se opôs, dizendo: “Não faça isso! Espero que não consiga!”.
Acho que a entrevistada tinha razão. De fato, diante da gravidade com que determinadas pessoas se apegam ao preconceito, podemos considerá-lo como um problema psicológico e até psiquiátrico.
Outro exemplo: Paulo Vanzolini (cientista e compositor), que se tornou diretor do Museu de Zoologia, declarou em outra edição do citado programa de televisão que são desonestos os compositores que fazem música para vender e assim enriquecerem facilmente.
Diante de tais declarações podemos ver que boa parte dos artistas não elitistas só enriquece porque compõe para o consumo popular. Isto significa que muitos dos preconceituosos preferem ficar menos ricos a se exibirem ou venderem às populações dos guetos suburbanos ou mesmo para aquelas não tão endinheiradas.
O mesmo acontece no teatro e nas artes plásticas. Nenhum artista famoso se apresenta ou vende suas artes a preços que os pobres possam pagar. Fazem questão de disseminar verdadeira segregação ou “apartheid” social.
E assim também fazem muitos empresários que só produzem para vender às elites. Percebe-se claramente que a elite não quer permitir o ingresso dos mais pobres em suas fileiras culturais e consumistas.
Certa vez aconteceu fato interessante. Um colega de trabalho disse que se ganhasse na loteria ia montar uma agência de automóveis para vender carros importados somente para ricos. Disse a ele que os ricos não compram em empresas de pobres. Assim sendo, ele só conseguiria vender se os preços lhe proporcionassem prejuízo, o que provocaria rapidamente a sua falência.
Por causa desse preconceito generalizado muitas crossdressers fazem questão de ficar incógnitas, não só as de pele escura como também as das demais etnias ou procedências raciais. Pelo simples fato de serem pessoas diferentes (não convencionais), podem ser discriminadas nos locais em que venham a freqüentar, no trabalho e até no seio familiar.
Mas, já existem empresários que estão pensando como verdadeiros capitalistas e não como escravocratas inconseqüentes. Nos tempos da escravidão a produção era exportada ou em pequenas quantidades vendida às elites brasileiras e estas preferiam comprar produtos importados, situação que se perpetua até os dias de hoje.
Os verdadeiros capitalistas não têm preconceitos quando há a possibilidade de ganhar dinheiro. É o que estão fazendo os empresários dos países chamados de “tigres asiáticos”. Enquanto a elite empresarial mundial se recusa a vender aos mais pobres, os asiáticos fabricam especialmente produtos para serem consumidos pelo povão e por isso estão ficando ricos. Agora, alguns empresários brasileiros acordaram e estão reclamando da concorrência desleal dos asiáticos, porque lá os trabalhadores são semi-escravos. E por isso querem implantar a semi-escravidão também aqui, mediante a alteração da CLT - Consolidação das Leis do Trabalho.
Significativa parte de empresários progressistas está na área de turismo. Mas, este grupo é constituído principalmente por pequenos e médios empresários. Eles estão aceitando em seus estabelecimentos o turismo GLS (de Gays, Lésbicas e Simpatizantes). O próprio BCC organiza anualmente o HEF – Holiday en Femme, que é realizado em hotéis cujos dirigentes ou proprietários já têm essa chamada “mente aberta”.
Então, diante desses fatos podemos perceber quanto um empresário poderia ganhar em publicidade gratuita se em sua empresa fossem admitidos crossdressers, travestis, transexuais, gays e lésbicas. Além de conquistar os consumidores dessas classes, ainda poderiam ter a ajuda indireta dos meios de comunicação, de muitas organizações não-governamentais e dos organizadores das Paradas Gays, que agora também são patrocinadas pelo Ministério da Cultura.
Justamente em razão desse exacerbado preconceito dos patrões, alguns dos “diferentes”, como as crossdressers, vivem escondidos, com medo de serem reconhecidos, para evitar que sejam despedidos pelas empresas em que trabalham. Isto já aconteceu com diversas associadas do BCC, embora nunca tenham ido trabalhar com roupas femininas aparentes. Foram ridicularizadas e despedidas somente porque se tornou pública a sua situação de crossdresser.
O interessante dessa questão é que os gays e lésbicas geralmente NÃO sofrem de tanta repulsa ou "homofobia" (aversão a homossexuais e ao homossexualismo). Vemos pessoas desses segmentos trabalhando naturalmente em diversas empresas privadas ou públicas, sem esconder sua condição, porém, nessas mesmas empresas não vemos crossdressers, travestis e transexuais. Entretanto, podemos observar que algumas emissoras de televisão têm dado emprego a uma parcela desse segmento de travestidos, que são as chamadas “drag queens” ou transformistas caricaturais.
Com o intuito de agradar a gregos e troianos, há algum tempo a TV Globo passou a contratar artistas negros e apresentou um programa teatral em que quatro atores faziam papéis duplos, sendo ora homens e ora mulheres na mesma encenação (um dos atores era negro). Agora está apresentando um novela em que se apresenta uma crossdresser.
Nos quadrinhos ou "tiras" do Jornal Folha de São Paulo, Seção Informática, o caricaturista Laerte apresenta o personagem Hugo, que depois de um árduo dia de trabalho, tal como qualquer crossdresser, não dispensa o relaxamento mediante sua transformação em mulher, a Muriel.
Parece que a divulgação, os esclarecimentos e as informações veiculadas pelo site do BCC nos últimos oito anos estão surtido efeito, porém, ainda existem preocupações.
Várias transexuais transmutadas por processo cirúrgico, que vivem diuturnamente como mulheres, não revelam sua situação anterior para evitar que sejam ridicularizadas, perseguidas e despedidas em seus empregos. E por isso, até se desligaram do BCC assim como também fizeram várias crossdresers que foram reconhecidas e perseguidas. Mas, as transexuais ainda encontram um outro problema: a dificuldade de conseguir a mudança da identidade masculina em seus documentos. Geralmente não conseguem emprego porque se apresentam com identidade de homem e com aparência de mulher.
Empresas também já demitiram funcionários cuja característica física estava sendo paulatinamente modificada, incluindo a vestimenta (Isto só não acontece no serviço público). É justamente em razão dessas perseguições que se desenvolveu principalmente nas crossdresser e transexuais uma verdadeira paranóia, fazendo com que escondam essa sua forma de ser com preocupação e nervosismo (excitação psíquica).
A paranóia é uma psicopatia caracterizada pelo aparecimento de ambições e de suspeitas que se acentuam, evoluindo para delírios persecutórios, conforme nos esclarece o dicionário Aurélio. Nessa psicopatia não há aparentemente interferência sobre outros aspectos do pensamento e da personalidade do indivíduo.
É por isso que toda crossdresser, travesti e transexual se sente eternamente perseguida, embora geralmente sejam pessoas com personalidade e desempenho intelectual e profissional considerados normais e muitas vezes acima do normal. E essa paranóia se acentua porque realmente existe essa perseguição às pessoas que apenas se apresentam esporadicamente com roupas do sexo oposto ou que querem verdadeiramente ser como elas.
Depois de todas essas considerações, ainda fica outra problemática que podemos reputar como mais grave. Diante desse arraigado preconceito, imaginem o que a esposa de um empresário poderá pensar, e fazer, quando souber que seu marido tem uma secretária, assistente ou colega de diretoria crossdresser, travesti ou transexual.
Veja também "A VINGANÇA DAS S/O".