
ABRIL / 2005
NÃO DÁ PARA NÃO PARTICIPAR
Por Leticia Lanz
Para mim, todo esse vai-e-vem, entra-e-sai e “dá-as-caras/desaparece” no BCC é apenas uma pequeníssima amostra do grau de confusão mental-comportamental do homem contemporâneo e do seu grande desconforto em habitar esse mundo “moderno”, que ele próprio criou e sustenta, com tanto empenho.
Até nisso eu morro de inveja da mulher de hoje: - ela sabe o que quer - e o que não quer. Seus desejos estão cada vez mais claros e explícitos. A cada momento, ela demonstra mais segurança e firmeza nas suas escolhas, as quais se tornam cada vez mais “redondas” e pontuais. (Na verdade, se ela fosse menos obstinada, já teria provocado uma mudança estupenda nas relações humanas. Acontece que ela continua criando o homem para ser homem, no velho estilo de homem. Mas isso é outra discussão...)
Desnecessário lembrar que, até pouco tempo atrás, segurança e firmeza nas escolhas eram virtudes tipicamente masculinas... Pois é. O pêndulo se inverteu. Hoje está claríssimo que o homem é que não sabe o que quer da vida. Ou, se sabe, tem um medo absurdo de querer e um medo mais absurdo ainda de demonstrar o que quer (e ainda se diz por aí que ele é muito mais livre do que a mulher...).
Não falo de cátedra, nem estou teorizando a respeito da existência do homem. São os meus próprios conflitos e contradições, sobretudo os (inúmeros) conflitos não-resolvidos, o meu “drama” pessoal, enfim o que se passa comigo na minha intimidade, que me autoriza a “enxergar” o que se passa com os demais. Quem não se enxerga, não consegue enxergar mais ninguém.
Nos dias atuais, a mulher pode até não conseguir, mas que ela tenta, tenta, e com que tenacidade! Tropeça, deixa-se apanhar nas armadilhas da ancestral e decadente dominação masculina, cai enredada na sua longa história de passividade e submissão. Mas mergulha de cabeça, vai fundo e vai até o fim, abraçada ao seu desejo de unhas (geralmente feitas...) e dentes!
O homem, na sua esmagadora maioria, ainda nem se tornou “sujeito desejante”! Por enquanto, por todo lado que se olha, continua a ser “sujeito faltante”, principalmente faltante da sua própria história... Quando muito, se torna “sujeito falante”, como eu estou sendo nesse momento, pois esse é o grau de participação que eu consigo no momento – e dele não me omito. Mas “sujeito atuante” é ainda a minoria, em geral vista com muito preconceito e reserva pela grande maioria de sujeitos faltantes.
Portanto, meus respeitos às Reais Reais do BCC! Vocês realmente são um grupo que faz a diferença no quadro de natureza morta desse patético mundo masculino “terceiro-milenista”.
Vocês do BCC têm me ajudado a descobrir que eu posso querer, que é lícito eu querer, e que eu posso externar o meu querer com outras pessoas, pelo menos com outras que compreendem o meu querer. É assim que o BCC legitima o meu querer, dá suporte moral para que eu queira e me ajuda a continuar querendo, livre do medo e da culpa de querer algo que nem todo mundo quer e que a maioria, na sua alienação, continua a achar que é errado, ridículo ou perverso querer. Esse é o sentido político da nossa união, que a Jorgette, na sua proverbial capacidade de síntese, enfeixa na máxima “CD sozinha não vai a lugar nenhum...”
Na sua esmagadora maioria, os homens continuam a ser um bando de caçadores, vivendo na pré-história da humanidade (que a Carla Mel não me ouça; ainda bem que ela está de férias...). A diferença, (que é, ao mesmo tempo, o grande problema) é que o território se expandiu ao infinito, tornou-se sobretudo virtual, enquanto a “caça” (os itens tradicionais de caça, com a mulher aí incluída) só vem encolhendo, sendo que, em muitos itens, praticamente desapareceu.
Quando o território espicha e a caça encolhe, os caçadores acabam dando voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum, completamente perdidos e sem referência, tentando orientar-se por antigos símbolos que, há muito tempo já deixaram de ter qualquer significado prático.
O BCC está trazendo significado novo para velhos "signos femininos" na vida de cada “uma” de nós, nascidas homens. O fortalecimento do Clube, que só se dá mediante a participação de todas nós, significará cada vez mais liberdade, mais felicidade, aumento da consciência coletiva, orientação e suporte para a ação. Menos gente sofrendo inutilmente e muito mais gente de bem com a vida (eu continuo acreditando que só a liberação do potencial feminino existente em cada uma de nós e em cada homem pode dar novo rumo à história da humanidade).
Sorte de quem o encontrar. Azar de quem não tiver a ousadia de participar...
Atualizada em 02/06/2005