DEZEMBRO/2004

O LAMENTÁVEL EQUÍVOCO

Por Suzy Kelly

Uma associada do BCC – Brazilian Crossdresser Club encontrou um artigo publicado no site denominado Casa da Maite que a surpreendeu e causou indignação em todas as demais associadas que tomaram conhecimento de seu teor. O texto fazia o leitor desinformado crer que as crossdressers eram profissionais do sexo que andavam pelas boates, principalmente da cidade de São Paulo, comercializando seu corpo.

Uma das associadas do nosso clube, antes mesmo de qualquer manifestação oficial, escreveu uma mensagem ao articulista chamando sua atenção para o equívoco cometido. Mas, o mesmo mostrou desconhecer os princípios determinantes de nossa causa ao escrever, em resposta a nossa colega, que de fato em São Paulo as crossdressers faziam ponto sexual em boates.

Obviamente que a Maite Schneider, mantenedora do citado site, tinha colocado no ar aquele texto escrito por um de seus colaboradores sem tomar conhecimento de seu inconseqüente conteúdo. A Maite já foi associada do BCC, ocasião em que foi eleita MISS BCC de 1998 e, quase sempre, reúne-se com associadas do nosso Clube na cidade de Curitiba, onde reside, e também na cidade de São Paulo por ocasião da anual Parada da Diversidade. E, por esse motivo, ela conhece perfeitamente as diretrizes do BCC e sabe muito bem que nossas associadas não ficam oferecendo-se para atividades sexuais em boates. Por essa razão, imediatamente depois de alertada do lamentável equívoco retirou a tal matéria do ar, segundo ela, inclusive a pedido do próprio articulista, que reconheceu a sua impropriedade.

No site do BCC estão bem claras as finalidades do clube e o que realmente pretendem as suas associadas. Isto vem chamando a atenção de alguns estudiosos principalmente pela seriedade com que as matérias são tratadas, razão pela qual nossa página na internet tem recebido vários elogios desses mesmos estudiosos e de simpatizantes de ambos os sexos. E pelo menos uma psicanalista está defendendo tese de doutorado sobre nosso jeito de ser, tendo em vista que os famosos mestres da psicologia e da psicanálise do passado não chegaram a pensar em tal segmento.

Não temos preconceito e não discriminamos as demais categorias de “transgêneros” ou de “diferentes” na forma de ser e de se vestir. Apenas queremos deixar bem claro que o principal intento de nossa categoria não está ligado ao sexo. O sexo pode até ser uma conseqüência, mas, nunca, a finalidade precípua.

Crossdresser ou eonista é aquele homem que cultua as coisas femininas e o ser ou estar mulher ou aquela mulher que adora o jeito de ser masculino. Os trajes utilizados são aqueles mais apropriados ao antagônico no seu dia a dia ou tal como os utilizados quando comparecem a lugares comuns a todas as pessoas como bares, restaurantes, festas, boates, teatros, casas de shows, coquetéis, recepções, lojas, shopping center, entre outros recintos públicos. Ou seja, a principal finalidade da crossdresser é a de se apresentar o mais fielmente possível como uma pessoa do sexo oposto, sem caricaturas ou trejeitos irrealistas e muitas vezes sem modificar radicalmente a originalidade de sua voz.

Ao contrário dos profissionais do sexo, nos lugares que freqüentam muitas crossdressers levam consigo suas esposas ou companheiras, amigos e amigas, familiares e até filhos de ambos os sexos, tal como fazem, por exemplo, os nudistas em suas colônias. A única diferença é que os crossdressers usam roupas do sexo oposto e sempre procuram estar bem vestidas.

Inclusive em nosso clube temos um grupo de correio eletrônico especialmente dedicado às S/O – Supportive Opposite, que são as companheiras, esposas, amigas ou familiares que apóiam as crossdressers (Veja mais detalhes clicando em ESPAÇO S/O). E também aceitamos a participação de simpatizantes, desde que conhecidos pessoalmente por uma ou mais associadas da categoria REAL, que são aquelas conhecidas pessoalmente por uma ou mais associadas da mesma categoria.

A designação crossdresser não é nova, pois pesquisadores franceses dizem ter origem em Charles de Beaumont, o Cavaleiro de Éon, nobre oficial francês que viveu de 1728 a 1810 e que foi diplomata ou representante do governo monárquico francês na Rússia e na Inglaterra, conforme explica o texto de nossa saudosa diretora Ângela Augusta Giacometti (Guta), intitulado “EONISMO”. O interessante é que o Dicionário Aurélio define o eonismo (eon+ismo) como “travestismo em homem”, mas não possui o significado da palavra travestismo ou travestista, que seriam usadas em francês e espanhol (línguas latinas como a nossa). Eonismo ou eonista seriam então os termos a serem usados em português em substituição ao crossdresser aqui utilizado na denominação social de nosso clube, de origem anglo-saxônica, em razão do maior clube dessa categoria de diferentes estar nos Estados Unidos.

Outra de nossas diretoras, a Elisabeth Bardotti, um mês antes da Guta também escreveu um texto intitulado “Crossdresser ou Eonista?”, demonstrando sua preocupação, pois vinha observando que alguns profissionais do sexo, em salas de bate-papo na internet estavam se autodenominando crossdresser com a finalidade de conseguir clientela ou freguesia. Talvez tenha sido este fato que levou o citado articulista a se equivocar. De fato existem impostores querendo se passar por crossdresser tendo em vista que essa categoria aparentemente tem mais credibilidade, devido ao nosso esforço de bem informar e de esclarecer a opinião pública por intermédio de nosso site. Algumas associadas já estiveram no Programa Goulart de Andrade com essa finalidade esclarecedora, quando transmitido pela TV Gazeta. E uma dessas nossas associadas também participou de reportagem da Revista Marie Claire, intitulada “Casais Unisex”.

Como não temos preconceito, podemos dizem que, tal como em qualquer segmento social, em nosso clube também existem homossexuais e bissexuais, além dos heterossexuais, tanto os nascidos masculinos como também alguns femininos. No seio de tal diversidade, pelo menos uma de nossas associadas submeteu-se a operação cirúrgica de mudança de sexo e outras também do sexo masculino estão no caminho hormonal e cirúrgico do feminino. Poucas se definem como travestis ou drag-queens. Mas, isto não significa que algum de todos esses esteja acintosamente à procura de fregueses sexuais.

Admitimos que no BCC possa existir uma ou outra pessoa conseguindo esporadicamente namorado ou namorada nos lugares que freqüenta. Isto é, existem muitos indivíduos que preferem uma mulher para namorar e outros tantos que preferem um homem. Entretanto, isto também não significa que façam do sexo seu meio-de-vida. As características educacionais, culturais e profissionais das associadas do BCC, pelo menos daquelas conhecidas pessoalmente por outras e que são justamente as que se apresentam em público, nos levam a afirmar categoricamente que não necessitam da prostituição como meio de sobrevivência.

Não somos contra os e as profissionais do sexo. Aliás, dizem que esta é a profissão mais antiga do mundo. Apenas lamentamos que a falta de oportunidades aos diferentes, os obriguem a buscar a profissionalização do sexo como meio de vida. Assim como os negros e os deficientes físicos, os diferentes também merecem oportunidades. Mas, não venham as OGNs querer curá-los. Tal como os negros, os diferentes não precisam de cura, necessitam apenas de oportunidade para estudar e trabalhar.

O pior é que essa falta de oportunidade dos diferentes está diretamente ligada ao preconceito e à discriminação, não propriamente por serem eventualmente homossexuais, mas sim por usarem roupas consideradas do sexo oposto. As pessoas nessa última condição são perseguidas desde a mais tenra idade no próprio convívio familiar, passando depois a serem ridicularizadas na adolescência pelos colegas de classes escolares e de crenças religiosas, o que também atinge, quando adulto, os meios profissionais considerados normais e lícitos.

O relevante nessa questão é que essa discriminação não tem acontecido plenamente contra os homossexuais assumidos que usam as roupas características de seu sexo de nascimento. Eles são mais aceitos do que os usuários de roupas do sexo oposto e principalmente do que os chamados “travestis”, que modificam seu corpo através de implantes ou do uso de hormônios, sem a modificação cirúrgica de sua genitália. Isto significa que o preconceito e a discriminação não é propriamente contra a chamada “opção sexual” do indivíduo, mas, sim, contra a sua forma de vestir, o que também tem acontecido com os “punks”, que são jovens apreciadores da chamada música “punk” e que se vestem de maneira dita “chocante”, usam cabelos coloridos e enfeites de metal e protestam contra tudo que é convencional.

Ao contrário dos “punks”, as crosscressers geralmente usam roupas convencionais. A diferença básica é que as roupas são do sexo oposto.

Veja mais em “Editoriais”, “Artigos e Teses” e “Nós na Mídia”.

Atualizada em 02/06/2005