
NOVEMBRO/2004
AS FASES E OS PROBLEMAS EM NOSSAS VIDAS
Adaptação de texto de diversas crossdresser
Uma crossdresser, em sua versão sapo, foi à casa de um velho amigo, um daqueles que não fazem a mínima idéia de sua orientação sexual e do seu crossdressing.
O tinha conhecido ainda jovem e durante muito tempo foram bons amigos. Mas, com passar dos anos, perderam contato.
Algum tempo depois, a nossa crossdresser teve a oportunidade de rever o velho amigo, agora com esposa e uma filhinha.
Ao olhar para aquela cena, de uma família constituída, ficou sensibilizada ao ver seu velho amigo cuidando de sua filha com amor e carinho e sua esposa sorrindo orgulhosa. E seus olhos se encheram de lágrimas. Não só pela beleza da cena, da ternura existente entre eles, mas principalmente por ter realizado aquilo que era, de certa forma, o mais próximo que chegaria de uma jovem família, pois achava que nunca teria a sua própria.
Naquele momento a nossa CDzinha, mais do que nunca, desejou ter nascido homem ou mulher heterossexual, para que pudesse desfrutar daqueles momentos com sua própria família, encontrando a felicidade e a realização, tendo em seus braços uma pequena criatura que contivesse parte de sua herança genética, sem levar em consideração que, na maioria casos, as coisas não acontecem como se sonha.
Nesse momento, começou a rejeitar o seu jeito crossdresser de ser, sentindo um vazio, pois sabia que, por ser assim, sua existência poderia ser sempre incompleta. Sempre querendo ser mulher, mas nunca realmente sendo. Sempre querendo viver um grande amor, mas nunca realmente vivendo. Sempre querendo ter uma família esperando por ela em casa, mas nunca tendo. Ainda sem levar em consideração que, para muitos, a volta para casa é um tormento, do que se originam as separações judiciais e, muitas vezes, até tragédias.
Porém, existia um outro impasse. Mesmo que reprimisse meus instintos, casasse e tivesse filhos, sendo uma crossdresser, não se sentiria completa. E, por isso, gostaria de poder ser algo diferente.
Foi quando uma outra crossdresser, casada e com filhos, depois de escutar seus lamentos, disse:
- Você abordou um tema que sensibiliza toda crossdresser.
- Constituí família, tive filhos, senti as emoções de ser pai. Dividi com minha esposa as tarefas de mãe. Fiz churrascos com a família, joguei pelada e empinei pipa com meus filhos, fizemos castelos de areia na praia, pescamos juntos e rolamos no tapete da sala. Enfim, fiz tudo que se pode chamar de, digamos, normal e realizador para os padrões, e álbuns de fotografias, daquilo que entendemos e almejamos como família.
- Quero com isso dizer que também senti tudo aquilo que você presenciou na família de seu amigo. Não me arrependo do que fiz. Muito pelo contrario. Tenho imenso orgulho da minha família. Sou grata a Deus por tê-los e não os deixaria por nada. Tenho a compreensão deles. E tenho na medida do possível conseguido conciliar minha vida de pai com a vida de crossdresser.
- Mas veja como fica o coração. Se eu hoje tivesse que começar de novo, ou tivesse que dar um conselho a uma amiga eu diria que não se deve tentar enganar a si mesmo. Eu tentei durante toda a minha vida fugir da minha realidade. E hoje o preço que eu pago é algo que eu não sei se vou suportar.
- E depois de imaginar ter conseguido realizar todos os meus sonhos, olho para dentro de mim e descubro que tentei em vão negar a minha verdadeira essência. Isto é impossível. E mais: vou ter que carregar sempre um sentimento de culpa por ter feito minha família, e mormente meus filhos, muitas vezes infelizes pelo fato de terem um pai que, com toda a certeza, não é o pai que todo filho sonha, embora tenha tentado compensar de todas as formas minhas imperfeições. Mas, tenho consciência de que isto também é impossível.
- Enfim, pela nossa própria condição, pela nossa dualidade de ser, vamos sempre achar que escolhemos o caminho errado, pelo simples fato de não conhecermos, na prática (na realidade), o outro lado da vida, o outro caminho que podia ser trilhado.
- Mas, a verdade é que durante toda nossa existência nos deparamos com a difícil tarefa de escolher ou optar. E escolher nossos caminhos é na maioria das vezes decisivo para nossa felicidade e para nossas realizações. A grande verdade é que não existe argumento que supere as evidências. E não existe razão que supere o coração. Não devemos negar nunca nossa intrínseca trangeneridade. Ou até mesmo imaginar subterfúgios que possam dissimula-la. Esse jeito de ser não vai mudar com o passar do tempo.
- Arrepender-se por ter feito é remediável, suportável e, as vezes, até reversível. Porém, a dor da angústia de não termos tentado fazer é irremediável, insuportável e quase sempre irreversível.
Outra crossdresser também quis externar sua situação:
Você levantou uma questão muito importante e ótima para ser debatida. Me identifiquei muito com o seu drama pois vivo o mesmo dilema. E foi muito bom saber que não estamos sozinhas e que muitas vivem tentando fugir do mesmo fantasma. E o BCC tem se prestado muito bem a esse papel de aproximar pessoas.
Nunca me imaginei construindo uma família, por diversos motivos (financeiros, estabilidade, minha individualidade, meu crossdressing, etc). Apesar de curtir muito brincar com crianças (adoro meus sobrinhos e os filhos dos meus amigos), sempre preferi o papel do tio, que se aproveita das brincadeiras, sem passar pelas responsabilidades de ser pai (acordar no meio da noite porque o bebê está chorando, deixar de viajar ou sair à noite por não ter com quem deixar as crianças, por exemplo). Mas no fundo, o que mais me impedia de sonhar com isso, acho que era o fato de curtir muito o meu crossdressing.
Tive poucos relacionamentos afetivos, sempre com mulheres e o ato sexual pra mim sempre foi muito complicado, cheio de neuras, medos e frustrações.
Atualmente, procuro por uma namorada que possa confiar meus segredos de cd. E sabes que não é fácil. Contar logo no inicio ou deixar aumentar o sentimento e correr o risco do abandono?
Tenho andado à minha procura, tentando me encontrar, me definir, saber o que realmente gosto e desejo. E nesse tempo todo, venho me sentindo sozinha, vazia, perdida... sempre estive assim...antes de conhecer o BCC, era pior, muito pior...
O fato de ter pessoas próximas com o mesmo sofrimento, não conforta, não muda a situação, mas possibilita desabafar com gente que entenderá o problema. Só o desabafar, já ajuda muito!
Dedico bastante tempo da minha vida ultimamente para o BCC... me afastei de muita gente, deixei de sair com os amigos para ficar conversando entre nós.
As viagens que fiz, em que pude ter a sua companhia em duas delas, fizeram muito bem a mim. Além de conhecer pessoas maravilhosas, vivi e realizei diversos sonhos antigos e sufocados. Vivi o meu lado feminino na sua plenitude. O efeito colateral nessas viagens foram as crises de choro na hora da volta para casa e para a realidade. Para realizar essas viagens, deixei de sair à noite o mês inteiro, mas, valeu muito a pena!
O crossdressing está muito forte na minha vida e preciso estar ao lado de pessoas que aceitem isso em mim. e isto não é fácil. É uma luta diária. Vivi minha vida inteira em depressão. Amanha mesmo começo a tomar anti-depressivo. Tenho tido crises enormes de enxaquecas. Outras colegas sabem o que estou passando.
Mas não busque solução no álcool. Isto só vai piorar a situação.
Foi bom ter tocado nesse assunto, precisava mesmo conversar com alguém que estivesse passando por isso. Mas, não queria que tivesse alguém passando por isso.
Se me perguntassem o que desejo da vida, em termos de relacionamento, sinceramente ainda não sei. Somente o tempo dirá.
Mais uma crossdresser externou sua opinião:
A família é definida pelos laços de afeto.
O conceito de família é muito mais amplo do que apenas "o papai, a mamãe, o filhinho e o cachorro em uma casinha branca no campo...". Sei que esse pode ser o sonho da maioria das pessoas, mas não seria mais uma convenção imposta pela sociedade?
Pessoas que se amam, mesmo que não possuam nenhum grau de parentesco, podem formar uma família. Amigos podem fazer parte da sua família, por que não?
O importante é ser feliz, estar ao lado de quem se ama.
Afinal o BCC não é isso mesmo? Uma grande e unida família? Que te aceita, te conforta, te ouve, te admira e te ama?
O Álcool pode ser uma válvula de escape formidável para se esquecer dos problemas, mas seria uma solução? Quando acordar, com aquela horrível dor de cabeça, será que os problemas terão se evaporado com a nuvem etílica? Creio que não.
Sei que é difícil compartilhar nossas angústias principalmente com uma "estranha", mas a melhor maneira de carregar um fardo pesado, é dividir o peso com outros, se cada uma carregar apenas uma parte, o dito cujo se torna bem menos pesado.
Outra Crossdresser argumentou: Vamos tentar ver a situação sob outro prisma.
Imagine a possibilidade de deixar claro a si mesma que seja apenas uma convenção esse seu desejo por uma família normalzinha (papai, mamãe, avós, cachorrinho, casinha-pequenina mas cheia-de-amor, adoráveis filhinhos, etc). Essa convenção foi tão bem plantada em nossas almas pela tradição, numa espécie de lavagem cerebral, que até parece absoluta e definitivamente natural e, ao mesmo tempo, parece imprescindível a nossa existência, sem a qual, tudo mais é o vazio, tudo mais é sem sentido.
A idéia básica é a de não nos conformarmos com aquilo que é impingido como normal, natural e absolutamente necessário para que a felicidade exista, seja o que for e venha de onde vier. Creia que a felicidade não está aonde todas as convenções dizem que está.
Na normalidade está o meio e a raiz etnológica de medíocre, que significa sem relevo, comum, ordinário, vulgar, mediano, meão, médio, normal ou convencional. Entendendo bem isso, você verá como é possível, mesmo com doçura, lidar com as "anormalidades" imaginárias.
Atualizada em 05/11/2005