OUTUBRO/2004

INSTINTO FEMININO

Por Suzy Kelly

O instinto se caracteriza por uma série de forças de origem biológica inerentes ao ser humano e aos animais superiores. Essas forças atuam, em geral, de modo inconsciente e independentemente de qualquer aprendizado, mas com finalidade precisa. O instinto é fator inato (congênito) do comportamento e que se caracteriza, em determinadas condições, por atividades elementares e automáticas, conforme nos informa o Dicionário Aurélio.

Tenho observado que as mulheres parecem ter alguns instintos, que as levam a determinados tipos de comportamento e que as diferenciam significativamente dos homens.

Nos meus longos anos de vida tenho notado alguns detalhes de comportamento que são particularmente manifestados pelas mulheres e principalmente pelas esposas. Atentando para a conduta destas, observei que ficam facilmente aborrecidas por qualquer coisa e gostam de estar discutindo por coisas, atos ou fatos que os homens geralmente consideram insignificantes. Ficam desorientadas (encucadas, baratinadas, transtornadas, mentalmente perturbadas) com problemas que muitas vezes são de fácil resolução com um pouco de calma e reflexão e sempre estão preocupadas com a vida dos outros, querendo impor seus conceitos (modos de ser, de julgar, de pensar) e suas concepções, principalmente as mais abstratas. Dão mais valor ao supérfluo, deixando para segundo plano as coisas realmente importantes e geralmente são perseverantes, isto é, permanecem sem mudar ou sem variar de intento, sempre discordando da verdadeira razão. São muito emotivas (choram por qualquer coisa) e facilmente sofrem alteração de seu humor. Muitas parecem que estão eternamente tristes e aborrecidas e quase nunca são flagradas sorrindo. Outras sempre querem impor sua vontade e nunca estão satisfeitas com nada (por mais que tenham, sempre querem mais). Exigem que sempre seja repetido os elogios, as declarações que gostam de ouvir, mas, ao mesmo tempo, reprimem os afagos de seu companheiro, porque não perdoam uma simples palavra dita de forma imprudente num momento inoportuno.

Essas observações são meramente intuitivas e empíricas. Baseiam-se somente na minha experiência de vida e nada têm de científicas, embora possam servir como ponto de partida para psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras e psicanalistas pouco atentos a esses detalhes.

O interessante é que muitas das citadas características também podem ser observadas em nossas colegas, associadas do BCC da categoria REAL. E algumas delas até têm uma ligeira celulite nas nádegas, uma das características marcantes e muito próprias das mulheres, sem contar com o lindo colo (aquela parte do tórax logo acima dos seios).

E sempre quando falo de celulite, lembro de uma charge republicada neste jornal, há exatamente um ano, em que um casal está na praia, sentados em cadeiras, e o marido fica olhando para uma linda mulher em pé e de costas, usando um biquíni asa delta, quase fio dental, e comenta: Olha que linda morena! A esposa retruca secamente: É homem! O marido pergunta, curioso: Como homem? A esposa responde, altiva: Ela não tem celulite!

Porém, algumas de nossas colegas têm se mostrado encucadas demais com sua dualidade de comportamento, a ponto de, desesperadas, procurem psicoloterapeutas, psiquiatras ou psicanalistas. Eu, por exemplo, desde que se manifestaram fortemente esses instintos, nunca me preocupei com essa minha forma de ser. Sempre procurei me adaptar a ela e, mesmo assim, não me tornei homossexual. Não que tivesse algum preconceito contra estes, mas simplesmente porque nunca tive atração por homens. Adorava de tal forma as mulheres que queria ser como elas. E, ao contrário dos homossexuais, queria acariciá-la, beijá-las e principalmente queria usar todas aquelas coisinhas lindas que elas usam. Também nunca fiquei preocupada com o que as outras pessoas iam pensar quando eu, propositadamente, me deixava flagrar pelos vizinhos de salto alto e com roupas extravagantemente femininas, em que se percebia a calcinha e o sutiã marcando pela maciez, aderência e transparência dos tecidos.

Não sou propriamente contra os citados profissionais que tratam dos problemas da mente humana, mas, tal como já foi comentado pela Veronika Schneider em “O Que é Ser Crossdresser”, acho que alguns deles, talvez preconceituosamente, levam demasiadamente essas manifestações de dualidade de comportamento para o lado sexual, baseados em estudos antigos que podem ser inaplicáveis no atual mundo em que vivemos. As crossdressers fatalmente já existiam naquela época, porém, creio que o comportamento delas jamais foi examinado cientificamente, o que, aliás, poderia ser feito agora, como está tentando a psicoterapeuta Eliane Kogut que tem freqüentado nossos eventos e que consta do nosso quadro de simpatizantes. No meu entender, essa incontrolável (irreprimível, irrefreável) vontade de usar roupas femininas na realidade é baseada em instintos que toda crossdresser sente e tem dentro de si desde o nascimento, nada tendo a ver com o que é chamado de OPÇÃO SEXUAL.

Uns indivíduos são loucos por carros e participam de rachas. Outros são adeptos do vandalismo, das pichachões, das drogas e das brigas em estádios de futebol. As crossdressers simplesmente preferem as roupas femininas.

As crossdressers definitivamente não optaram por serem assim. E também não são doentes mentais, como diagnosticam alguns. Outros dizem que são fetichistas ou narcisistas. Na verdade, acho que simplesmente nasceram com esse instinto feminino. Por isso apreciam, ficam deslumbradas (maravilhadas, fascinadas, encantadas, cegas, obcecadas) e por isso querem usar as lindas vestimentas femininas, muitas vezes sem qualquer interesse sexual ligado ao fato.

O mais interessante ainda desse instinto feminino, é que as crossdressers, tal como as mulheres, têm uma irresistível e insaciável vontade de se exibir e, muitas vezes, não para os homens, mas, sim, para outras mulheres. E entre elas estão as suas próprias esposas. Infelizmente, muitas destas, não aceitando esse jeito de ser de seu marido, preferem a separação, principalmente se a crossdresser, impelida (obrigada ou coagida) pelo sua incontrolável vontade que querer ser ou estar mulher, resolver procurar um homem para sua total realização.