JUNHO/2004
ALMA FEMININA
Por Suzy Kelly
Repetindo o que já foi escrito, devo dizer que em todos segmentos da sociedade existem pessoas de todos os tipos (na mais abrangente acepção da palavra) e obviamente no meio crossdresser (CD) não é diferente. E como efetivamente não temos preconceitos latentes ou perceptíveis, aceitamos em nosso convívio pessoas das mais variadas classes de transgêneros que cultuam o visual feminino e também aceitamos os simpatizantes de modo geral.
Entretanto, é impressionante notar, de modo quase que geral, como instintivamente as CD desenvolvem o seu lado feminino. E isto não está aparente na sua forma de vestir, no jeito de falar, na delicadeza do andar, nos seus gestos, nas suas preferências sexuais, mas sim no que está dentro de seu âmago.
Com base no exposto, estou querendo demonstrar que a feminilidade, na maioria dos casos, não está na forma especificamente estética como cada uma se apresenta, mas sim nas profundezas abstratas da alma, que pode ser definida com “o conjunto das funções psíquicas e dos estados de consciência do ser humano que lhe determina o comportamento”. E o que está na alma não pode ser aprendido folheando-se uma revista de moda, comprando-se em uma butique luxuosa, procurando-se jóias ou bijuterias nas lojas especializadas ou simplesmente observando-se as mulheres genéticas.
É claro que sendo geneticamente homens, as CDs, na maioria dos casos, não têm os dotes físicos femininos que particularmente gostariam de ter, mas que de alguma forma procuram demonstrar, muitas vezes com artifícios que também são utilizados por algumas mulheres. Por isso, podemos notar que há certa preocupação geral em se apresentar da melhor forma feminina possível e dentro de determinada aparência que ficou em algum momento de sua vida marcante em seu íntimo.
Umas, sonhadoras, conservadoras e nostálgicas, preferem as roupas clássicas miradas nos modelos dos grandes costureiros (não dos atuais, que apresentam seus trabalhos anualmente no mundo moda), mas naqueles tradicionais, que desenhavam as vestes das antigas atrizes do cinema norte-americano.
Algumas CDs, digamos: mais moderninhas, preferem aquela vestimenta que se encontra facilmente nos magazines populares, as quais o radicalmente conservador Ronaldo Ésper considera desprezíveis, como, por exemplo, as roupas à venda na C&A, embora agora sejam propagadas pela mundialmente famosa manequim brasileira, Giselle Bünchen.
Outras CDs, tal como muitas mulheres, não deixam de vestir roupas em desacordo com a temperatura reinante, simplesmente porque repudiam uma vestimenta mais popular, às vezes mais apropriada para a ocasião e muitas vezes até mais ousada do que um casaco de pele animal, enormemente combatido pelos ecologistas.
Como dizem alguns estilistas modernos, hoje em dia “moda não se discute, cada um veste o que quer”. E a maioria veste aquilo que o espelho lhe apresenta como sendo a realização de seus sonhos, incluindo a moda que faz o "tipo prostituta".
Creio que os leitores já estão percebendo que este texto está tentando contrariar a célebre frase, que praticamente se tornou de domínio público e assim virou dito popular: “Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”.
Nem tanto, nem tão pouco.
Decididamente acho que o importante está dentro da alma feminina de cada uma das meninas do BCC. E algumas demonstram isto bem mais do que outras, que estão mais preocupadas em mostrar o seu lado material, a sua beleza física ou estética.
Não tenho o conhecimento técnico ou científico de uma psicóloga ou psicanalista, nem tampouco o de uma literata, mas pude observar nos HEF – Holiday en Femme realizados, e estou tentando escrever, que muitas de nossas meninas demonstram a sua feminilidade mais com um singelo expressar emocional do que com a sua aparência feminina, aí incluídos não somente a vestimenta e os modos (jeito de andar, de falar, etc). E a expressão de sentimento que mais demonstra essa grandeza interior é o choro. Quando essa tal sensibilidade aflora, o choro emotivo é inevitável. E ele reflete uma grande gama de qualidades, muitas vezes derivadas do toque profundo de uma insignificante satisfação, não propriamente material, mas sim, psíquica ou psicológica.
Foram importantes para mim os cinco eventos dos quais participei desde 1999, porque neles pude conviver com aproximadamente cem pessoas diferentes, ver e sentir em poucos dias a emoção que muitas sentiram principalmente no momento da despedida pela convicção de terem o seu ardente desejo momentaneamente realizado: o de ser ou estar mulher.
E nessas experimentações, sem que se tivesse propositalmente o intuito da realização de um estudo científico, parece ter ficado clara a importância altruística do BCC como órgão de congregação de seres com desejos iguais e como órgão de elucidação de algumas atormentações psíquicas sofridas por muitas associadas, diante dessa incontrolável vontade de ser ou estar mulher. Em grande parte dos casos, esta vontade não está propriamente ligada ao procedimento sexual, mas, sim e principalmente, aliada à satisfação de se apresentar visual e emocionalmente como uma mulher, seja por narcisismo, fetichismo ou qualquer outra manifestação psicológica, o que lhe dá o direito de usar tudo que as mulheres genéticas utilizam, desde as roupas mais íntimas até as mais variadas formas visuais.
Por isso, contrariando algumas, posso dizer: - Que me perdoem as lindas, mas beleza não é fundamental. O essencial é ter a alma feminina. O importante é ter os sentimentos de uma mulher e a satisfação da realização do sonho de ser ou estar mulher.