
MAIO/2004
PRECONCEITO
Por Paula Andrews
Meninas, eu tenho alguma, não muita coisa, mas o suficiente para dizer algo sobre esse tema do preconceito.
Já fui inúmeras vezes a ambientes decididamente heterossexuais, ditos "normais" ou "comuns" (restaurantes, cinema, teatro, bares, lojas, etc, etc).
As pessoas reparam? reparam sim.
Olham de forma diferente? Olham sim.
As vezes fazem algum comentário? Sim, mas nunca os ouvi em voz alta.
Acontece que depois de alguns minutos, como não falo alto, não tiro a roupa, não dou show, não paquero nem o marido nem a mulher de ninguém, fico na minha e não faço nadinha daquilo que acho que as pessoas imaginam que um "ser espetaculoso" faria e, assim, em dois instantes a platéia esquece que eu existo. Essa é a experiência que tenho no assunto.
Acho que não exagero dizer que a expectativa da ação preconceituosa está talvez mais em nós mesmas do que nos outros (lindo tema para discussão não?).
O que devemos levar em conta, para evitar a discriminação, é que o outro ser existe e que por mais que eu me veja e me entenda como mulher (bonita, feia, alta, magra, gorda, nova, velha, etc, etc), não sou uma e o espectador quase sempre sabe disso.
Por que, então, procurar o choque? Apenas para produzir o estado de tensão?
Alguns cuidados são sábios. Por exemplo (e aí discordo frontalmente de minha amiga Vera Lúcia, com quem já conversei sobre o tema):
- Dá para imaginar o fuá que daria se a Paulinha, linda, maravilhosa, bem-vestida, fosse ao banheiro feminino do Teatro Cultura Artística, por exemplo? É encrenca na certa.
- E ir ao masculino também. Problema, não?
No saguão do teatro, no máximo uns olhares meio de lado, no banheiro, um escândalo, tanto no masculino como no feminino.
Que fazer, então? Prudência, meninas, prudência.
Afinal, onde está o meu direito, no que me vejo e me sinto ou no que realmente sou - geneticamente falando?
Que tal, ao invés que provocar a situação desconfortável, procurar a administração (acho que ninguém está a fim de confusão). Pense sobre o assunto. a solução é não usar o banheiro do Teatro! Afinal, fora as loucuras, fixações, fantasias, que cada uma de nós tem, precisamos colocar o discernimento em primeiro lugar, procurando julgar as coisas de forma clara e sensatamente.
Quase todos os problemas de discriminação que vi até hoje (e minha experiência não é de se desprezar), começaram por conta da vontade de fazer valer o direito disso ou daquilo, quando o isso ou o aquilo não são coisas usuais (o pior é que este raciocínio vale para um montão de coisas; até para coisas usuais).
Temos o direito sim, de irmos aonde quisermos do jeito que quisermos, mas não podemos deixar de pensar no outro, o próximo, sob pena da barbárie instalar-se.
A sociedade não se estrutura sobre a satisfação das vontades, desejos, fantasias, particularidades individuais, mas sobre a possibilidade de estabelecermos limites aceitáveis a essas vontades, desejos, fantasias,... Não é fácil admitirmos, mas esse é o caminho.
As palavras "discriminação" e "preconceito", junto com expressões como "direito adquirido", "direito de ir-e-vir", "direito de manifestação" e outros que tais, tem sido usada (particularmente nos últimos 25 anos) em excesso e sem cuidado.
Por isso, pensem bem antes de tomar uma decisão. Considerem o tipo de ambiente em que se está e o tipo de pessoas ao redor.
Faltaram alguns considerandos, mas acho que entenderam o que queria dizer.