FEVEREIRO/2004

SER UMA CROSSDRESSER

por MÁRCIA MARINS

A doce sensação do perigo, o receio, o medo e a vontade...

A culpa, a vergonha, o constrangimento, a essência humana incompreendida.

Muitas vezes me questiono, até me condeno por ser assim.

Penso na liberdade, no ar que respiro, no espelho que reflete a minha figura e ali está...

Um homem com sensibilidade de mulher. Uma mulher com a realidade de um homem.

O fato é que não consigo esquecer meu lado feminino e nem quero.

Ele é tão indescritivelmente mágico, faceiro, necessário, lindo e espontâneo.

Não consigo parar de pensar nessa mulher que existe em mim.

Ela é amiga, doce, meiga e linda... o meu melhor lado.

O meu melhor tudo.

A minha vida. A minha realidade.

A nossa opção sexual não está na roupa que vestimos.

Porém, vestir uma calcinha, uma meia-calça, uma saia, uma blusinha ou camiseta, significa muito quando não se sente essa culpa que sufoca e maltrata.

Hoje sou uma CD, e ser uma menina significa muito.

Parece um sonho.

O que relato aqui é apenas o desejo de diminuir esse monstruoso e torturante peso.

Quero ser real, livre e poder falar com outras meninas sem medo e com muito respeito.

Poder compartilhar as aflições do dia a dia. Poder sorrir e chorar muito.

Quero poder me maquiar, tirar fotos, brilhar e ser feliz.

Ouvir as melhores músicas, pular e dançar até o dia amanhecer.

Quero poder um dia ser eu mesma e ser feliz sendo uma CD.

Quero ser por essência um ser humano, humano.