NOVEMBRO/2003
A INCONTROLÁVEL VONTADE DE ESTAR MULHER
"NÃO PENSAR"
por Paula Andrews
Quase toda crossdresser dedica grande quantidade de tempo pensando no seu
"por que".
Pelo menos é o que constato tanto nas conversas que tenho com outras "CDs
Reais", como também em vários e-mails que chegam através do grupo de discussão
de nosso clube e em mensagens particulares que recebo.
E é curioso: a pergunta é quase sempre de recém-associadas ou das meninas mais
novinhas de idade. As veteranas não mais se preocupam com isso, ao que parece.
Mas será que a gente precisa ficar velha para deixar de gastar tempo com
irrelevâncias?
Inegavelmente a pergunta não é tão irrelevante e tem uma força muito grande, a
ponto de levar algumas meninas a associar-se ao Clube apenas para discutir esse
tema e, quando percebem que não há a resposta esperada para a questão, "darem-o-fora".
Sempre me entristece dizer isso, porque do lado perguntador parece que o mundo
vai cair. Mas não tem "receita-de-bolo" para entendermos e aceitarmos o que
somos.
Como tantas, já freqüentei consultórios, já gastei tempo refletindo e
conversando sobre a questão.
Agora que sou mais velhinha e quase um escombro existencial, descobri o
"não-pensar".
Estranho, não? "não-pensar"? Como é que é essa história? Afinal: Penso, logo
existo. Não Pensar é meio complicadinho, mas dá.
Primeiro, dispa-se de seus próprios preconceitos e da abordagem moral da
questão. Seja absoluta e definitivamente aética. Deixe o preconceito para os
outros. Eles não servem para você. Não lhes dê atenção.
Mas, deixe também o Sigismundo de fora e não coloque a questão em termos
sexuais. Fazer isso estraga tudo.
Daí, use a imaginação. Por acaso, alguém se pergunta por que gosta de jogar
futebol? Por que gosta de colecionar selos ou borboletas?
Alguém se pergunta sobre a razão do encontro de toda sexta-feira com os
amigos para o famigerado e sem-graça “happy-hour”?
Ou sobre o encontro de sábado para jogar futebol?
Ou sobre o encontro de domingo, chova ou faça sol, para curtir (que horror !) um
churrassssquinho com cervejiiiiinha (dito assim mesmo, com ar de iispérrrto)?
Pense em outras manias, hábitos e costumes, as vezes estranhos, que muitas
pessoas têm.
Alguém por acaso procura a resposta para o “porquê” de tais procedimentos?
Claro que Não. Ninguém procura.
Simplesmente exerce seu direito de fazer o que está afim e curte.
Essa é questão central.
Faça o mesmo com seu "crossdressing". Apenas aproveite-o e curta-o.
Não é porque seu "hobby" tem conotação de gênero que precisa ser objeto de drama
existencial. Do mesmo jeito que colecionar garrafinhas de bebida também não é.
Não é porque te etiquetaram como "homem" que você não pode gostar de vestir-se
ou sentir-se mulher.
O problema - que para você não deveria sequer existir - não é seu; é de quem o
etiquetou sem te perguntar, dando-se tal direito só porque olhou e viu um "falinho"
pendurado entre suas pernas.
Simplifique amiga, simplifique...e
pronto !!! o "não-pensar" chega sozinho.
A INCONTROLÁVEL VONTADE DE ESTAR MULHER
"SOMOS IGUAIS"
por Maria Antonieta (Ella)
Todas nós temos as mesmas angustias, fissuras, desejos incontroláveis...
Eu também lutei... Chorei, fiz promessas... Fui pega. Que Vergonha!!!
Até que finalmente me aceitei!! Parei de brigar contra uma causa francamente perdida.
Comecei a ver as coisas por um prisma que desconhecia. De repente uma luz se fez!
Durante 50 anos... 50 ANOS!! Vivi numa escuridão deprimente. Pseudo realizando-me às escondidas e sempre com o coração na boca... Odiando-me pela impotência em debelar o desejo voraz, GOSTOSO... gostoso mesmo de me sentir mulher...Olhando para cada "gostosa" que passava sem me definir se queria possuí-la ou me transformar nela...
Eu sei que você já passou por tudo isto...Afinal, SOMOS IGUAIS...
Neste abençoado clube onde achei outras irmãs como eu, simplesmente aprendi que não sou doente mental ou tarada sexual, pervertida, embora me sentisse assim. Aqui achei carinho e amizade, fundamentalmente de gente IGUAL a mim. Aqui depositei todas as esperanças do tempo perdido!!!
Espero que você, assim como eu, tenha a felicidade de se sentir em casa, porque de fato estamos em casa.