OUTUBRO/2003

OS TRANSGÊNEROS E O VOTO

Por Suzy Kelly

Os movimentos conhecidos como GLS ganharam espaço em todo mundo. E isso aconteceu quase que paralelamente às campanhas de combate à AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) e com a universalização das telecomunicações, que propiciou a introdução da INTERNET. Nas duas últimas décadas muitos filmes desenvolveram temas sobre esse mundo pouco divulgado.

No carnaval sempre foi muito comum a participação dos transformistas e é normal que homens vistam roupas femininas de forma caricata ou mesmo para ter a oportunidade de estar mulher. Alguns compositores fizeram letras de suas músicas para serem catadas por mulheres. Tiveram que usar o seu lado feminino. Mas, um deles, Chico Buarque, chegou a se expressar sobre o lado crossdresser dos homens. E isto ficou gravado em sua letra intitulada "Ai, se eles me pegam agora" do final da década de 70.

Outro fato importante é a presença marcante dos transgêneros nos meios artísticos e nos meios de comunicação, tendo como principal veículo a televisão. Outrora, programas apresentavam os famosos transformistas, os quais desapareceram da telinha. Porém, os humorísticos os apresentam de forma caricata e muitas vezes ridicularizando-os.

É bem verdade que a televisão também não tem dado a ênfase que o grupo merece durante as paradas GLS que se realizam em todo mundo. E o motivo das emissoras parece óbvio: ainda existe alguma repulsa de algumas classes sociais em razão do mais puro preconceito e discriminação do que por motivos realmente desabonadores.

O que se pode dizer a essas pessoas preconceituosas e discriminadoras é que em todos os setores da sociedade existem pessoas boas e más, sejam elas seguidoras de religiões, filiadas a partidos políticos ou mesmo no desempenho de suas profissões. Assim, a maioria não deve pagar pelos erros de alguns. Existem pessoas sérias e competentes em todos os segmentos, sejam eles produtivos ou não. E essas pessoas também existem nos grupos GLS.

Na realidade, o que se verifica também é a existência de preconceito entre os diversos grupos de transgêneros, o que é muito mais negativo.

De seu lado, as emissoras de televisão têm se afastado dos transformistas e das Paradas Gays porque querem defender sua audiência, sem entretanto menosprezar os transgêneros. As estimativas mostram que eles são perto de 10% (dez por cento) da população brasileira. Portanto, cerca de 17 milhões pertencem ao grupo em questão e boa parte é consumidor em potencial.

Há alguns anos políticos têm mostrado interesse em defender novas leis de combate à discriminação e ao preconceito, tal como já está previsto na Constituição Federal de 1988, sem que ela cite especificamente o grupo de transgêneros ou qualquer outro grupo, como por exemplo os negros ou os pobres e miseráveis, que também são vítimas de arraigado preconceito.

Outros políticos também têm defendido a regularização da união formal entre de pessoas do mesmo sexo. O interessante é que esses políticos também passaram a ser alvo de preconceito e discriminação de uma minoria conservadora e reacionária. Mas, parece que agora, diante da realidade dos números de eleitores, os transgêneros passaram a ter importância nos destinos da nação.

No Congresso Nacional, os deputados e senadores de olho nas próximas eleições, estão interessados em abraçar a causa dos diferentes. Afinal, eles são 10% dos brasileiros e logo podem chegar a 20% dos eleitores convictos e esclarecidos. A última Parada Gay em São Paulo, realizada em junho de 2003, em seu carnaval temporão, chegou a movimentar perto de 10% da população da região metropolitana e passou a ser a menina dos olhos dos hotéis da região central.

E os diferentes fatalmente tiveram papel decisivo na eleição da Prefeita de São Paulo, para desespero da elite preconceituosa e reacionária, que a criticava por ter abraçado a causa da união civil entre pessoas do mesmo sexo.