JUNHO 2003

“Quem disse que é fácil sair do armário?”

Por Suzy Kelly

Depois da peça teatral "SAIA DO ARMÁRIO", estrelada pela nossa colega CARMEM MAURA, que encenava um papel feminino juntamente com diversos de seus colegas do grupo Vivendo com Arte, parece que o assunto voltou a ser discutido entre as meninas CDs. Segundo a revista G Magazine, a peça é uma comédia que fala sobre o preconceito e a discriminação quanto à homossexualidade.

Sobre o assunto, a nossa colega SAMANTHA PHAYFFER nos remeteu texto escrito por Vange Leonel. Vejamos o que esta nos conta:

"Alguém me disse, um dia desses, que achava fácil eu me assumir lésbica porque no meio artístico todos são mais "liberais", "excentricidades" são permitidas e a "fama" nos torna imunes à homofobia. Ora, se isso fosse verdade teríamos centenas de artistas brasileiros assumidos e, obviamente, não é isso que acontece.

Alguns atores não gostam nem de representar personagens gays, acreditando que isso possa prejudicar a sua imagem. Há exceções, claro, como por exemplo recentemente Rodrigo Santoro no filme "Carandiru". Mas quando se trata de fazer o papel na TV, que atinge milhões de lares, a coisa muda de figura. Na semana passada, li uma notinha comentando que depois de sucessivas recusas, somente Maria Fernanda Cândido topou interpretar uma lésbica no seriado "Os Normais".

Por isso, penso que a questão da facilidade em se assumir não tem nada a ver com ser famoso ou ser anônimo. Recebo muitos e-mails de profissionais de outras áreas, como professores, publicitários e empresários, que são francos em relação à própria homossexualidade no ambiente de trabalho e não são discriminados. Por outro lado, muitos me escrevem dizendo que sofrem vários tipos de discriminação e outros afirmam nem ousar se expor assim, por temer o preconceito.

Portanto cada caso é um caso. O que sei, por experiência própria e por relatos que me são feitos, é que sair do armário não é a coisa mais fácil do mundo, mas pode também trazer gratas surpresas. Às vezes, justamente quem você pensou que reagiria mal se revela uma pessoa compreensiva e carinhosa. Da mesma maneira, aquele que se dizia tolerante acaba se ofendendo e pode te dar as costas.

A saída do armário provoca mesmo as mais variadas e imprevisíveis reações. Tudo bem: não se pode agradar a todos, mas, por outro lado, podemos viver melhor, sem precisar fingir e às vezes isso é conquistado a duras penas. E daí? Quem disse que era fácil sair do armário? Lembre-se de que sem atrito não há fogo, não há sexo, nem gozo!"

Outra de nossas colegas, da qual prefiro não citar o nome, porque o texto está sendo colocado sem a sua autorização expressa, remeteu email de resposta para o Fórum BCC com o seguinte teor:

"Oi amiga, com toda razão, o texto exprime a realidade de quem quer sair do armário. Eu sou homo e minha mãe tem homofobia. É com ela que eu vivo até hoje e da qual não dependo financeiramente. Porém, o que fazer? Eu estou me saindo aos poucos para ela. Estou tentando faze-la ver que a homossexualidade não é e nem mesmo pode ser comparada à marginalidade. Estou me mostrando mais carinhosa e atenciosa com ela do que nunca tinha sido antes. E às vezes me comporto de forma a acentuar minha delicadeza e minha integração com o universo feminino. Sempre fui um pouco diferente do que se pode chamar de padrão, aquele que a sociedade cobra o que você tem de fazer para ser normal: as brincadeiras de infância, o seu modo de se vestir e as suas atitudes, etc... Para alguns amigos já me assumi e os resultados foram além do esperado. Quando digo "amigos", quero dizer amigos de verdade, aqueles que estão do seu lado quando se precisa. Alguns não se surpreenderam muito, pois acho que já imaginavam ou desconfiavam. Outros não se importaram muito com isso e disseram que eu sou do mesmo jeito de antes de "virar gay". Mais o que foi melhor nisso tudo é que agora eu me sinto melhor e mais leve do que antes. Quem quiser sair do armário, tem que analisar as conseqüências e tem que contar com o mínimo de apoio de quem for: amigos, parentes, pais, irmãos. Não saia divulgando como se fosse um artigo ou manchete de jornal. Não desmunheque de uma hora para outra. Pense bem se você quer seguir um novo estilo de vida e principalmente: respeite sempre para sempre ser respeitada."

Muitas de nossas colegas já tiveram problemas ao assumir a sua condição de crossdresser. Algumas foram vítimas de chacota e de chantagens. Porém, as pessoas que mais problemas enfrentaram talvez tenham sido a LIANE FERRAZ e sua S/O. Na tentativa de tornar o movimento crossdresser popular e fazer com que todos entendessem que ser crossdresser nada tem a ver com opção sexual, ambos resolveram contar alguns fatos de sua vida conjugal para revistas e emissoras de televisão. De fato o movimento crossdresser ficou muito mais conhecido, porém isso resultou na perda do emprego para ambos. Não em razão de algo que eles tenham dito e que pudesse comprometer a empresa ou o seu lado profissional, mas sim pelo mais puro preconceito.

Segundo disseram algumas travestis em programas de televisão, muitas foram obrigadas a optar pela prostituição justamente porque as portas das empresas foram fechadas para elas.

Ao contrário, uma de nossas colegas que optou pela transexualidade cirúrgica conseguiu um emprego. Mas, o detalhe é que ninguém sabe que antes ela era homem. E ela não quer revelar seu passado para evitar que isso desencadeie uma violenta onda de preconceito e discriminação.

De fato é difícil convencer a opinião pública de que você é uma pessoa normal, embora o seu modo de ser seja diferente daquilo que se convencionou chamar de padrão ou normal.

Portanto, pense bem e ouça outras pessoas antes de tomar qualquer decisão