FEVEREIRO 2003
OS PRECONCEITOS E A DISCRIMINAÇÃO
Além dos preconceitos e das discriminações tradicionalmente existentes como a segregação racial, religiosa e social, outros tipos de preconceitos e discriminações podem ser observados e, entre eles, os que se verificam entre grupos de gays, lésbicas, travestis, "drag queens" e transexuais.
Pelo menos duas de nossas colegas crossdressers já foram vítimas de chacota no Ipsis Club, que era uma boate freqüentada por grupos de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS), o que as deixou arredias a lugares públicos. Excluindo-se esses casos esporádicos, no Ipsis sempre fomos bem recebidas, defendidas e festejadas pela gerente Beth, assim como pelos funcionários e pelos freqüentadores da casa. Pena que tenha fechado.
Outra colega (quarentona) também foi vítima de chacota em uma boate gay do centro de São Paulo, quando se realizava um concurso de Miss Primavera. Perguntaram: A menina vai se candidatar a Miss PRIMAVELHA?.
Com base no que podemos chamar de preconceito, o que se verifica é que as lésbicas não se aproximam dos gays, estes não se aproximam de travestis, estas não se aproximam de "drags" e estas não se aproximam de crossdressers e vice-versa, embaralhando-se todos os grupos. Talvez o mais liberal dos grupos seja realmente os de CDs (Crossdressers), que geralmente procuram se entrosar com os demais grupos de pessoas diferentes daquilo que os preconceituosos resolveram chamar de normais.
E por que as crossdressers geralmente freqüentam os ambientes GLS?
A resposta é simples e lógica. É porque nesses lugares o preconceito é menor ou praticamente inexistente.
Embora a Constituição Federal e algumas leis estaduais dêem no Brasil aos ditos diferentes o direito ao livre acesso a quaisquer lugares considerados públicos, os crossdressers e os demais diferentes não costumam freqüentar determinados lugares para evitar o que nos aconteceu na re-inauguração de uma tradicional casa de danças de salão de São Paulo, quando várias crossdressers, algumas acompanhadas de suas respectivas esposas, amigos, amigas e familiares, foram convidadas a se retirarem do recinto, porque, segundo o gerente, poderiam comprometer a fama e o status da casa.
É claro que “as expulsas do baile” poderiam exigir seus direitos legais e constitucionais. Mas, para evitar confusão, optaram por aceitar a manifestação de repúdio, preconceito e discriminação sem rancores.
Outra ocorrência interessante foi quando uma das crossdressers filiadas ao BCC resolveu comprar um par de óculos de grau para o seu lado feminino, com a devida aceitação de sua respectiva esposa (S/O). Primeiramente foi ao oculista, onde obteve o receituário adequado. Depois se dirigiu a uma afamada loja paulistana, que tem filiais espalhadas por todo o Brasil. Para surpresa de nossa colega, o vendedor recusou-se a realizar a prova da armação e a venda das lentes para o modelo feminino que aquele espécime masculino queria adquirir, obrigando-o a procurar os óculos em outra loja.
É incompreensível que um comerciante fique escolhendo para que tipo de freguês ele vai vender sob a alegação, não de preconceito, mas de preservação da ética profissional. Por isso é cada vez mais comum ver lojas aceitando que crossdressers (na sua forma masculina), travestis ou transexuais experimentem perucas, bijuterias, roupas e calçados femininos em suas lojas.
Os estudos de psicólogos e psiquiatras têm mostrado que desde épocas bem distantes existem esses grupos de pessoas diferentes, que graças ao avanço dos meios de comunicação estão se desnudando. Hoje em dia já são comuns as aparições desses diferentes nas emissoras de televisão e até em ramos profissionais distantes dos meios artísticos. Alguns hospitais públicos já estão prescrevendo tratamentos hormonais, psicológicos e psiquiátricos para homens com personalidade feminina que desejam submete-se a já conhecida operação de mudança de sexo.
De outro lado, é interessante notar nos textos sugeridos no parágrafo anterior que os estudiosos parecem desconhecer que entre os homens usuários esporádicos de roupas femininas existem heterossexuais.
O grande problema é o preconceito e a discriminação enraizados na mente das pessoas, não as deixando aceitar que homens adquiram hábitos femininos e circulem com roupas femininas assim como as mulheres já conseguiram tornar corriqueiro o uso de calças, embora com o passar do tempo tenham sido ajustadas para torna-las femininas. A primeira que coisa que obviamente as pessoas pensam ao se depararem com um crossdresser, por exemplo, é que ele seja homossexual, embora uma considerável parte deles não seja, porque praticam o sexo apenas com suas noivas, esposas ou companheiras. Muitos dos crossdressers solteiros ou descasados praticam o sexo apenas com mulheres, são heterossexuais convictos, o que não acontece com muitos homens que só vestem roupas masculinas, batem no peito que são machos, censuram os diferentes e sorrateiramente procuram travestis para relações sexuais onde o machão torna-se bissexual, fazendo o papel passivo e depois contaminam suas esposas, noivas ou companheiras com o temido vírus da AIDS ou com doenças sexualmente transmissíveis.
Até as travestis e transexuais que usam roupas femininas diuturnamente são muitas vezes discriminadas, assim como são discriminadas e censuradas as pessoas que defendem a união formal entre pessoas do mesmo sexo, prejudicando inclusive os contratos entre pessoas que desejam deixar seus bens para outra com quem sempre conviveu sem pretensões sexuais, como é o caso de algumas que cuidam de idosos, sejam elas da mesma família ou não.
Então, pergunta-se: Por que rotular as pessoas? Por que discrimina-las só porque são diferentes? Por que as empresas não dão emprego para travestis ou transexuais? Por que as esposas não querem um marido CD? Ou serão os maridos CDs que não querem uma esposa "entendida"? Por que discriminar, se todos podemos conviver em harmonia independente da cor da pele, da convicção religiosa, do nível social ou da opção sexual de cada um? Por que grupos de machistas radicais perseguem e até matam aqueles que consideram gays?
Algumas esposas de CDs, por exemplo, quando descobrem o lado feminino de seus maridos, por mais puro preconceito e por acharem que os respectivos são bichas e preocupadas com o que vão falar as demais pessoas, muitas vezes preferem desprezar anos passados de harmoniosa convivência, optando pela separação e pelas brigas na esfera judicial ou fora dela, do que continuar uma convivência que agora poderia ser muito mais aconchegante e íntima.
Em suma: Considerando que, segundo os preconceituosos, os diferentes não são da mesma espécie dos seres humanos considerados normais, podemos dizer que só os animais irracionais não se relacionam com as demais espécies. Assim mesmo, vez por outra encontramos um gato convivendo com um cachorro e os tico-ticos alimentando filhotes de pardais ou de chupins, cujos ovos foram colocados em seus ninhos propositalmente pelas aves estranhas.
Suzy Kelly.