
NOVEMBRO / 2005
FASES NA VIDA DE UMA TRANSEXUAL
Por Kate Emery Hotaru
Vou contar um pouco sobre o que vem acontecendo com minha monótona vida de "TS" (transexual).
Fora os encontros maravilhosos que tenho com o pessoal do BCC, muita coisa em minha vida mudou.
O mais dramático é que andei vendo algumas fotos do "passado", comparando-as com as do presente, e pude constatar que os hormônios realmente mudaram um pouco minha face e meu "corpo". Adquiri um rosto um pouco mais feminino, não tenho mais problemas com acne e nem cravos.
Perdi músculos, de acordo com as minhas anotações. Do dia em que comecei a terapia hormonal até hoje, perdi cerca de 4,5cm de diâmetro no braço.
As mudanças na minha pele são evidentes. Ela se tornou mais seca, um pouco mais delicada e com mais de "gordura", apesar de no geral parecer mais fina, como se eu tivesse perdido uma suave camada de "pele" propriamente dita e ganho um pouco de gordura.
Ganhei olheiras, que eu ODEIO, principalmente se eu não dormir bem.
Perdi muita gordura na "bochecha" e no "papo". Aquela gordurinha embaixo dos olhos sumiram.
Senti que meus lábios ficaram mais "lisos" e menos resistentes ao frio.
Tornei-me uma pessoa extremamente sensível. Nunca fui de chorar em filmes, mas agora a vontade de chorar vem de dentro e o pior é que acontece nos piores momentos, quando não quero chorar.
A libido, que sempre foi pouca, tornou-se inexistente. Aquelas ereções noturnas se foram para nunca mais voltar.
Meu padrão de sono mudou bastante, por algum motivo preciso dormir mais para não me sentir cansada.
Meu cabelo ficou muito mais fino e menos oleoso. O pouco de pelo que tinha nas pernas e braços ficaram muito fininhos. Adeus à caspa. Não as vejo há MUUUITO tempo.
Perdi bastante a "batata" da perna. Pelo fato de ser oriental, sempre vou ter aquelas indesejáveis "batatinhas", mas elas diminuíram bastante.
A quantidade de gordura nas mãos aumentou, escondendo assim aquelas veias saltadas, que deixam a mão com aspecto masculino.
Os seios cresceram consideravelmente, e os mamilos também.
Os odores diminuíram bastante. Não são inexistentes, mas diminuíram muito em relação ao que eram antes dos hormônios.
Os hormônios trouxeram algumas coisas desagradáveis, como, por exemplo, fraqueza e às vezes um pouco de depressão e aquela vontade de não fazer nada o dia inteiro, apenas ficar em casa assistindo TV ou dormindo.
A perda muscular, apesar de bem vinda, me trouxe a desvantagem de sentir mais medo quando ameaçada por alguém, nunca fui muito fortinha, mas hoje acho que um garoto de 16-17 anos consegue facilmente me dar uma surra.
A fome aumentou um pouco e por isso esta mais difícil perder peso, mas mesmo assim estou conseguindo pouco a pouco perder o peso que necessito.
Nunca precisei de hidratante, mas agora as partes mais "secas" precisam de uma atenção especial para que não comecem a descascar. A pele (principalmente do braço) fica meio áspera, portanto uso óleos e hidratantes.
Outras coisas não relacionadas aos hormônios também mudaram muito. Perdi aquela louca vontade de me vestir com roupas femininas, pois se tornou "carne de vaca" (rotineiro). Comecei a apreciar mais os pequenos detalhes, como bijuterias, jóias, esmaltes e outros pequenos cuidados.
Em tese, acho que estou mudando para melhor. Porém só o tempo dirá. Mas como eu sempre digo, o importante é estar feliz.
Bárbara Stone, lendo este meu texto, elogiou o relato, que considerou rico em detalhes, principalmente para as pessoas que pensam em fazer o mesmo e declarou:
- Eu já pensei milhões de vezes em fazer o mesmo. Mas, uma pergunta que já tinha me respondido em uma sessão de análise e que também foi feita pela psicoterapeuta e psicanalista Eliane Kogut a mim e às associadas do BCC presentes aos “Holiday en Femme”, ajudou-me a decidir por continuar a ser crossdresser.
Em seguida, Bárbara perguntou:
- Se nós vivêssemos em um mundo onde o crossdressing fosse aceito sem preconceitos, você continuaria com vontade de fazer uma operação de ajuste de sexo para viver como mulher para sempre?
E eu respondi:
Com certeza que sim. No meu caso "ser mulher" não se restringe apenas a usar roupas e acessórios femininos e sim aprender, viver e conquistar o mundo como mulher.