
JUNHO / 2005
ESPAÇO S/O
A VINGANÇA DA S/O
Por Suzy Kelly, compilando texto de associadas.do BCC
Depois de vários meses de discussão sobre os problemas enfrentados pelas S/O com seus respectivos maridos, surge agora o outro lado da questão. Leia o que escreveu uma das crossdressers associadas do BCC, que começa perguntando:
- Há perigo em ter uma esposa como S/O?
- Alguém já teve uma experiência negativa?
- Sorte de quem tem uma parenta como S/O! Quanto à esposa, tenho dúvidas?
- A minha esposa atual não aceita minha condição de CD. Prefiro a sinceridade dela!!!
- A minha esposa anterior, de quem me divorciei, foi uma ótima S/O para mim. Deu-me roupas e incentivava que eu me vestisse... Porém, depois da separação "botou a boca no mundo". Abriu aquele "bocão" para dizer em todos os lugares e para minha família que eu ia ser travesti... E ainda aumentando os fatos...
- Isso foi parar nos primórdios da minha vida.
- Em todos os lugares, fui rotulado, como Gay, Travesti, etc...
- O que fiz foi calar... Quando me perguntavam: Você é gay? Quer ser travesti? Eu respondia com outra pergunta: O que você acha?
- Há muitos anos me perguntavam se era Gay, isso porque não me viam com mulheres e demorei a me casar. Tinha um Juiz que nas rodas de colegas de trabalho sempre tentava lançar dúvidas sobre minha reputação sexual com a frase: “Essas pessoas que passam dos trinta e não se casam são Gays!” Eu dizia: Pode ser, mas já ouvi falar também da existência de Juízes Gays!
- Depois que minha ex-esposa falou demais, passou a ser corriqueira a abordagem do tema “gay” e de que eu ia ser travesti, etc...Isso foi parar até na Associação de Ex-Alunos da escola que estudei.
- A minha ex-esposa, pelos serviços que me prestou como S/O, está cobrando caro. Agora sou descontada da importância relativa à pensão alimentícia na minha folha de pagamentos. É o que estou pagando pelos serviços por ela prestados, inclusive os difamatórios.
- Diante disso, pergunto:
- Podemos confiar nossos segredos às nossas esposas?
- Será que vale a pena ter uma esposa como S/O?
Como todos os leitores devem ter percebido, a nossa colega crossdresser coloca em pauta um fato que transtornou sua vida e que pode gerar problemas financeiros e morais à própria ex-esposa.
Imagine o que pode acontecer se, depois da campanha de difamação, o ex-marido perde o emprego, como já aconteceu com outras crossdressers, e assim não mais possa pagar a pensão alimentícia. Fatalmente será preso e ainda poderá passar por muitos outros problemas de total desestruturação de sua vida, o que pode influir também no futuro da ex-esposa e dos eventuais filhos que tenham.
Nessas situações, os filhos são os que mais sofrem com o desentendimento entre seus pais, principalmente quando um tenta prejudicar o outro. Mas, a realidade nos mostra que geralmente é a esposa quem cria os maiores problemas após a separação.
Temos notícias de "finais infelizes" de muitos outros casais. É uma questão realmente muito delicada. Os dois e principalmente as S/Os precisam ter em mente que o término de uma relação não deve implicar na necessária destruição moral, familiar e principalmente profissional de sua ex-cara-metade.
Minha primeira esposa, embora não soubesse de minha condição de crossdresser, após a separação também fez de tudo para me destruir moral, financeira e profissionalmente, mesmo que com isso ela e os filhos ficassem prejudicados. Como não conseguiu seu intento, hoje desfruta a vida às minhas custas, embora, dentro do possível, ainda tente fazer o mal. Os filhos tiveram problemas psicológicos graves, dos quais somente depois da maior idade conseguiram se libertar por terem entendido melhor a questão e porque outras pessoas disseram a eles como os fatos realmente tinham acontecido, pois a mãe deles distorcia totalmente os fatos.
Minha atual S/O também fez algo parecido e agora precisa de mim para apoiá-la em sua doença. Ao contrário do que fez comigo, ela tem todo meu apoio.
Uma das principais razões das S/O optarem pela separação é a preocupação com o que vão falar as demais pessoas, quando souberem que seu marido usa roupas femininas. O pior é que os vizinhos e demais pessoas conhecidas, ao saberem, começam a induzi-la à separação dizendo: "Separa. Você pode encontrar coisa melhor. Pode encontrar um homem com H maiúsculo". Mas, não dizem que muitos desses homens com H maiúsculo infectaram suas esposas com a AIDS.
Como exceção aos casos narrados, algumas associadas do BCC têm S/O que os apóiam e assim vivem muito felizes.
Outras crossdresser, na tentativa de mostrar à sua S/O que somos uma comunidade como outra qualquer, trazem suas esposas, namoradas, companheiras ou amantes para dentro de nossa causa de fazer com que a sociedade entenda essa condição ou jeito de ser. Entretanto, em alguns casos, essa tentativa de integração tem sucesso muito limitado e são comuns as complicações que resultam na separação, como nos casos relatados.
A compreensão das S/O precisa ser conquistada com tato e a relação conjugal precisa ser muito bem administrada para que seja evitada "A Vingança da S/O”. Por isso também precisamos pensar nos problemas que podem advir da participação das S/Os em nossas "CDSessions" (reuniões de crossdressers). O fato de virem a se separar dos maridos crossdressers pode pôr em risco a segurança das demais associadas do BCC, que nada têm a ver com os conflitos do casal em crise.
Felizmente para ambos os lados, "A Vingança da S/O" não é o fato corriqueiro mesmo porque a maioria das crossdressers não revela sua condição às esposas. Várias associadas do BCC chegaram à separação depois de descobertas e nenhum problema posterior tiveram, pelo menos aparentemente.
É preciso deixar bem claro que não estamos fazendo apologia contra as S/O. Mas é preciso que esses fatos sejam entendidos e tratados com habilidade e sensibilidade para que o relacionamento seja administrado de forma a evitar a ocorrência de fatos que possam prejudicar o futuro de ambos e da família, tal como ficou demonstrado nos exemplos citados.
Não adianta querer levar a crossdresser ao psicólogo ou psiquiatra. Ser crossdresser não é doença e por isso não tem cura, assim como não tem cura o modo de ser dos gays e das lésbicas. A força da organização civil destes últimos fez com que os estudiosos ou cientistas os tirassem dos compêndios como pessoas doentes. Isto demonstra que psicólogos e psiquiatras nunca tiveram a certeza de que o modo de ser destes era uma doença. Tratavam-se apenas de conceitos pré-estabelecidos (preconceitos) sem nenhuma fundamentação científica. E nos demais casos, por mais que se estude, as particularidades e as variações de procedimentos são tão grandes que fica difícil generalizar dizendo que todos são doentes mentais.
Somente as mulheres cheias de preconceitos e sem discernimento (sem a faculdade de julgar as coisas de forma clara e sensatamente), colocam em risco toda a estabilidade financeira, moral e profissional da família ao tentar se vingar de seu ex-marido.
O programa "Todo Seu", apresentado pelo ex-cantor Ronie Von na TV Gazeta de São Paulo, em 10/05/2005 apresentou como tema "A Vingança das Mulheres", quando discorria especialmente sobre a vingança das esposas contra os maridos depois da separação. Ou seja, não são somente os crossdressers que têm essa preocupação.
SOBRE MULHERES COM ÓDIO (M/O)
Por Leticia Lanz, comentando frases de Jocasta Villar
Jocasta - Quando se aborrecem em casa, jogam na cara do "sapo", que o motivo é ele querer se vestir de mulher...(estar mulher)
Letícia - Eu diria: "sabe que você tem razão? se eu estivesse no seu lugar provavelmente eu também ficaria muito aborrecida sabendo que o meu marido tem fantasias de ser mulher. De um lado, por pensar que ele poderá assim me deixar por outro, ou seja o medo de que ele tenha se tornado totalmente viado e sem retorno. De outro, por ele me obrigar a pensar e sentir nossa relação em outras dimensões e num grau de profundidade muito maior do que até hoje foi necessário fazer. Devem haver outras tantas razões que eu gostaria imensamente de que você me dissesse, pois eu só pude imaginar essas duas que falei. Tudo que eu sei é que estamos vivendo uma situação inteiramente nova e desconhecida, tanto para mim quanto para você e isso me mete muito medo. Agora só quero lhe dizer uma coisa nisso tudo: eu te amo, muito, de verdade. Se o meu crossdressing for para lhe causar qualquer tipo de constrangimento, deixarei a nossa relação para protegê-la, porque não quero que nenhum mal lhe atinja.
Jocasta - Na cabeça dela o "sapo" está com amantes do sexo masculino... Joga na cara que agora ele é homossexual...
Letícia - Oportunidade para a gente conversar abertamente sobre homossexualidade, masculina e feminina, coisa que raramente - ou nunca - a gente faz. O que é ser homossexual? É desejar ter contato de natureza sexual com pessoas do mesmo sexo? É desejar se fantasiar de mulher para fazer isso, sem maiores culpas? É querer distância de sexo com mulheres? Não é nada disso? É tudo isso? É mais alguma coisa? Parece que esse assunto é tabu. Ninguém, ou pouquisssima gente fala claramente sobre ele.
Jocasta - Ameaça o "sapo" que ele está com insanidade mental e precisa ser internado... ( Isso inclusive ocorreu comigo, precisei de um atestado psiquiátrico, dizendo que eu não necessitava de internação, pois, estava em tratamento, e não era alcoólatra ou usava drogas...Isso andou na comigo, como se fosse um "Habeas Corpus" preventivo.)
Letícia - Este é um ponto que eu tenho debatido exaustivamente no Fórum_BCC, sem muita audiência. Travestismo é considerado desvio, sim, tanto no DSM-IV quanto no CID-10. É uma sacanagem sem tamanho, mas está lá. Homossexualismo, de tanto os gays botarem a boca no trombone, não está mais. Mas travestismo está. É péssimo que ainda esteja, pois podemos ficar expostas a pressões do tipo que você descreve. O melhor mesmo É NÃO DEIXAR QUE A COISA CHEGUE A ESSE PONTO. Como? Jogando claro, jogando limpo. Tratando o nosso desejo de estar mulher não como doença ou vício ou compulsão mas como escolha - opção - aliás uma palavra que você mesma já usou outro dia no Fórum_BCC e que eu aplaudi.
Jocasta - Diz que o " sapo" está possuído, quando quer usar roupas femininas...Ou quando põe um pouco de sua feminilidade para fora...
Letícia - Esse é um aspecto ligado à fé de cada uma. É possível que energias desse tipo estejam realmente em jogo. É possível que não. Não sei. Não tenho resposta clara nessa área. Mas, novamente, olhando a questão do ponto de vista prático, devemos voltar nossa atenção PARA DENTRO DA RELAÇÃO: o que cada parte espera da outra dentro da relação, seja em sapo ou en femme.
Jocasta - Tentam destruir o Crossdresser do "sapo" ...
Letícia - Isso é fácil fazer. A gente mesmo consegue fazer isso melhor do que qualquer M/O. Basta a gente se olhar no espelho e se achar uma merda. Por experiência própria eu digo: mesmo tendo S/O em vez de M/O, destruir o crossdressing é facílimo quando a gente não se aceita. Quando eu me aceito, não é conversa de qualquer um que vai me jogar no fundo do poço. Também é uma boa oportunidade para pedir ajuda dela: em vez de destruir construa uma "persona" do jeito que você acha que podia ser... Mas esse estágio, na minha opinião, só será possível se os "deveres" de casa estiverem sendo super-bem feitos.
AINDA SOBRE A VINGANÇA DAS S/O E DAS MULHERES COM ÓDIO
Completando o debate no FORUM_BCC, eis os depoimentos das demais participantes:
CRISTINA CAMPS
Sem muitas palavras, posso dizer que vale a pena ter uma esposa como S/O. Se eu não confiar em minha esposa, companheira, minha cúmplice, em quem mais posso confiar?
No meu caso, vivemos perfeitamente bem. Porém sei quais são os meus limites e não os ultrapasso. Acho que essa é a chave do sucesso.
Ana Claudia Bellini
Eu não tinha S/O. Este sempre foi um grande problema para mim!
Estou me separando dela. Entre os vários fatores que culminaram com a separação, ser CD foi um deles.
Estou mais leve agora. Mais contente!!!
Andava bem afastada do clube, impossibilitada de até acessar meus e-mails!
Penso que agora terei uma vida mais verdadeira!
Agora estou realmente Feliz!
Luiza Prado
Que bom que você está feliz, Ana Claudia,
Acho S/O uma expressão interessante, já que usualmente se refere a uma esposa ou
namorada que "tolera" o fato do(a) parceiro(a) ser CD.
Eu tive "S/Os" que gostavam, ficavam fascinadas, sentiam tesão, sendo muito femininas ou gostando de se sentir meninos.
Leticia Lanz
A esmagadora maioria das mulheres com quem já convivi até hoje preferem homens femininos. Elas deixam isso claro em nossas conversas e pode ser comprovado em todas as pesquisas que são feitas por aí. Querem homens carinhosos, delicados, sensuais, amigos, sem pressa, que fiquem horas e horas admirando e curtindo a beleza feminina, etc, etc. Mas isso é exatamente o que nós CDs somos e fazemos.
A bem da verdade, machões de carteirinha só fazem sucesso com as mulheres em reportagem fajuta de revista masculina feita pra trouxa ler no banheiro.
O problema é que, por pressão da sociedade, a maioria das mulheres continua, na prática, a reprimir o seu desejo por homens femininos. Talvez pelo preconceito muito difundido de que feminilidade significa necessariamente homossexualidade.
É claro que existem CDs exclusivamente homossexuais, mas a maioria dos CDs ou são heterossexuais ou são bissexuais, como também demonstram a maioria das pesquisas. CD é alguém que quer o melhor dos dois mundos, como diz a minha S/O. E ela completa: há alguma coisa errada em se querer o melhor? Errado existe em se querer o pior, isso sim.
Minha conclusão, portanto, é que toda mulher é uma S/O, não só em potencial, mas em termos reais. Precisa apenas de acordar para os seus próprios desejos, adormecidos por força de uma sociedade machista - e besta. Vencida a resistência que ela possa ter, por influência nefasta da criação que teve, vai preferir, de montão, viver ao lado de um CD do que ao lado de um machão.
No mundo inteiro, cada vez mais, as mulheres estão indo em busca de sua plena satisfação como mulher, inclusive (e principalmente!) no plano sexual. Pode crer: os CDs serão cada vez mais disputadas no mercado. Dentro de algum tempo, S/O será tão comum como Coca-Cola. Nessa hora, todo homem vai querer ser CD. Sorte nossa, que já somos.
Suzy Kelly
Logo após a realização da Parada GLBT de São Paulo, no programa "A Casa É Sua", da RedeTV, eram entrevistados pela jornalista Joana Matushita e pela apresentadora Monique Evans um gay, acompanhado de sua mãe e uma psicóloga. O assunto era justamente sobre a aceitação da diversidade trangenera pelos entes queridos (os familiares). Num dos momentos, Monique Evans mencionou exatamente o que escreveu Leticia Lanz de que "A esmagadora maioria das mulheres (...) prefere homens femininos".
Fabiana Alonso
Tenho exatamente esta idéia sobre as mulheres gostarem de CDs e todas serem potencialmente S/O. Digo isso por experiência própria. Eu não tenho esposa ou namorada S/O, pois no momento estou solteira. Mas tenho sim uma S/O muito ligada a mim, nada menos que minha mãe.
De inicio, ela achou tudo muito estranho meu comportamento, mas depois que entendeu realmente o significado de ser CD, passou a me aceitar e apoiar. Dá pra dizer até que, de certa forma, ela passou a se divertir com isso. Creio que toda mulher quando entende que o crossdressing não está diretamente ligado ao homossexualismo, passa a apoiar e curtir a prática.
Isso aconteceu aqui em casa. Depois que minha mãe passou a entender do assunto, passou a participar ativamente, dando sugestões, dicas de maquilagem e tudo mais. Só tem uma coisa que minha mãe fica um pouco, digamos, apreensiva: é com a forma de esconder meu acessório masculino. Ela sempre acaba fazendo alguns comentários em relação a isso, do tipo"Isso não dói muito?","Tem certeza que isso não machuca?", "Você ainda vai acabar se ferindo sério!", coisas de mãe. Teve até uma vez, que eu cheguei em casa, tirei minhas roupas masculinas, fui tomar banho e logo depois fui botar minhas roupas femininas. Neste dia eu botei uma calça de lycra. Quando ela me viu, notei que ela ficou meio aflita e soltou esta: "Não precisa ser tão perfeccionista. Precisa mesmo fazer isso?" Não agüentei e ri muito e disse que, sem fazer aquilo, a montagem perderia todo seu sentido. Até disse para ela: "Botar uma calça de lycra, sem esconder tudo direitinho, é o mesmo que alguém passar batom, sem ter tirado o bigode". Acho que ela entendeu.
Mas no mais, o apoio dela é fantástico. Tudo que eu sempre quis ter na prática.
Leticia Lanz
A palavra é atitude. Atitude da nossa parte em explicar a elas o que se passa conosco, que para todas elas é um grande quebra-cabeças, cheia de peças que não se encaixam. E atitude concreta, no caso das esposas em mostrar a elas que somos capazes de amá-las, tanto no sentido físico quanto no emocional, muito mais e infinitamente melhor do que qualquer homem com um lado só seria capaz de fazer. Agindo assim, as chances são de que elas acabem nos curtindo de montão, em vez de nos repudiar, nos humilhar e nos combater.
Veja também "A PARANÓIA DA CROSSDRESSER E O PRECONCEITO DE SEU PATRÃO"
Atualizada em 01/06/2005