OS PROBLEMAS CONJUGAIS DA S/O
Por Suzy Kelly, compilando textos de S/Os
Como o tema nunca se esgotará, voltamos a comentar os problemas conjugais enfrentados pelas "Supportive Opposite" - S/O - as companheiras e apoiadoras das crossdreesers.
OPINIÃO DE UMA CROSSDRESSER HETEROSSEXUAL
A grande realidade é que nenhuma crossdresser é exatamente igual a outra.
Primeiramente podemos notar que, entre as associadas do BCC, algumas se dizem heterossexuais, homossexuais, bissexuais e outras preferem não se identificar, pois talvez ainda estejam em dúvida do que realmente são ou pretendem externar. A maioria se intitula como crossdresser e são poucas as que se dizem transexuais. Algumas dizem que somos todas transexuais.
A meu ver, o homem vestido como mulher que sente somente atração por homens e que não gostaria ou não sente prazer em viver maritalmente com uma mulher, é transexual.
Mas, existem outros desdobramentos.
Assim como existem mulheres que gostam de se relacionar com outras mulheres, também existem os homens que gostariam de ser ou viver como mulher para terem esse mesmo tipo de relação com outra mulher ou mesmo com outra crossdresser ou travesti. Há casos em que o travesti vive maritalmente com outra travesti.
Como é difícil encontrar pessoas opostas que as aceitem, algumas procuram os pares que vivem da mesma forma. É o que fazem principalmente os "gays".
Portanto, existe uma infinidade de combinações em matéria de relações afetivas e sexuais. Assim como existem homens que vivem com homens, existem mulheres que vivem com mulheres. Existem homens com alma femininos que vivem com mulheres e homens com alma femininos que vivem com homens.
Mas, na minha modesta opinião, a verdadeira crossdresser, mesmo que resolva tomar hormônios, sempre vai querer viver com uma mulher.
Eu, por exemplo, durante certa parte da minha vida andava diuturnamente com roupas femininas, porém, nunca me relacionei com homens. Tal como dizem, as mulheres se vestem mais para se apresentarem às demais mulheres do que aos homens. Era o que eu gostava de fazer. E algumas vezes cheguei a influenciar algumas mulheres com a forma de me vestir. Por isso eu digo que gosto tanto das mulheres que gostaria de ser eternamente como elas. E minha esposa não gosta desse meu jeito de ser, por ter sido criada dentro daqueles chamados padrões de normalidade. Aliás, essa é a grande reclamação da maioria das esposas e companheiras de crossdresser. Elas não querem uma companheira mulher. Elas querem um companheiro homem.
S/O INCONFORMADA COM SUA POSIÇÃO
Vejamos o que escreveu uma das S/O insatisfeitas com sua situação:
Uma coisa que não concordo é que temos o dever de buscar o “equilíbrio” em nossa relações conjugais. Acho que falar é mais fácil do que, na verdade, por em prática.
Vim de uma família conservadora em que tentar aceitar o crossdressing do meu marido já foi um grande passo, pois o conceito de marido, relacionamento e família que eu tinha eram outros.
Uma coisa que me incomoda muito na relação conjugal é o fato dele querer que eu o trate como mulher na cama e no dia a dia. Se fosse só o fato de se vestir como tal, para mim estaria tudo bem. Mas querer que eu faça o papel de "homem" e que faça coisas que os homens fazem, se é que me entendem, me incomoda e demais.
Uma coisa é querer se vestir como mulher, outra é querer ser uma e querer ser tratada na maioria das vezes como tal. É nessas horas que me arrependo de ter dado abertura para que ele me falasse sobre isso. Muitas vezes quando estou sozinha, em meus momentos de reflexão, penso que deveria ter dado fim à relação conjugal logo que fiquei sabendo de seus desejos.
Já me cansei de ter que fazer e assumir um papel que não é geneticamente o meu. Nem sinto vontade de comprar lingeries para mim, entre outras coisas femininas, porque o primeiro fato que me vem à cabeça é que ele vai se interessar mais pelas peças femininas do que por mim. É como se ele estivesse "roubando" meu espaço.
Diante de tal desabafo, outra S/O escreveu:
Tive muito medo de expor minha opinião por achar que estaria sendo dura demais, mas a realidade é essa mesmo: nem sempre é legal o relacionamento, nem sempre temos paciência para aceitar tal situação e às vezes me sinto insuficiente. Parece que só eu não basta. Aceito, porém sofro bastante com essa situação.
LESBIANISMO EM "SEXOS OPOSTOS"
Por sua vez, vendo os problemas das S/O, uma das Diretoras do BCC, Diana Maria, escreveu:
O BCC criou o "Espaço S/O" para que as esposas e companheiras de crossdressers tenham nas experiências das outras, o possível encontro de uma luz no fim do túnel.
O crossdressing e o crossdresser ainda continuam misteriosos, se bem que dia a dia mais estudiosos se debruçam sobre o problema. Uma das mais recentes "teorias" é a da transgeneridade, mas a meu ver ainda insuficiente. Embora respeite a ciência oficial, a minha visão é mais abrangente e assim vejo como um caminho alternativo que o Homem (o macho) procure desesperadamente encontrar, na experiência de ser mulher, a maneira igualitária de compreender sua companheira, embora use para tal uma "ferramenta" grosseira que é a de se vestir e se portar como uma mulher. Seria uma forma de, através de sua feminilidade, entender o verdadeiro âmago da alma feminina.
Há todo um passado milenar de domínio do macho sobre a fêmea e estes que enveredam pelo caminho do crossdresser, talvez procurem um retorno á Idade de Ouro. Por outro lado, a sociedade, montada sobre a égide patriarcal, impôs às fêmeas o culto à masculinidade. Ou talvez em uma visão mais alongada, em razão do crescimento cada vez maior do número de crossdresser em todo o mundo, exista uma tendência à rejeição dos valores masculinos sintetizados na guerra, na brutalidade, na violência e no poder.
Hoje, vivendo momentos de tristeza e angústia, atribuo a minha visível doçura à atitude da minha companheira ao sempre ter procurado entender o meu "outro lado" (o feminino). Em seus momentos de dor, expressados em seu olhar, sinto a comunhão que obtivemos pela prática da verdade de cada um.
Foi-nos ensinado que a marcação dos papéis pré-estabelecidos é condição primordial para uma vida "normal" de um casal. Esta "normalidade", se comparada com a existente há 100 anos, pode ser considerada hoje como altamente pecaminosa, algo que o homem só poderia exercitar com a amante ou a prostituta. Esta "normalidade" hoje está quebrada e caminha para o cânone da minha religião, dita pagã, na qual o prazer da carne é o caminho da divindade.
Se há amor, tudo é permitido, inclusive fantasias cujas origens são desconhecidas. Mas que realizadas permitem alcançar o equilíbrio. São como bolhas de sabão que logo se desfazem.
A S/O de um CD tem ao que parece, uma grande dúvida, angústia e medo. O de que certas práticas o conduzam à homossexualidade, quando, então, perderá seu companheiro. Mas também, não se pode esquecer que muitas mulheres perderam seu companheiro para outra mulher, que o aceita do jeito que ele é.
O verdadeiro homossexual não se comporta como um CD. Quando estive em São Paulo, fui a uma boate GLS e confesso que não me senti bem ao ver dois homens se beijando na boca.
O verdadeiro homossexual não sente atração por mulheres ou homens vestidos com roupas femininas. O que os atrai mutuamente é o corpo masculino dos seus parceiros.
Diria mais que ao CD muito mais lhe apraz, a eventual (disse eventual) troca de papéis, com sua companheira ou a prática do que poderíamos chamar de uma forma de lesbianismo.
Não desejo teorizar sobre o assunto. Apenas transmitir a minha experiência pessoal. E ela indica que em havendo o Amor, nada é vedado. Contudo, diz-me ainda a mesma experiência, que à mulher cabe o estabelecimento dos "limites", um dos quais é o do seu direito de ter em contrapartida a realização da sua sexualidade como mulher.
Infelizmente não posso me alongar neste assunto, nem impor conceitos. Muito me alegraria que, da troca de experiências, alguma luz pudesse brilhar no fim do túnel. Por isso foi criado o "espaço S/O" no BCC.
CROSDRESSER NÃO É TRAVESTI NEM TRANSEXUAL
Diante dos problemas enfrentados por suas "colegas de infortúnios", outra S/O escreve:
A característica básica da minha crossdresser é a de ser heterossexual que sente atração e afinidade por objetos do universo feminino. Gosta da sensação de experimentá-los, gosta de se produzir (montar) e de se sentir sexy como gostaria que uma mulher fosse. Ou seja, pelo que li sobre o assunto, a minha marida é uma típica crossdresser.
Estamos juntas há quase 10 anos e a história dela como CD cresceu ao meu lado (claro que antes ela tinha vontades, mas nunca havia se relacionado com alguém que não a recriminasse).
Tudo começou como uma fantasia, uma brincadeira, e foi se "profissionalizando". Eu e o Sapo começamos a comprar coisas para ela: roupas, sapatos, maquiagem, acessórios. Hoje ela tem mais sapatos do que eu.
Como a coisa "cresceu", comecei a pesquisar se outros homens agiam como o meu e descobri o termo crossdresser. E a realidade é dura: transexuais não são crossdressers! Se o cara se hormoniza, se quer andar o dia inteiro vestido de mulher (no sentido de se transformar em uma), se sente atração por homens... Não é crossdresser!
Concordo com o que a Diana falou sobre inversão na cama. Isso pode ser uma brincadeira saudável (afinal hoje já é público e notório que todo homem, heterossexual ou homossexual, sente prazer na região anal). Se a cabeça dos dois está preparada para viver a situação, que ela seja vivida.
Minha marida sabe e todos os que já conversaram comigo também sabem, que eu jamais aceitaria a hormonização! Não quero uma mulher ao meu lado, quero um homem. Aceito viver fantasias, mas não abro mão do meu lugar. A mulher da relação sou eu!!!
Ninguém tem a obrigação de viver uma vida de drama. Em primeiro lugar, seu parceiro tem que saber o que é e o que quer e tem que te dar segurança disso. A companheira também não precisa se agredir fazendo coisas que não gosta (se teve uma educação conservadora, isso não tem nada a ver com crossdressing; tem a ver com o que precisa para ser feliz).
Uma de nossas colegas de infortúnios ou de satisfação também está certa quando fala da Branca de Neve. A maioria de nós foi educada para ser princesinha sempre à espera do príncipe encantado. E acha que somente se o cara for heterossexual ele pode ser príncipe. Mesmo assim, pode ser que queira usar um vestido como o da Branca de Neve para sentir como é passear pelo bosque. Mas, não será por isso que deixará de ser heterossexual.
Noutro dia, a mesma S/O, escreveu:
OPINIÃO DE S/O
Acho que as pessoas complicam um assunto muito simples e acabam contribuindo para aumentar o preconceito.
Acho que o crossdressing é um fetiche, sim! Não que o rapazinho vá ficar excitado toda vez que usar uma sandália, mas o fascínio que gira em torno do assunto - meio transgressão (Nossa! Estou usando uma peça feminina!), meio proibido (Ninguém pode saber, senão vão me achar louco!), e exatamente por isso muito atraente - tem tudo a ver com fetiche.
Para ser crossdresser tem que ser heterossexual. Ou até bissexual. Mas tem que gostar de mulher na cama e não querer concorrer ou repudiá-las. É um fetiche!
Na minha opinião, o cara que se veste de mulher e tem vontade de mudar de sexo é um transexual. Ele não só quer se vestir como mulher, como quer mudar de sexo. Vai se hormonizar porque não quer ser do sexo masculino, quer mudar seu gênero. Isso sim não tem nada a ver com fetiche. É a natureza, sei lá.
Outra coisa: drag queen não é um crossdresser. É um travesti. Está no dicionário Aurélio: travesti é o homossexual que se veste de mulher. Tipo Rogéria. Não fez operação de mudança de sexo. Não liga para o fato de ter um pênis, muito pelo contrário, pode até achar interessante ter esse pênis. Tem travesti que se veste como mulheres "comuns" e travestis que exageram na dose. Esses normalmente são chamados de drag queens.
E um heterossexual que gosta de se vestir de mulher, o que é? Se crossdresser for sinônimo de tudo, é óbvio que o preconceito não vai acabar nunca. As pessoas vão achar que travesti, transexual e crossdresser é a mesma coisa.
Nada contra os travestis e transexuais, pois os adoro. Mas se houver essa confusão, nunca nossos homens poderão comentar normalmente nas rodinhas de amigos: "Meu fetiche é usar calcinha". Sendo que, se um homem fala que gosta de transar com a mulher amarrada (bondage) ou gosta de lamber os pés da fofa (podologia), é encarado de uma forma bem melhor assimilada pela sociedade.
Fiquei sabendo que a TV Globo vai produzir uma novela de Miguel Falabella e um dos personagens será um crossdresser. Se realmente for verdade, espero que a coisa seja bem retratada e não alimente mais essa confusão toda de conceitos.
Se amanhã meu namorado decidir que gosta de se vestir de mulher e sair com homem, tudo bem, beleza, é a vida!!!! Só que ele vai deixar de se encaixar na descrição de um crossdresser e passará a ser um travesti. E se ele decidir que é uma mulher num corpo de homem e que quer mudar de sexo, deixará de ser um crossdresser e passará a ser um transexual.