MARÇO / 2005

ESPAÇO S/O

NA RUA COM JULIANA

Por Miss Taylor - S/O da Juliana Cristina - 26/02/2005

Preciso contar para vocês sobre minha noite de sexta feira.

Embora eu já tenha visto a Ju montada várias vezes, e sempre adorei ajudá-la nisso, eu nunca tinha saído da nossa casa com ela en femme. Planejamos algumas vezes, tentamos na semana passada, mas ainda não tinha dado certo.

Pois bem! Nesta sexta, 25/02/2005, finalmente consegui sair com a Ju montada na noite paulistana. Confesso que deu um friozinho na barriga, seria a primeira vez e eu não sabia o que poderia rolar.

Sei lá sempre imaginava como reagiria em tal situação, se conseguiria me portar apenas como amiga dela ou o que faria se algum cara mexesse com ela. Paranóias desse tipo. Quando soube então que iria encontrar com outras garotas do BCC, e entre elas a Paula, aí pirei.  Eu já conhecia algumas das meninas, mas todas de sapinho e não montadas.

Bem! Vamos a aventura. Encontramo-nos num hotel no centro, que eu mesma reservei. Fui pra lá cedinho porque ainda tinha que fazer algumas coisas, como terminar de pintar minha unha (risos). Frescura pura. Levei as coisas da Ju e as minhas também. Aproveitei para ousar um pouco no visual e parecer um pouco diferente do que eu sou no dia-a-dia. Questão de sigilo.

A Ju chegou no final da tarde, tomou um banho de princesa e eu a ajudei a se montar. Pedimos um taxi, e fomos à Praça Roosevelt assistir a peça teatral denominada "Transex". Aliás, recomendo-a a todas meninas. Uma boa peça.

Lá encontramos outras meninas e a Paula. Aí começou a minha surpresa. Não pela presença da Paula, imagina, ela é um amor, super simpática. As outras meninas se mostraram um pouco mais quietas e eu compreendo. Afinal, é claro, talvez a presença de uma S/O não seja lá muito comum nessas saídas.

A ju estava linda numa saia branca de flores vermelhas e com uma sandália Luiz 15 branca que a deixou com 2m (risos). Tadinha! E está com dor nas pernas até agora.

Quer queira, quer não, eu acredito que no fundo de nossos baús de preconceitos guardados no sótão de nossas educações machistas e enfadonhas, e que seja convincente quem nunca pensou nisso, o que esperamos de um encontro crossdresser???

A Ju, quando eu perguntava, dizia que seria um clube do bolinha de saias.

Mas nosso preconceito nos faz esperar algo mirabolante, recluso a lugares de "perversão", homens "libertinos" travestidos para viverem as mais pecaminosas das fantasias.

Certo?!

Vão dizer que nunca pensaram nisso?

Esta bem que não confessemos nem a nós mesmas, mas procure direitinho lá no fundo da alma. E aí, achou? Procure direito. Viu, é isso que pensamos sim.

Lamento decepcioná-las meninas com o que vou contar.

A noite transcorreu entre simpáticas jovens senhoras, vestidas com muito bom gosto e discrição, que, entre amigas, foram assistir a uma inocente (acreditem é inocente) peça teatral e depois para encerrar a noite foram a um restaurante para jantar e conversar.

Não satisfeitas, eu e algumas das meninas resolvemos fazer um programa mais "pesado" e deixamos as moças na porta do teatro, fomos a um bar e depois a um videoque.

Isso mesmo. Estão achando a noite chata??? Pois é queridas, embora eu tenha me divertido muito, as minha noites de adolescência e de solteira eram muito mais perigosas.

Por mais incrível que pareça, a noite transcorreu tranquilamente, conversamos e cantamos até as 5 horas da manhã. Ninguém encheu a cara, ninguém foi vulgar ou libertina, ninguém nos importunou e eu me senti muito à vontade. Encontramos outros casais que apóiam a prática. Conversamos sobre literatura, maquiagem, festas, filhos, música, teatro...

Resumindo. Se não fosse a opressão social que obriga os crossdressers a se limitarem a espaços GLS, porque lá ninguém os ridiculariza ao entrar, nem os constrange, eles freqüentariam os mesmos cafés e restaurantes que nós mulheres adoramos ir com as amigas após um sábado no shopping por exemplo.

E eu lamento profundamente que eles não possam fazer isso. Afinal é exaustivo só poder sair na "calada da noite" para saborear um bom vinho entre amigas durante uma agradável conversa.

Sugiro que vocês S/Os experimentem isso.

Acredito que essa pequena experiência me torne alguém melhor.

Atualizada em 21/04/2005