
MARÇO / 2005
REFLEXÕES SOBRE UMA DIFÍCIL DECISÃO
Por Letícia Lanz
Na medida em que os anos passam, as frustrações aumentam e as promessas diminuem. Ficamos mais realistas; em alguns momentos, tremendamente pessimistas. Mas ninguém, nem mesmo a mais empedernida das criaturas, será capaz de negar que as seduções da vida perdem sua força com o correr dos anos, ou que desaparece o mistério de tudo ou que, de alguma forma mágica, se desfaz o enigma que a vida é. Pelo menos é o que vejo no meu caso, que já cruzei tantas décadas.
Por anos e anos, meu desejo de ser ou de estar mulher permaneceu adormecido dentro de mim. Como se eu tivesse ferido o dedo numa roca e caído em sono profundo, durante todo esse tempo fiz exatamente as coisas que pessoas ditas "normais” fazem: - arrumei uma profissão, a companhia de uma pessoa maravilhosa, casei-me, tive filhos, plantei uma árvore e escrevi um livro.
Um dia, em meados de 2003, saberá Deus como e por quê, fui despertada do sono em que repousava tão mansamente. Não por um “beijo de amor”, como no conto de fadas, mas por uma série sucessiva de “porradas da realidade”.
Procurei por mim, e não me encontrei. Olhei-me no espelho, e não me vi. Tentei recuperar minha história, e nada havia nela de concreto. Desaparecera a profissão, o casamento, os filhos, a mulher-companhia de tantas jornadas. Procurei pela árvore que eu tinha plantado e encontrei-a quase morta, por falta de raízes que a nutrissem. Procurei pelo livro que escrevi e era letra morta, por falta de consistência nas teses ali defendidas. Limbo existencial total.
De lá para cá tenho caminhado, com muita dificuldade, confesso. Não é fácil acordar no meio de um sonho que beira à perfeição e topar com uma realidade concreta, confusa, contraditória, absurda, sacana, perversa, intolerante, cruel, má.
Foi então que, sem mais um sonho perfeito para me ancorar, comecei a investigar a própria natureza do meu sofrimento. De onde estava realmente vindo a minha dor? De onde brotava a avalanche de adjetivos – todos ameaçadores e hostis – com que eu passei a rotular o mundo e a realidade que me cerca?Qual era, afinal, a verdadeira natureza da minha dor?
Querer ser ou estar mulher, sendo homem, é, em si, uma coisa tão banal, tão patética que não poderia causar tanto arrepio a alguém como eu, afeito a lutas tão duras, moldado em campos de guerra tão violentos e tão mais complexos.
O problema é que ser ou estar mulher, sendo homem, não conta com o aval da sociedade, ao contrário das outras lutas que eu travara – e vencera – com brio e êxito. Foi por isso que, inconscientemente, por instinto de defesa e auto-proteção, eu devo ter preferido, há tantos anos atrás, “furar o dedo na roca do destino” e cair em sono profundo. Em outras palavras, ceder ao meu medo em vez de ceder ao meu desejo. Entrar na Matrix, para não ser destruído por ela.
Uma estratégia de sucesso, não fosse um dia eu acordar e não me encontrar em lugar nenhum. Olhar no espelho e, como um vampiro de mim mesmo, não mais me ver, após ter esgotado, até a última gota, a minha própria seiva de vida.
A esta altura, o leitor ou a leitora deve estar perguntando a título de que eu estou aqui te dizendo isso tudo. A razão é uma só: - eu não tenho mais tempo para sofrer. Eu não estou mais disposta a racionalizar este desejo, saído sabe Deus de onde (e acho que nem Ele sabe...) e sobre o qual eu não tenho mais nenhuma rédea. Ele vai cavalgar solto porque, se depender de mim, não tenho mais nenhum domínio intelectual sobre ele. Reprimi-lo mais, a partir de agora que me re-conscientizei dele, significaria destruir-me, física e mentalmente.
Pai, mãe, filhos, amigos, amigas, vizinhos – amo todos eles, muito. Mas não posso permitir que eles me joguem de volta ao abandono de mim mesma em nome de preservar com eles qualquer tipo de relação. Uma relação construída e mantida dessa forma não é uma relação de alegria, não é uma relação de amor, não é uma relação de amizade. É uma relação de moralidade, de suposta normalidade, construída com base nos pareceres médicos, nas recomendações dos pastores, padres, rabinos, mulas, etc, que explicam o desejo como coisa maligna e a realização dele como indesejável, pecaminosa e doentia.
Portanto, vejo com total reserva os pareceres médicos, “científicos”, a respeito do que quer que seja na vida de nós transgêneros. A quem interessam os resultados? Essa é uma pergunta que cabe aqui. Quem patrocinou as pesquisas? Quem está apoiando a divulgação dos resultados?
Em outras palavras, procuro sempre o mordomo...
Acho que para alguém opinar sobre a condição de CD, travesti, transexual, transgênero em geral tem, no mínimo, que ter experimentado esse desejo DENTRO DA SUA PRÓPRIA PELE. Assim como é impossível descrever como o sol é quente para quem sempre viveu na sombra...
E, ainda assim, mesmo quando o assunto é descrito por alguém que vive ou viveu essa condição, ainda é necessário uma boa dose de reserva. Quase sempre a matéria é apresentada em tom magoado, sofrido, cheio de perdas e danos. Quase nunca se assume o prazer de estar vivendo plenamente aquela condição esboçada no desejo. Quase sempre fala mais alto a culpa de não corresponder aos padrões exigidos pela sociedade. A vergonha de não se ser aceita no convívio dito “normal”.
Minhas conclusões até agora:
1) Penso que não preciso, não devo, não mereço ser ou parecer infeliz nem disputar infrutíferas batalhas contra o mundo exterior, a saber: pai, mãe, irmãos, irmãs, vizinhos, colegas, comunidade para me afirmar sendo a pessoa que eu sou. Não estou fazendo nada errado, nada ilegal, nada inconseqüente ou irresponsável (será que alguém nessa condição está?); não estou prejudicando ninguém, não estou destruindo ninguém. Pelo contrário, quando, como homem, encontro e desenvolvo o meu lado feminino, fico mais amoroso, mais sensível, mais humano enfim, disposto a me relacionar com as pessoas a partir de um amor genuíno (inclusive nas eventuais rusgas e disputas que o amor é capaz de engendrar...).
2) Dificilmente receberei apoio e reconhecimento unânimes pela minha atitude em assumir claramente o meu desejo de ser/estar mulher. Como também não é nem razoável, nem necessário, nem oportuno que eu assuma esse desejo diante de todas as pessoas, mandando publicar matéria completa no jornal a respeito das minhas intenções. Mas, quando eu falar de mim mesma, a quem quer que eu julgue que eu deva me mostrar por inteira, não posso assumir tom melodramático, com direito a olhar de piedade e pedido de misericórdia. Devo ser clara e objetiva e me colocar, calmamente, do que jeito que eu estou me sentindo naquele momento.
3) A menos que eu queira sofrer pacas, transformando minha vida numa tragédia absolutamente sem sentido, não posso esperar que os outros me aceitem inteiramente como eu sou, o tempo todo. Aliás, se eles não fazem isso nem quando eu me esforço para ser do jeito que eles querem que eu seja, imagina quando eles descobrem que eu estou sendo do jeito que eu quero ser! Ao contrário, eu é que tenho que aceita-los como eles são, se pretendo conviver e ser feliz com eles.
3) As poucas pessoas que são realmente importantes para mim sempre saberão me amar e me respeitar pelo que eu sou. E, se não souberem, terei a chance (muito desagradável) de descobrir que tenho vivido enganado a respeito dessas pessoas por tanto tempo...
3) É bom parar de pensar que eu vou receber alguma recompensa do mundo por eu ser exatamente de um jeito que o mundo não quer que eu seja. Em outras palavras, é inútil eu esperar obter dos outros, do mundo, da comunidade, alguma forma de reconhecimento e recompensa por minha proibida paixão pelo feminino. O mundo odeia o feminino (inclusive a maioria das mulheres!)
Encontro-me satisfeita por ter conseguido refletir sobre todas essas coisas. Meu nome – Letícia – significa “alegria”, alegria grátis, alegria plena, alegria que não precisa de se apoiar em nenhum “sonho de perfeição” para existir. Tenho conhecido as trevas, mas estou trabalhando pela luz. Sei que sofrimento não está com nada. Só serve para forçar às trevas das quais eu desejo tão ardentemente me livrar. Quero que sejamos sempre muito felizes e possamos desfrutar com plenitude a condição que cada uma de nós tem, em que grau for.
Atualizada em 02/03/2005