
FEVEREIRO / 2005
A CONDIÇÃO DE CROSSDRESSER
Por Maria Antonieta
Escrevi este tema já faz meses. Finalmente, depois de uma incubação preguiçosa, coloco mais alguns pensamentos para a leitura, esperando que seja distração, leitura amena e quem sabe, continue a ser ponto de reflexão.
É sobre A Condição de Crossdresser. Existe toda uma homilia, creio eu nesta característica que nos faz comuns, umas às outras.
Está tudo bem,... somos crianças matreiras, levadas, meninos de olhos brilhantes e almas inocentes. Temos nos nossos pais um universo a ser seguido e imitado. E a maneira de segui-los, aos deuses de nossa inocente e principiante caminhada, é olhá-los, e mal temos domínio para tal.
Ah! O olhar de uma criança... indo mais fundo ainda amigas, o olhar com que uma criança mira os seus pais, nossos pais, é qualquer coisa inexplicável!
Todas nós, que tivemos a ventura se sermos pais e mães conhecemos de sobra este olhar...o olhar da segurança, o olhar da bem-aventurança, do filho fechar os olhos e repousar tranqüilo... SEGURO!
A grande caminhada de uma CD pode começar, acredito eu, bem aqui. Para que nossas almas infantis comecem a guardar informações do mundo; para que as inúmeras prateleiras vazias de nosso cérebro passem a ser ordenadas e catalogadas, para que mensurem as informações vindas aos milhares, de todos os lados de nossas vidinhas incipientes, as primeiras gravações nos bailam nas retinas, com as nossas mães se inclinando sobre nós, nos dando o seio, sorrindo e, por muitas vezes, chorando por nós. Acho que seremos "diferentes" desde este momento sublime. Este Start (começo) não justifica a diferença dos outros... mas o que explica?
O "seguir", ser igual, imitar; tão comum na vida e que é condição de sobrevivência das mais elementares para qualquer ser vivente deste mundo de Deus, passa a agir em nós de maneira divinamente "diferente" se nos compararmos aos nossos "irmãos". O que não deveria ter acontecido, se pensarmos no conforto do sapo e sua pseudo condição dominante, explode com toda a sua grandeza, lá dentro do nosso coração, nas nossa lindas almas. Fica plantadinha a semente da visão feminina, de nossas mães maravilhosas e que à princípio, mesmo sem terem consciência do papel maravilhoso que desempenham, fomentam, regam, adubam e acalentam o nosso lindo e tão mal compreendido, lado feminino.
Divina é a criação. O que fazer? Lutar contra?
Respeitando o aspecto religioso e... tabú para muitas de nós.. eu ainda poderia aventar um outro lado, diferente e não menos importante em todo este contexto. Será que a mulher presente dentro de nós, linda, feminina, que nos enriquece a existência enquanto seres humanos e que tantas vezes sufocamos e tentamos, inutilmente suprimir, não veio junto do resultado físico da junção aleatória dos gametas de nossos pais? Não teremos sido mulheres no pretérito?
Prefiro dizer que não sei... sabendo-o...
Mas não quero, não pretendo fomentar nenhuma discussão sobre isto, entendem? São pontos de vista que estão longe de querer ferir a suscetibilidade de quem quer que seja.
Mas disco rodado, pão assado e crescido, toda uma vida vivida e eis-nos presentes umas frente às outras. Associadas do BCC... Todas nós com suas vidas ditas "sociais" em curso e rotuladas na sociedade como homens de respeito, portadores de responsabilidades tais que o fardo de nossa existência dupla, como nos é imposto; se torna quase insuportável.
BCC... A válvula de escape. A angústia de reprimir o que é maior que todas nós fraqueja por vezes.. Entro aqui então e virtualmente estou em casa, livre das ameias que cerceiam a visão que anseio ter. Casa que por um passe de mágica possui o poder balsâmico de serenar a tempestade infernal que quase nos faz soçobrar na tempestade da vida.
Que vida, não, minhas amigas? Estou me referindo àquela nossa velha conhecida: roupas femininas por baixo de calças e camisas; hormônio às escondidas; a procura desesperada por uma explicação para o inexplicável; e a tentativa, quando o fardo é muito pesado e a angústia se torna insuportável, de encontrar alguém que nos apóie, que dê um sorriso para a mulher carente e loucamente necessitada de respirar enjaulada dentro de nós.
Então, algumas de nós descobre que possui lenitivo bem ao seu lado, quando ao final de extenuante luta contra sí mesma, coloca seu coração e amarguras à sua consorte. Que delícia quando isto acontece e temos nossa cruz aliviada em seu peso pela ajuda e compreensão de outra alma que nos seja solidária.
Vocês repararam na grandeza de uma S/O, ou como eu costumo rotular carinhosamente a minha, de C/M( cara metade)?? risos.
Para elas, o sonho do homem com quem casaram sofre um baque. Só a grandeza da alma e a própria condição feminina delas lhes dão as armas necessárias para ajudar outra criatura igualzinha a elas e em estado lastimável. E elas superam a tudo. Ah.. as mulheres...
Para outras de nós a estória não tem, necessariamente, este "Happy end" colorido e desejável. A descoberta de nossa condição cria um ambiente pesado, de frustração, de incompreensão e é lamentável o desfecho a que por vezes se chega. Suspiros...
C'est la vie... Só que aqui na nossa casa, todo este quadro sofre uma paralisia. Somos atemporais quando aqui dentro, nada nos atinge. É por isto que amo a todas vocês, somos fotocópias umas das outras. E é por isto também que, debitadas todas estas considerações, umas otimistas e outras nem tanto, necessitamos nos unir aqui, nos apoiarmos aqui, respeitarmos este lugar como se fosse um templo divino. Na verdade, amigas, este clube o é..
Descobri-lo não foi a jogada de nossas vidas? Não foi a constatação feita por todas nós de que "não somos anormais" ? De que existem outras como nós?
Atualizada em 09/02/2005