DEPOIMENTO DE SIMPATIZANTES
A INVERSÃO DE PAPÉIS E A LITERATURA
Por Danilo Angrimani
A inversão de papéis é uma ocorrência periódica na literatura brasileira. Personagens que fluem sobre os gêneros vêm encantando o público há décadas. Eles transgridem e aliviam o reprimido do leitor. Representam uma descarga positiva da pulsão prisioneira.
Até Jorge Amado, historicamente heterossexual, deu vazão à inversão sexual ao “matar” seu personagem Vadinho, vestindo-o de mulher. Era Carnaval, é certo. Vadinho seguia um grupo de foliões. A cada parada, entre um gole na bebida e outro, ele erguia o vestido e mostrava uma reprodução de pênis até cair duro e morto na rua.
O fato é que ele estava travestido. Morreu crossdresser e assim ficará para sempre na história imemorial da literatura.
Talvez a inversão de papéis mais despudorada aconteceu em “Grande Sertão: Veredas”. Dois “soldados” perdidos em uma luta sem fim no sertão se encontram e se apaixonam. Riobaldo e Diadorim vão escrever uma página sutil e indispensável sobre a indefinição de gênero.
Riobaldo ama Diadorim, que não é o “soldado”, o “companheiro” de guerra, mas a mulher Diadorim, que, por sua vez, não é a “mulher”, mas o “homem” Diadorim. Não importa aí o resultado tranqüilizador que chega o autor, na passagem mais emocional do texto.
Diadorim morreu. O corpo é colocado em cima de uma mesa e uma mulher se prepara para lavá-lo e prepará-lo para o funeral. Riobaldo, desesperado, vê o companheiro desnudo e descobre que seu amor tinha um endereço “politicamente correto” para a época em que foi escrito. Para alívio da platéia, não se tratava de um amor de bichas sertanejas, mas de um “correto” romance entre um homem e uma mulher. Ufa!
“Pelas lágrimas fortes que já esquentavam meu rosto e salgavam minha boca (...) Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes...(...) E subiram as escadas com ele, em cima da mesa foi posto (...)”
“Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
“A Deus dada. Pobrezinha...”Ao transformar Diadorim em mulher, Rosa ameniza os ânimos e metamorfoseia um romance linearmente homossexual em heterossexual. Apesar do efeito final, “Grande Sertão: Veredas” é um romance gay. Escancaradamente gay e sobre a inversão de papéis. Na realidade, Riobaldo não amava Diadorim mulher. Ele “amava” o homem que havia em Diadorim. Ele amava o travestido, o que assumia o outro papel.
Danilo Angrimani é autor de “Nicola, um romance transgênero”
Durante
a realização da festa de aniversário da PAULA ANDREWS no ano 2000, o DANILO
ANGRIMANI autografava o seu livro "NICOLA – Um Romance
Transgênero".
O livro foi editado por EDIÇÕES
GLS. O atendimento ao consumidor é feito pela Summus Editorial,
que fica na Rua Cardoso de Almeida, 1287 - 05013-001 - São Paulo - SP -
Tel.: (0xx11) 3872-3322.
A editora Laura Bacellar colocou no livro uma Nota explicando que "trangênero
é quem passeia entre o masculino e o feminino. É quem não se define nem
bem como homem, nem bem como mulher, mas como uma pessoa que tem ambos
dentro de si".
Ainda segundo ela, "um homem pode sentir-se atraído apenas por
mulheres e querer experimentar vestidos e maquiagens".