DEPOIMENTOS DE SIMPATIZANTES

A AVE FÊNIX OU A FLOR DE LÓTUS

Por Betossauro

Essa história, eu contei para uma amiga nossa, que se diz parecida com a ave Fênix, da mitologia, aquela que renasce das cinzas, depois de cremada.

Antes de conhecê-la pessoalmente, até acreditei que assim fosse, pela sua luta incessante de estar sempre renascendo a cada luta que passava em seu dia a dia.

Mas, depois de conhecê-la (que bom), notei que mais se afigurava como uma Flor de Lótus.

Numa noite dessas, essa nossa amiga, estava no nosso chat preferido do BCC, a falar no modo geral, porém, estando eu atento e conhecendo nossa “flor“, a chamei para o privado e no “téte á téte”, pude reparar, que ela estava precisando de um pouco de carinho, de dedicação e de um pouquinho de solidariedade que uma amizade sincera pode proporcionar.

Bom, lá estava eu no modo privado do chat do BCC, sendo assim, caberia a mim, tentar consolidar tal tarefa. Então, num relance, lembrei-me de uma história, que um professor de filosofia, havia me contado certa vez, quando me sentia acanhado.

Achei, que poderia fazer também algum sentido para ela, pois notava que algo semelhante estava ocorrendo.

Como não poderia deixar de acontecer (é claro, era eu quem estava redigindo a história), adaptei o original para aquilo que ela gostava, compreendia e estava necessitando na hora, somente com a intenção de buscar sua atenção pelas privacidades que lhes atribuíam naquele momento.

Como nossa amiga, tem uma predileção pela mitologia, é uma mística por natureza (achei isso uma graça), comecei assim:

- (Suzy), querida, vou te contar uma historinha, posso?

Não esperando a resposta, continuei.

- Existe nesse mundo, uma florzita, muito especial. Muito delicada, muito sensível, lindamente incomparável. Uma preciosidade da natureza, Mãe natureza. Uma jóia tão rara, quanto raro é seu nome e seu habitat. Chama-se Lótus, Flor de Lótus.

- Você a conhece? Já a viu, sentiu seu perfume?

- Se me responder que sim, não é necessário contar mais a história. Você já entenderia o que procuro descrever.

Tendo o silêncio como resposta, conclui que deveria dar procedimento a narrativa que me propunha no início.

- Sabe (Suzy), essa majestosa flor, deslumbra a todos que tem o privilégio de ver e sentir sua beleza, pois como já lhe disse, é indescritível em palavras. Nasce num pântano, geralmente, no meio do lamaçal, no lugar mais inacessível a todos. Escondida, até da própria luz solar, pois normalmente, fica na escuridão de um lago repleto de juncos, com raízes aéreas.

- Você sabe o que são raízes aéreas?

- São aquelas raízes, que ficam livres, soltas, que não fincam suas bases no solo. Buscam através de movimentos constantes sua alimentação no meio fluídico em que vivem.

- Pois bem, mesmo assim, “livre“, sem vínculo algum, ela também prefere estar lá, escondidinha, protegida (ela assim crê). Sente que a Mãe natureza, não foi tão providencial com ela, pois é um amontoado de ramagens, sem definição, um estorvo de tanta deformidade, que acredita, que deva se conformar e lá viver sua vida, sempre escondida.

- E assim, acaba sendo durante alguns anos, até que a cobrança da evolução natural venha transmutá-la na majestade que se formará.

Nesse ínterim, nossas amigas Drica e Denise Apro, lá no geral do chat, nos chamam a atenção com suas (sempre) delicadas picardias. “São uns amores“, também são Lótus (ainda que em formação, é claro).

Voltando ao privado, um pouco aturdido, voltei a maquinar novamente o teclado, na esperança de que (Suzy) ainda não houvesse dormido ou perdido a paciência comigo.

Notando ainda interesse por parte dela, mandei ver:

- Inevitavelmente, a natureza, cobra de todos, sua evolução. As meninas, viram mulheres, os meninos, homens, e aqueles que sabem aproveitar bem essa evolução, viram CDs.(!)

Quebrando um pouco a seriedade da historinha, para poder dar prosseguimento, continuei:

- Começando o milagre da transformação,, seu caule disforme e frágil até então, vira um majestoso cabedal, longo e forte. Sua grotesca aparência, de horripilante e desfigurada forma, começa a desflorar em perfeita harmonia de uma singular beleza.

- O sol começa agora a lhe emanar luz especial, que chegará até ela doravante, pois a sombra da floresta não a esconde mais, não existe mais aberração para ser escondida.

- Do olor que exalava, do ambiente putrificado que a envolvia, estava agora aromatizada por indefiníveis perfumes (é realmente necessário sentir o perfume para entender o que digo), extasiava até o próprio vento que a ela tanto açoitava tempos atrás e que, agora, embriagado pelo seu perfume sem igual passa a acalenta-la com brisas reconfortantes, qual carícias feitas por mãos aveludadas.

- As pétalas, escondidas no bojo do medo e da ignorância, começam a resplandecer na sabedoria dos Deuses. O milagre da vida, da transformação da vida, estava ali, se realizando. A metamorfose providencial, evidenciara ali, sua manifestação.

- Florida agora e com a confiança que aa beleza, a perfeição, e admiração de todos que tem o privilégio de poder vê-la de alguma forma, começa a se expor, para poder ser mais admirada, mais cortejada, afinal, agora, não é mais o patinho feio. Agora é a rainha do pântano e, por que não dizer, da floresta!

- Sabe (Suzy), a nossa vida é bem parecida com isso, entende a lição?

Notando que ela entendia o que queria transmitir, não pestanejei, continuei.

- A floresta agora, com nova perspectiva de vida, pois sua realeza, estava ali, irradiando tanta perfeição, começava também, a expor-se mais, a esconde-la menos e aí, todos começam a enxerga-la.

- Não havia mais necessidade de proteção, afinal, que criatura nesse mundo, poderia querer algo de mal, para uma perfeição daquelas?

- Ledo engano (Suzy), ledo engano.

- Consegue também captar a mensagem desse parágrafo?

- Ainda bem, continuo então.

- Sua beleza, toma dimensão maior do que poderia compreender. A dimensão de suas qualidades, vai floresta afora.

- Muitos, atraídos somente pela paixão e proveito próprio, querem vê-la. E muitos também, investem para consegui-la só para si.

- Mas um pântano, é sempre um pântano. Perigoso e cheio de artimanhas.

- A grande maioria dos que se aventaram a ter essa preciosidade desiste logo no início da empreitada, pois não querem sujar as mãos. Outros, porque não querem ter tanto trabalho. Alguns, conseguem ver o perigo, de cruzar o lamaçal e por medo, ficam somente na admiração.

- É claro, existem ainda, alguns “Saurus“, que corajosamente enfrentam o lodo, mas que também (infelizmente), sucumbem às armadilhas que ainda não estavam preparados para enfrentar.

- Mas sempre existe um campeão (?) para tudo. Um destemido e bravio pretendente chega até o pedestal da majestosa flor de Lótus. E cego e delirante pela beleza que só vendo, sentindo, tocando, se consegue, num ímpeto de paixão, a arranca de suas frágeis (ainda) raízes, cortando-lhe o caule de forma (cirúrgica, sim) que sua beleza permanece.

- Ela, mesmo que dolorida pelo rompimento de suas raízes, que já nessa altura, as considerava supérfluas (para que tê-las, se não são vistosas e admiradas), mal sabia que começa ali seu calvário.

- Os dois ali entregues à cobiça da descoberta da paixão, admiração, beleza, suavidade, carinho que envolve os sentimentos entorpecidos pela incompreensão dos fatos que manifestam e completam-se.

- A incompreendida agora, magnânima em sua perfeição e vitoriosa por seu trabalho e admiração, segue seu rumo. Ambos vão ter numa casa limpa, arejada, asseada nos esmeros que somente bons serviçais são capazes de produzir.

- Numa vitrine, convenientemente preparada para receber a preciosidade com terra, água e luz cuidadosamente dimensionados, selecionada, está fincada num vaso, ricamente adornado.

- Agora, a majestosa rainha, tem um trono à altura de sua beleza.

- (Suzy), consegue imaginar isso?

Pergunto para ver se o link não caiu, pois temos algumas amigas, com as quais costumeiramente acontece isso e não queria citar nomes para não criar nenhuma apologia acerca disto.

Notando, que estava compreendendo a lição que estava penando em passar (se não houvesse notado isso, iria parar com a historinha, pois se não existisse reciprocidade, para que continuar? Já era madrugada avançada e estava agora, começando o final ainda), expliquei:

- Nossa florzita tão admirada, começava a desdenhar. Começara a notar que faltava algo e que algo estava errado. Tinha tudo o que sempre sonhara, tudo aquilo que é bom (pelo menos, dizem que sim), toda a atenção voltada para sua garbosidade. Mas faltava algo e esse algo era crucial. Sentia, que sua beleza se esvaía a cada olhar de todos. Que a luz, cuidadosamente disposta para ela, não era radiante como haveria de ser. Que aquela água, límpida e cristalina, não a saciava.

- Pior, começou a notar, que a admiração de seu protetor, não era por amor, como antes tinha, no brejo e escondida por suas amigas árvores e lama. Seu protetor a queria, não por devoção, mas para demonstração de seus dotes e capacidade de se conseguir o que de melhor se pode possuir.

- Muito embora, ele provesse a Lótus da melhor maneira possível, notava nele a cobiça como prêmio, em vez da dedicação por devoção, havia a dedicação sim, mas por proveito próprio, para satisfação pessoal.

- Notava que todos que a cercavam a queriam para si, não para protege-la, tão qual um amor compreensivo e sincero é, e sim, por prazer, bel prazer.

- Notava também, a falta daquelas frágeis raízes, que nunca houvera imaginado falta poderia fazer.

- Aprendera com o sofrimento do definhamento agora instaurado, que aquelas pequeninas e insignificantes raízes, era na realidade, o sustento de sua essência.

- Com a depreciação do sofrimento causado pela falta de compreensão de si própria, e também notando que seu protetor, não dedicava mais atenção que antes dedicava, porque agora, não era mais novidade, a beleza começa a passar, o perfume, agora estagnado, não conseguia mais embriagar, não era mais o centro da atenção, deixou-se emergir no seu próprio fim.

- Instalada em si, a desilusão do que considerava o ser o melhor para ela, o processo de evolução da natureza, também mostrou seu lado rígido.

- Houve a perda de tudo, do garbo, realeza, perfume, enfim, toda a beleza agora, novamente transmudava em vida, vida morta.

- Seu protetor, notando que ela não duraria muito, tratou de jogá-la fora e arranjar outra igual em seu lugar.

- Um serviçal seu, um pouco mais sensível com aquela flor, que antes, fora a atenção de todos e tudo, inclusive ele, como lacaio, nunca teria a chance de tocar tamanha grandeza, compadeceu-se de sua situação e ao invés de destina lá para a lata do lixo, dando assim o derradeiro e esperado (agora, já desejado pela nossa Lótus, por tanto sofrimento que passara), fim, levou para o campo, e sem se aperceber, cansado que já estava, lançou-a no pântano novamente.

- No meio daquele lamaçal, afinal ela já estava morta mesmo, não?

- Outro engano, até daquele que houvera demonstrado compaixão e boa vontade!

- Ali, caída e esquecida por todos. Escondida até da luz do sol que não perderia seu tempo com aquela matéria quase morta. A Mãe Natureza, novamente abre mão do milagre da transformação da vida.

- A nossa Lótus, notou que mesmo longe de seu local de origem, havia algo, boiando, se arrastando, parece que procurando também algo.

- Já adivinhou que eram as raízes delas, lembra-se das raízes delas?

- Pois é, eram frágeis, não conseguiam se fincar em nada.

- Mas ali estavam e estavam ali, para fundirem-se novamente no milagre providencial daquele que proveu a nossa natureza (de cada um), sua devida forma.

- E a vida, como que milagrosamente, começa a desabrochar numa linda história de contos de fadas. Ela começa agora, a ter forças, começa novamente a tornar-se vistosa, desejada e cobiçada.

- Mas sabe (Suzy), agora, com a experiência adquirida da ilusão que havia passado, não queria mais se mostrar a ninguém, não queria mais. Aprendeu, junto com as raízes que aprenderam a caminhar também, que ambas se completam e precisam mutuamente. Uma não pode conviver em harmonia sem a outra e vice-versa.

- Então com o aprendizado de ambas, agora procurarão um lugar ainda mais inacessível, para lá, cumprir os desígnios da vida.

- Ela sabe, que haverá um dia, que novos admiradores, virão atrás dela, sabe sim. Só que agora, ela se esconde mais para que o próximo campeão que conseguir chegar até ela, de mais valor para ela, e que também, saiba dar a compreensão necessária para entender as suas necessidades, que muito embora, esteja feliz naquele pântano em que vive, também gostaria de ser o exemplo para o mundo que cerca além dos campos da sua singela visão.

Nesse espaço breve de tempo, Suzy interpela-me, que existe uma semelhança com o que se passa com ela.

Pedi um pouco mais de paciência par findar a história (não falei que não era viável faze-lo durante o chat) e também, que ela não precisava me responder de imediato, que se pudesse transferir essa história do privado do chat para a impressora ou um disquete, sei lá, leria com mais afinco e depois, comentaríamos o assunto.

Continuando, então, (Suzy):

- Disse meu mestre que sábios que passam essa história para os ouvintes, normalmente se embargam em lágrimas, e muito embora (aqui, posso jurar), não me considero ou me julgo sábio, simplesmente passo avante a lição aprendida.

Algumas lágrimas começam a dar notoriedade em minha cara, pois meus óculos já estão embaçados.

- Meu mestre aplica essa pequena história para elevar a estima através do sentimento tocante que ela nos traz com o forte apelo emotivo que expressa. Espero que tenha conseguido de alguma forma amenizar essa sua dor.

- Comigo foi assim, quando me ensinou e foi de muita valia para mim. Espero agora, estar obtendo o mesmo efeito que anos atrás.

- Você para mim, não é uma ave Fênix, que tem que ser cremada para renascer.

- É uma flor, a minha Lótus. Incompreendida por sua compreensão da vida. Magoada por sua alegria de querer viver a sua vida. Minha flor de beleza sem igual! Judiada, onde precisava ser amparada. Escorraçada, onde deveria ser compreendida. Repreendida por ter feito uma escolha de vida, sua escolha.

- Sabe (Suzy), a Fênix teve de ser queimada, você não precisa. Precisa ser amada. Precisa ser compreendida. Necessita ser respeitada pela sua escolha. Tem que ser reanimada nem se for com essa pequena história.

- Mas creia, Fênix nunca, sempre será uma flor:

- Fina Flor!

- A Flor do Lótus.

- Minha Lótus.

PS: Sabe, usei aqui o pseudônimo de Suzy, mas tenho certeza que você sabe de quem se trata, que isso fique somente entre nós.

Não sou pretensioso para fazer disso algo que não gostaria que fosse, contrário à minha intenção. Ou seja, respeitar e admirar Suzy, pelo simples motivo de compreender o quanto ela é especial por ser CD e, aliás, deixo aqui claro, que conheci no chat do BCC, diversas outras Lótus, cada qual com seu perfume, cada qual com sua beleza, cada qual com meu respeito.

Aproveito aqui o espaço, para deixar claro que minha admiração por vocês, vai muito mais além que uma simples historinha.

Beijos e espero que possa ser útil.

BETOSSAURO - Março de 2001.

VOCABULÁRIO:

Fênix - Ave fabulosa que, segundo a tradição egípcia, durava muitos séculos e, queimada, renascia das próprias cinzas.

Lótus - Designação comum a várias plantas aquáticas da família das ninfeáceas, gêneros Nelumbo e Nymphaea.

Lótus Sagrado do Egito - Planta aquática, da família das ninfeáceas (Nymphaea lotus), originária da Índia, e cultivada em lagos pela grande beleza das folhas, arredondadas, escavadas na base e denteadas, e das flores, alvas, com até 25cm de diâmetro, e muitos estames e pétalas, e cujas sementes são comestíveis.

Lótus Índico - Planta aquática da família das ninfeáceas (Nelumbo nucifera), originária da Índia, de flores amarelas, e rizomas e sementes comestíveis, ricos em amido.

Lótus Amarelo - Planta aquática, da família das ninfeáceas (Nelumbo lutea), originária do Sul da América do Norte, de flores amarelas, e com um círculo amarelado em torno do ponto de inserção do pecíolo na folha.

Lótus Azul - Planta aquática, da família das ninfeáceas (Nymphaea coerulea), originária da África, de flores azuis.