AS CROSSDRESSER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

OS PERIGOS DE "NÓS NA MÍDIA"

Por Juliana Cristina - 31/05/2004

Alguns acontecimentos do dia a dia vem me chamando a atenção e gostaria de esclarecimentos, em espacial das mais velhas de Crossdressers.

Só descobri o termo Crossdresser (CD) há cerca de 4 meses, quando entrei no site do BCC. De pronto me identifiquei com o termo pois nunca havia me considerado uma Travesti (TV) ou mesmo transexual (TS). No máximo me considerava uma fetichista.

Minha dúvida é com relação a atual exposição do termo CD nos meios de comunicação. Confesso que só comecei a prestar atenção ao termo quando me filiei ao BCC. Mas, recentemente tenho ouvido muito o termo em alguns locais que freqüento, como na Faculdade e em Bares que não são do circuito GLS. E acreditem os comentários não são nada amigáveis.

Gostaria que me respondessem se sempre foi assim e se era eu, por não estar no meio, quem não prestava atenção, ou se realmente está ocorrendo uma exposição exagerada por parte da mídia? Talvez esteja acontecendo uma caça as bruxas moderna, ou melhor, às CDS.

Espero que possam me esclarecer essa duvida.

ESCLARECIMENTO

Por Paula Andrews - 31/05/2004

Eu acho que nós CDs é que estamos nos expondo, as vezes até irresponsavelmente, bem mais do que nos expúnhamos antes. É sem dúvida, a meu ver, resultado da própria existência do BCC  e da exposição na Internet (site do clube, sites pessoais, blogs, etc, etc). Por conta disso (chamo de "efeito BCC"), cada recém chegada, cada novata, tem a impressão que o mundo é cor-de-rosa para nós; que as veteranas já abriram todas as portas; enfim, que o mundo conhece-nos, aceita-nos e respeita-nos. E tome exposição exagerada. Depois vem os tombos. Mas isso é uma outra história que dá muita conversa, pois estou generalizando e é claro, por conta dessa generalização deixo de apreciar as individualidades.

Quanto à mídia, "nada de novo no front". Desde a fundação do BCC a imprensa está sempre a nossa caça. Em algumas oportunidades, cedemos a tentação e deu no que muitas de nós já sabemos no que. Mas na maioria das vezes, particularmente enquanto instituição, resistimos. E restou a imprensa, de quando em quando, fazer algum sensacionalismo barato, como de forma contumaz, faz com qualquer coisa, grupo, minoria que possa render umas migalhas de audiência e, muitas vezes, muito lucro, muito dinheiro.

Nada com que se preocupar. Cuidado, sensatez, sentido de realidade e uma bem-vinda dose de medo são suficientes para a gente se divertir sem correr riscos desnecessários.

AVES RARAS

Por Jorgete Del Rio

O termo CROSSDRESSER é novo. Está fazendo mais ou menos uns 10 anos que foi implantado no contexto transgênero, se não me falha a memória, por uma organização americana denominada TRI-ESS.

Dentro da PSIQUIATRIA e da TERAPIA este termo CROSSDRESSER ainda não é totalmente enraizado e muitos usam, neste caso, um termo antigo que é o de TRAVESTI, embora muitos profissionais já o adotem.

Para o resto da população, a GROSSO MODO, apesar de várias entrevistas na TV, como no programa do GOULART DE ANDRADE, entre outros, o termo CROSSDRESSER é pouquíssimo entendido. Digo isto por experiência própria, pois nós do Rio de Janeiro, comumente freqüentamos um CLUB GLS, no qual as pessoas nos recebem e nos tratam com muito respeito e carinho, mas ainda nos chamam de CLOSEDRESSERS, HOMENS SOLTEIROS ou CASADOS QUE SE GOSTAM DE VESTIR DE MULHER. O que falar, então, do cidadão comum, tanto da classe alta como da baixa. Eles nos vêm simplesmente como: VIADOS ou TRAVECOS.

Todos nos olham com olhares esquisitos sem sombra de dúvida. Mas, nenhuma de nós em algum momento se sentiu ameaçada. Ninguém foi queimado na fogueira, nem guilhotinado. Digo isto porque várias MANAS, que saem comumente às ruas durante a luz do dia, nunca enfrentaram uma situação perigosa. Eu própria vou à noite ao Clube OK e nunca tive nenhum problema.

Agora, tudo depende de como se sai, de como se veste e de como são suas maneiras. Se forem agressivas, a recíproca também será agressiva. Nunca aconselhamos as saídas solitárias. Cuidado com o uso dos banheiros, principalmente os femininos. Cuidado com os lugares a serem freqüentados, principalmente as boates.

ENFIM, POR ENQUANTO AINDA SOMOS AVES RARAS, sujeitas, portanto, a sermos caçadas como tais.

PRECONCEITO E FALTA DE CULTURA

Por Suzy Kelly - 02/06/2004

Por que têm tanta audiência os programas que expõem a vida íntima dos artistas?

Por que tiveram grandes audiências os Big Brothers e as Casa dos Artistas?

Por que é tão importante falar da vida dos outros?

É tudo uma questão de preconceito e de falta do que fazer. Ou melhor, falta de cultura para entabular conversas mais importantes.

É especialmente em razão da falta de cultura e de educação cívica e moral que as pessoas se incomodam com a vida dos outros, quando poderiam estar conversando, comentando ou aprendendo sobre coisas mais úteis. É justamente por isso que os programas de entrevistas e principalmente os das televisões educativas têm tão pouca audiência. As pessoas de modo geral não têm cultura para entender certas coisas.

Muitos preferem combater e falar mal dos gays, das travestis, das drag queem e das lésbicas, dos artistas e de suas namoradas do que combater os narcotraficantes, os bandidos do colarinho branco e os políticos corruptos. Alguns chegam a agredir e matar membros dos grupos de sexualmente diferentes, porém, são incapazes ou não têm coragem de xingar, agredir ou até matar um corrupto, um narcotraficante ou qualquer outro tipo de bandido, mesmo porque, se o fizerem, podem morrer. Muito pelo contrário, estão preocupados em combater aqueles que não causam mal a ninguém, justamente porque estes não matam.

É tudo uma questão de falta de coragem para enfrentar o verdadeiramente nocivo e de falta de cultura e informação.

Justamente nos meios de comunicação, e nas demais profissões que lhes prestam serviços, está a maior parte dos sexualmente diferentes. Porém, aqueles que colocam suas caras e suas vozes na vulgarmente chamada de mídia eletrônica, têm dado um sentido pejorativo a essas minorias de diferentes, quando na realidade são trabalhadores prestativos como todos os demais.

Mas, infelizmente, até entre os diferentes, vemos uns falando mal dos outros, o que é muito mais grave.