AS CROSSDRESSER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

CARTA ABERTA A COLUNISTA DO SITE CASA DA MAITE

Por Vera Lúcia Jardim de Brito

Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2004

Meu caro colunista Paulo Cintra,

Sou uma CD do Rio de Janeiro. Sobre sua matéria pretendendo diferenciar categorias, sinto dizer que discordo totalmente no que se refere a nós, crossdressers.

Caso não saiba, aqui no Brasil existe o BCC - Brazilian Crossdresser Club, que agrega mais de 800 CDs virtuais e pouco mais de 100 CDs M2F reais, ou seja, que já foram vistas en femme.

Pois dê uma olhada no site. E logo verá que não se trata de um site pornô nem de ponto de encontros. O que o senhor também parece não saber é que existem distinções entre gênero - o sexo com o qual nos identificamos - e preferência sexual. Eu, por exemplo, considero-me do sexo masculino, gênero feminino e heterossexual (não tenho nenhum interesse por homens). Com relação à orientação sexual, se não me engano, aproximadamente 40% das nossas CDs se dizem hetero, 40% se dizem bissexuais e 20% se dizem homo. Interessante é que, diferentemente dos gays afeminados, que se montam para procurar homens, com as CDs bi e homo a coisa se processa justamente ao inverso: o prazer e a alegria estão em se sentir mulher, vestidas como tal. O homem é uma conseqüência que pode acontecer ou não. Ou seja, o homem é apenas um objeto de confirmação de sua condição feminina, não o objeto primário da satisfação. Se colocadas a escolher entre ficar montada sem homem ou desmontada ao lado de um homem, garanto que a 1ª resposta seria unânime entre verdadeiras CDs.

Em nosso clube, não discriminamos ninguém e a vida sexual é privacidade de cada uma.

Bem! E nem falamos sobre CDs heterossexuais. Euzinha, por exemplo, não vejo a menor graça em homens. São feios demais, agressivos, prepotentes, grosseiros e desprovidos de sensibilidade (a maioria). Mas respeito as que gostam e não digo "desta água não beberei". No futuro, posso me interessar, quem sabe? Ser tratada como mulher por um homem é algo muito marcante para uma CD.

Certa de que tomará esta mensagem como contribuição para melhor entendimento de nossa condição, espero ter ajudado o senhor nos meandros do mundo transgênero. A diferença básica entre nós e as Drag-Queens é que aquelas se montam para aparecer, e para se destacar como artistas no palco. Ao contrário, o sonho de toda CD é "passar batida', ou seja, caminhar na multidão como se fosse mulher, sem ser descoberta.

Por favor, não denigra nossa imagem com conceitos (ou preconceitos) construídos sem embasamento.

Atenciosamente,

Vera Jardim

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