
OUTUBRO/2004
TRAVESTI É CANDIDATA A VICE-PREFEITA
Colaboração de Diana Maria Casadana - 03/10/2004
Com mais chances de se
eleger está José Nogueira Tapety Sobrinho (PPS), vereador de
Colônia do Piauí (PI). Se bem que se a candidatura de Tapety fosse registrada e
divulgada assim, ninguém da cidade saberia que quem está se candidatando é
Kátia Tapety, nome do travesti que já está no seu terceiro
mandato como vereador e já foi até presidente da Câmara Municipal.
Vivendo numa cidade de apenas 7 mil habitantes, encravada no sertão do Piauí, a 350 quilômetros ao Sul de Teresina, Kátia é uma espécie de “faz tudo” na cidade. Atua como vereadora, parteira, líder comunitário e agente de saúde. Sua linha política, entretanto, está mais voltada para o assistencialismo do que para a defesa dos direitos humanos para os homossexuais. Em 12 anos como vereadora, ela nunca apresentou nenhum projeto relacionado ao assunto.
“Nunca mexi com isso, aqui é cidade do interior com outros problemas, ninguém se interesse por isso. Fora eu, não tem mais ninguém assim”, justifica Kátia, que sonha, entretanto, em ter sua união marital legalizada. Ela vive com o companheiro e duas crianças, uma adotiva e outra de um relacionamento anterior ao atual “marido”.
Filha de uma família de políticos - ela é prima do ex-deputado federal Tapety Junior e dos estaduais Juarez e Mauro Tapety -, Kátia mantém firme o projeto de se tornar o primeiro prefeito travesti do País. Até os 16 anos, ela viveu praticamente escondida dentro de casa. “Fui para a escola só até a terceira série, depois meus pais não me deixaram mais sair de casa”, conta. Segundo ela, os pais tinham medo dela “brilhar” fora de casa.
“Tem que ser é muito macho para sair às ruas e se assumir”, afirma a candidata. "Sou feliz assim e todos me respeitam", enfatiza Kátia, que trocou o PFL, pelo qual se elegeu nas três eleições que disputou, pelo PPS, do ministro Ciro Gomes, seu ídolo político. “O meu sonho é conhecer o Ciro pessoalmente”, afirma. “Preciso tanto do apoio dele. Ele podia pelo menos ligar para mim, estou precisando de material de campanha, de camiseta.
TRAVESTI É ELEITA VICE-PREFEITA
Por Paula Andrews - 04/10/2004
Essa é de fato uma notícia das mais legais.
Acabei de verificar os resultados eleitorais e de fato, a candidata Lucia de Moura Sá que tinha como companheira de chapa a travesti Katia Tapety, foi eleita prefeita na cidade de Colônia do Piaui (PI) - cidade com 5.417 eleitores - com 62,13% dos votos.
O fato é extraordinário, abre espaço para novas e futuras conquistas sociais e de cidadania dos transgêneros. Mostra que é possível sim ser transgênero, exercer seu direito de sê-lo e ter uma vida digna, afastada dos estereótipos.
Mostra também que em nossas grandes e cosmopolitas cidades talvez haja mais preconceito que nos chamados grotões do país. Mostra mais; que não é improvável que o preconceito grasse muito mais no seio das intolerantes e falsamente moralistas classes média e alta que nos meios pobres de nossa sociedade aonde a tolerância moral parece ser muito maior e a hipocrisia menor.
É realmente uma grande notícia. Não fosse o Piauí tão fora-de-mão deveríamos ir lá manifestar nosso contentamento. Como é meio longinho, vamos pelo menos, acompanhar nossa companheira Katia e ver como avançam os acontecimentos. Tivéssemos um jeito de contatá-la creio que deveriamos manifestar-lhe nossa alegria e apoio. Tenho certeza que ela sentir-se-ia fortalecida ao saber que tantas outras acompanham-na e sabem de seu feito.
TRAVESTI É VICE-PREFEITA DE COLÔNIA DO PIAUÍ
Por Orlando Berti - Especial para o Terra - De Teresina - 04/10/2004 - colaboração de Mirian Rose de Lima.
O funcionário público José Nogueira Tapety Sobrinho, 49 anos, é o primeiro vice-prefeito travesti do País. Mais conhecido por Kátia Tapety, ela ocupará o cargo na cidade de Colônia do Piauí, a 388 quilômetros ao sul de Teresina.
Das quatro eleições municipais já ocorridas em Colônia, todas foram disputadas por Kátia, que conseguiu vencer as quatro eleições com cargo para a Câmara dos Vereadores. O grupo político de Kátia tem apoio de diversos grupos da cidade, inclusive de membros de igrejas evangélicas.
Desde o início da manhã desta segunda-feira, Kátia já estava trabalhando. "Agora passou eleição e a festa. Agora é trabalhar e lutar pelo povo", disse. Em Colônia do Piauí, Kátia é, oficialmente, funcionária pública da área de saúde, mas também trabalha, às vezes, de parteira, assistente social, psicóloga, advogada, motorista e vaqueira.
Por Débora Luisa Carvalho
A notícia da eleição da vice-prefeita travesti é mesmo muito boa. Vai levar uns vários anos ainda, mas um dia estas questões de trangenia x moralismo não serão mais relevantes. Quem sabe caminhamos para um pensamento onde, como disse uma cineasta premiada em Veneza, questões humanitárias não sejam mais consideradas dos pontos de vista da política, religião, ..., da natureza biológica, ... Mas do ponto de vista humano mesmo: as pessoas e sua felicidade, sem egoísmos de imposição ou valores de certo e errado apriorísticos; sem importar o que pensam os 'outros', até porque os para 'outros' as decisões caberão naturalmente à adequação de cada uma pessoa a decisões de felicidade. Sem nichos, sem redutos, sem esconderijos. Liberdade e decisões pessoais serão um dia a norma.
Até lá, temos que nos esconder. Se que possamos esquecer que entre o anômalo, o estranho inaceitável, estamos em posição de destaque numa sociedade de valores ainda muito arcaicos.
Também não podemos nos esquecer, nem podem 'nossas representações' políticas, que liberdade para comportamento de sexo e gênero estão vinculados com políticas públicas de educação, saúde, direitos humanos, dignidade do homem possuidor de direitos. Não nos convençamos que sejam questões separadas nem que nosso poder de consumo seja nossa garantia de liberdade. Que tenham seus direitos todas nós, pobres ou ricas, agrademos ou não os economistas, estejamos na moda ou não: não porque somos consumidoras, como escravos libertos para um liberalismo faminto e carente de demanda, mas porque temos esse direito: ao respeito, à decisão, à isonomia e a comunhão com todas as comunidades.
Um dia... Falta muito. Mas sem dúvida, esta é uma grande notícia.
TRAVESTIS DISCUTEM FORMAS DE ENFRENTAR O PRECONCEITO
Por Silvia Noronha - Correio da Bahia - 01/04/2004
Na lista de chamada, o nome é de menino. Mas, na sala de aula, quem diz "presente" veste-se e comporta-se como uma menina. Os colegas logo começam a fazer piadinhas. Mas, para os travestis e transexuais, situações como essa provocam um profundo constrangimento. "É muito grande o número de travestis que abandonam a escola por causa do preconceito dos colegas e professores", diz Keila Simpson, presidente da Associação de Travestis de Salvador. O assunto está sendo discutido no I Treinamento Nacional do Projeto Tulipa, que visa capacitar transexuais e travestis sobre direitos humanos e Aids. O encontro continua até sábado no Hotel Vila Velha, na Vitória.
Segundo Keila, a escola oferece muitos outros momentos embaraçosos para os transgêneros - classificação geral para quem adota uma identificação de gênero diferente das convencionais. "São várias dúvidas. Por exemplo, a travesti deve usar o banheiro masculino ou feminino? Deve fazer a aula de educação física na turma das meninas ou dos meninos?", exemplifica. Nos dois casos, a recomendação é de que a pessoa seja incluída no gênero que adotou. Por exemplo, se alguém biologicamente do sexo masculino adotou uma identidade feminina, o mais apropriado seria incluí-la nos grupos de meninas.
Essa orientação faz parte de uma cartilha para educadores formulada pelos próprios transgêneros. O material integra uma campanha mais ampla, criada juntamente com o Ministério da Saúde e divulgada em janeiro. "É um marco do nosso movimento porque foi a primeira campanha formulada especialmente para travestis, apresentada por nós no Congresso Nacional", destaca Keila Simpson. Nessa campanha, foi produzida ainda uma outra cartilha, voltada para os profissionais de saúde. Isso porque, na hora de procurar atendimento médico, os transgêneros também enfrentam preconceitos.
"Os travestis não procuram os postos de saúde, porque é muito constrangedor. Você mostra o documento para a atendente e pede para ela colocar o nome feminino no prontuário, mas não adianta. Ela chama você pelo nome masculino na frente de todo mundo", diz Keila. Além disso, ela diz que os próprios médicos, muitas vezes, recusam-se a tratar de travestis que tiveram problemas de saúde provocados pelo silicone injetado de forma clandestina.
Marginalização - Os problemas dos travestis continuam na hora de procurar trabalho. "Se não for em salão de beleza, clínica de beleza ou corte e costura, a travesti não consegue trabalho em lugar nenhum", aponta Marcela Prado, presidente da Associação Nacional de Travestis (Antra), que também participa do encontro. Com baixa escolaridade, poucas oportunidades e, na maioria das vezes, sem nenhum apoio da família, muitos travestis acabam entrando na prostituição. Quando isso acontece, eles tornam-se alvo da violência dos clientes e, principalmente, dos policiais. Marcela Prado observa que, desde a ditadura militar, criou-se uma cultura de violência contra travestis, que subsiste até hoje.
Por isso, a principal luta dos travestis, hoje, é pelos seus direitos. Depois de conseguir difundir o uso de preservativos, com o apoio do Ministério da Saúde, as entidades dos transgêneros agora querem o envolvimento de outros ministérios, como o da Educação e o da Justiça.