DEPOIMENTOS - ESPAÇO TRANSEXUAL

MOVIMENTO DE REVOLTA

Por Kate Emerly Hotaru - 13/03/2005

Gente! Tem tanta coisa que me chateia nesse mundo!

O mais triste de ser TS é o fato de saber que mesmo não sendo a única em São Paulo, ou até mesmo no Brasil, não existe nenhuma outra com quem se possa contar.

Faço parte do BCC, um clube com fórum mantido no Yahoo Grupos. É um grupo majoritariamente de Crossdressers, um ótimo grupo, cheio de pessoas interessantes. Nesse grupo, em muitas das associadas existe o receio de ser "descoberta", o medo de não passar, enfim, o medo, o medo, o medo e o receio além do medo... Entendo perfeitamente o medo e a necessidade de privacidade das associadas do clube.

E quanto a nós, as transexuais?

Existem três grandes grupos de TS (que conheço) também no Yahoo Grupos, dos quais faço parte de um e fui "retirada" de outro sem a possibilidade de voltar, porque não era "ativa" o suficiente. Também pudera, não conhecia ninguém a não ser uma associada. Para que escrever no fórum deles se não conhecia ninguém? E um encontro nunca foi marcado?

O mais triste de tudo isso é que todas nós buscamos amizades, mas ficamos impossibilitadas de conhecer outras pessoas como nós simplesmente porque existe o medo, o receio, o preconceito, a sociedade e a homofobia.

Eu ainda acredito que a principal função dos clubes de TS (assim como faz o BCC com as associadas Reais, preservando a identidade das mesmas) seria a de facilitar o entrosamento entre pessoas nas mesmas circunstâncias, e com os mesmos desejos, e não para escondê-las atrás de um teclado.

Ora bolas! Está na hora de aceitarmos o fato de que definitivamente somos TS, operadas ou não. Todas nós queremos viver 24 horas do dia como mulher e assim conseguir a aceitação da nossa presença na sociedade. Sem a exposição ao mundo nunca conseguiremos nosso intento de aceitação pública. Se ficarmos escondidas atrás do teclado de um computador, com medo da exposição ao público, viveremos o resto de nossas vidas num mundo do faz de conta.

Quanto menor for o contato com a sociedade, em nossa forma feminina, mais difícil para nós será ser o que queremos ser.

No meu ponto de vista, todo esforço de reconhecimento pela sociedade deve partir de nós. A única maneira de "quebrarmos o gelo" seria saindo na rua em "bandos" e aos poucos nos acostumarmos a viver como mulher e fazer com as demais pessoas se acostumem também. Somente o dia a dia vai dizer das dificuldades que esse mundo vai nos proporcionar, para aos poucos largarmos os grupos e vivermos vidas independentes. A função dos clubes seria justamente a de nos organizarmos com finalidade de conseguir da sociedade a nossa aceitação. Já chega de viver no mundo da Barbie.

A sociedade ainda tem a idéia distorcida de que somos "bandidas", "assassinas", "estupradoras", "anticristo" e tudo mais o que for de ruim, porque, além da sociedade ser machista, ninguém tem coragem de sair na rua e falar "EU SOU TRANSEXUAL, VIVO COM DIGNIDADE, TRABALHO, GANHO DINHEIRO E SOU RESPEITADA COMO QUALQUER OUTRA MULHER".

As TS são preconceituosas com elas mesmas. Conheço gente que fala: "não gosto que me chamem de transexual; sou mulher e ponto final!". E outras dizem assim: "eu sou mulher: não gosto e não quero um namorado gay".

Para aquelas que desprezam um “namorado gay”, vejamos um exemplo. Imagine-se passando incontestavelmente como mulher e, assim, consiga um namorado que seja preconceituoso e homofóbico. Imagine-se, então, na situação de algum dia, ser obrigada contar a ele que você nasceu homem (pelo menos fisicamente) e por isso a legislação não permite que possa casar com ele. Imagine agora quantos tapas, socos e pontapés você vai levar ou até mesmo quantas facadas e tiros você vai tomar por ter escondido dele a verdade...

O preconceito entre TS é tão grande que, por mais incrível que pareça, entre elas, se autodenominam em "hormonizadas", "pré-operadas" e “pós-operadas". E por algum motivo, as que fizeram a operação (SRS) se acham superiores as que não fizeram... E por ai vai, é preconceito atrás de preconceito. E o "status" de ser operada sobe à cabeça de algumas...

Viver como mulher é tão chato, perigoso e tedioso quanto viver como homem, ambos os sexos tem vantagens e desvantagens. Cabe a nós aprendermos a viver como mulher.

Se for pra ficar atrás do teclado, usando uma cueca samba canção, coçando o saco, limpando o nariz, assistindo um jogo de futebol, tomando cerveja e usando um chat qualquer com o nome de "Dani quer dar", fique sabendo que isso esta MUITO longe de ser mulher...

E aí? Quando vamos ter coragem de marcar encontros para descobrirmos que o mundo existe e que precisamos do "suporte" de outras para vivermos melhor?

Atualizada em 03/04/2005