DEPOIMENTOS - ESPAÇO CROSSDRESSER
PRÓXIMO À PAULISTA HAVIA UM PORTAL, DO OUTRO LADO...
Por DEBORA LUISA CARVALHO - 26 de maio de 2004
Enquanto trabalho, espio de vez em quando a caixa de mensagens do fórum e... nada. Nada entre as 20 e 30h! Será que fui excluída?! Também, que ingratidão a minha em tornar-se real e deixar de narrar os fatos – animadíssima! – para todas vocês, minhas amigas de BCC?!
Bem que merecia um puxãozinho de orelha, né meninas, mas de toda forma perdoem-me a falta de tempo. Tentarei descrever brevemente o mais importante e o mais emocionante daquele dia.
Foi numa quarta-feira. Fez muito frio à noite e decidi tirar a tarde de folga para estar calma, afinal seria uma data importante. Mesmo assim, não me sentia nervosa, talvez apenas ansiosa, curiosa e indecisa – acho que receava pelo que poderia representar dar este passo. O receio não era por tornar-se real, mas o que viria daí para frente. Como não pensava em nada, só sentia aquele leve friozinho no ventre, arrumei tudo na mochila e depois acabei cochilando.
Acordei atrasada e saí correndo. A Cris estaria no Flat dela e eu deveria chegar à tarde.
Mas antes da Cris tinha planejado fazer comprinhas e, assim, primeira parada: Houpahrara. Fiquei encantadíssima! Coisinhas lindas, um montão de coisinhas lindas... entrei no vestiário e fui provando os vestidos – não sem antes deixar a meia-calça à mostra nas pernas, já tinha saído vestida, passar um batonzinho básico, saltinho e brincos. Saí de lá, sapo, com um grande desfalque no banco, mas muito satisfeita. Adriana, a vendedora, é muito simpática – e a Cléo também – e nos adoram, principalmente a Bruna, que foi super elogiada por ela! Disse ainda que ela sempre vai lá toda ‘paty’ e adora vestir-se de rosa; beijão Bruna, acho que eu vou gostar muito de te conhecer, um dia. Então uma surpresa, a Silvia Kioto apareceu – apareceu não, surgiu! Porque depois de apenas vinte minutinhos no provador, onde entrara um japonês, saiu uma bela japonesa prontinha para a night –, montou-se e foi dar uma voltinha pela cidade. Infelizmente não pude ir junto, fica pra próxima, tá bom Sílvia?! Beijo pra você.
Ah, esqueci de comentar, quando desci do ônibus, indo para a Roupahrara, uma loura muito bonita de meia idade, de quem havia segurado uma sacolinha, ficou me olhando... Pensei: augusta..., à noite..., minha aparência de evidente anseio e excitação..., será que ela desconfia qualquer coisa? Pensei, mais ou menos, foi um lapso. O interessante é a sensação mista de orgulho, coragem, medinho e prazer que aquilo me deu. Afinal seria, e foi, a primeira vez que experimentaria a magia da produção feminina em público; ali na Roupahrara.
Então tomei um ônibus para a Paulista de novo. Havia ligado para a Cris e teríamos uma rodada de pizza se eu chegasse logo. Não cheguei!
Engraçado... Cris, Ella, Vera, Suzy, Bárbara, Jorgete, ..., são nomes tão comuns à gente, que traz guardado no coração com carinho o BCC, mas conhecê-las pessoalmente!? Quem são essas pessoas, outras CDs, de carne e osso?! Será que eu me decepcionaria ao vê-las? Será mesmo que são de verdade?! Quero dizer, o ambiente seria parecido com esse do fórum: todo o apoio partilhado, a beleza pessoal de caráter ...como seria? Acima de tudo, seriam pessoal normais?
Não, normais não são: elas tem, nós temos, um desvio especial para a liberdade, para o respeito aos próprios desejos e dos semelhantes – toda a espécie humana – de serem felizes ao seu modo. Normais não, algo em nós é melhor que na enorme maioria das pessoas.