ESPAÇO SUPPORTIVE OPPOSITE

CROSSDRESSERS, SUAS ESPOSAS E SEUS PROBLEMAS

Amy Bloom(*)

Que sedução uma túnica de seda GG e mules bordados podem exercer sobre um homem... ao ponto dele próprio desejar ardentemente usá-las? Os crossdressers estão expressando um lado feminino reprimido, ou simplesmente chutando pro alto a separação do seu guarda-roupa com o da suas mulheres?

Os crossdressers heterossexuais são um incômodo pra quase todo mundo. Os gays os vêem com desdém ou sutil reprovação. As transsexuais consideram-nos como homens “estacionados” no crossdressing por não terem coragem de avançar no caminho da mudança de sexo. Muita gente os vê como “homossexuais no armário”, tão homofóbicos que preferem usar um vestido a encarar o seu desejo por outro homem. Outros homens heterossexuais tendem a vê-los como divertidos, tristes, ou doentes. O pequeno grupo que aceita esses bondosos e simpáticos crossdressers e em quem eles podem confiar o segredo das suas vidas é constituído basicamente por esposas e namoradas (naturalmente as que não caem fora ou se divorciam antes ou torcem o nariz só de pensar em ver seus homens vestidos de mulheres), e ainda, cabeleireiros, vendedoras de lojas, fotógrafos, maquiadores, depiladores, terapeutas e uns pouquíssimos amigos.

Drag queens (homossexuais crossdressers) já fazem sentido para a maioria das pessoas. Há uma congruência de orientação sexual, aparência e temperamento: homens gays afeminados vestindo-se de mulher para uma carreira artística, como RuPaul, ou como prostitutas, ou para expressar seu senso teatral da feminilidade.

Atores que ficaram muito conhecidos por desempenhar papel de mulheres também não causam espanto em ninguém, como Dustin Hoffman em Tootsie, Robin Williams como a Senhora Doubtfire em Uma Babá Quase Perfeita e Tony Curtis e Jack Lemmon em Quanto Mais Quente Melhor. Eles são homens representando, fazendo o que eles normalmente fazem para ganhar a vida, sem colocar em cheque a auto-estima masculina. Nem mesmo as mulheres que se passaram por homens ao longo da história, de Joana D’Arc à personagem Mulan do filme de Disney, nos causam embaraço. Elas escolheram viver como homens porque era a única forma de levar adiante os planos de vida que tinham em mente.

Muitos crossdressers heterossexuais jamais saíram do armário, nem mesmo para suas esposas; eles passam a vida inteira se vestindo em segredo, comprando roupa feminina tamanho GG por catálogos ou pela internet. Outros contam às esposas depois de 10, 20, 30 anos de casado, algumas vezes porque foram apanhados usando as roupas delas, outras vezes porque elas descobrem “roupas femininas” em seus armários (a revelação de que ele próprio é a “outra mulher” é um caso muito comum nas histórias de crossdressers, e embora os maridos digam que suas mulheres ficam aliviadas com a revelação, para mim não está claro se esse alívio é por mais do que um minuto...). No segundo casamento, as mulheres ficam sabendo mais cedo e, como em geral acontece com todos os demais assuntos, no terceiro casamento é tudo dito claramente antes que o nó seja dado.

Mas muitos desses homens não querem manter o seu crossdressing confinado às quatro paredes do seu quarto. Querem sair para algum lugar, movidos pela solidão, por necessidades narcisistas insatisfeitas (todo montado e sem lugar aonde ir) ou por impulsos de assumir riscos. Um homem que se monta como mulher e deseja ser visto montado assim pode ir a conferências ou fazer um cruzeiro a bordo do The Holiday, um navio oferecendo uma viagem de quatro dias para Catalina, partindo de Los Angeles, recebendo alegremente 25 crossdressers e suas esposas entre outros 1.000 passageiros.

Algumas vezes as mulheres desejam acompanhar seus maridos, para lhes dar suporte e também desfrutar da viagem, ou para se reunir com outras esposas, como as “viúvas” do golfe ou nos Alcoólicos Anônimos. Algumas vêm porque seus maridos realmente precisam delas. “Eu não me importo, mas realmente, se ele pudesse aprender a fazer sua maquiagem de maneira adequada e fechar seu soutien, eu preferiria ficar em casa”, uma mulher me disse.

Eu estou na fila, pronta para embarcar no The Holiday e minhas antenas estão ligadas. Eu examino a multidão em busca de crossdressers, mas não há nenhum à vista. Ao me dirigir para o meu pequeno aposento no deck B, eu imagino o que devo usar para o jantar e para o coquetel de abertura na suíte do meu casal de contato, Mel e Peggy Rudd, ambos louros, tipos texanos pesadões na casa dos sessenta. Peggy já escreveu diversos livros sobre crossdressing, o mais conhecido dos quais é Meu Marido Usa Minhas Roupas, e também foi diretora do SPICE (Spouses’ and Partners’ International Conference for Education – Conferência Internacional para a Educação de Esposas e Companheiras), um seminário anual para esposas de “homens heterossexuais com uma dimensão feminina adicional”.

Finalmente, eu decidi que calças de seda, blusinha e sandálias estavam adequadas para comparecer ao jantar dos meus anfitriões. Quando eu cheguei na pequena festa, os Rudds me abraçaram e me introduziram a todos os demais presentes como sendo “Amy, a escritora”. Alguns homens se esquivaram um pouco, embora os Rudds tivessem dito a todos que eu era esperada. Tory, um homem jovem de ótima aparência do México, apertou minha mão: “Olá, Amy”. Sua tia e seu primo e sua namorada, Cory, o acompanham nesta viagem, que é a primeira vez que ele aparece montada em público. Cumprimentei a todos os demais homens e suas esposas.

Os homens – que eu tratarei a quem eu vou me referir como “ela” quando estiverem montados - não são drag queens, nem atores, nem transformistas de Las Vegas. Eles são mais do tipo da senhora Attanas, minha formidável professora da quarta-série, uma mulher alta e grande, com um peito parecendo um travesseiro, pernas grossas, cabelos pintados, coração sensível e uma camada de rouge em cada uma das faces.

Eu encontro Steve e Sue, um alegre casal, casados há muito tempo, que de tão parecidos não dá para distinguir se ele está montado ou não. Eu encontro Harry, que está sempre de alguma forma “montado” (jeans femininos, tênis femininos); sua aparência é de um homem afeminado; ele está tão à vontade com seus modos femininos que não se importa nem um pouco em se apresentar com um nome feminino, como em geral acontece com os demais. Eu teria pensado que desse jeito seria mais fácil para sua esposa, mas não era. “Eu o amo”, ela me disse mais tarde. “Eu o amo, mas eu não quero um homem que está excitado pela idéia de ser uma mulher. Nós temos dois filhos, ele é um grande pai, um bom provedor, mas eu quero um homem que se sinta confortável com a sua masculinidade. Eu não quero que sejamos irmãs… ou lésbicas. Se eu quisesse uma mulher, já teria encontrado uma. Mas… há todas as outras coisas que são boas.”E Harry me diz mais tarde, com grande tristeza, “ela é a pessoa que mais me apóia e sustenta neste mundo, e isto é uma coisa terrível para ela. A gente tem trabalhado nisso, a gente se esforça.”

No jantar, eu me assentei na mesa ancorada por Peggy e Melanie (como Mel atende quando está em femme). À minha direita, a tia de Tory e o primo dele, e próximo a eles, Lori, uma mulher muito atraente, parecida com a atriz Lee Remick. À minha esquerda estão Felicity e sua mulher. Felicity é um homem grande, de ombros recurvados, com um jeito convencional, levemente caipira. Ele me lembra uma bibliotecária, ou talvez a esposa decidida de um Pastor, e ele é, para o resto do mundo, exatamente um pastor batista do cinturão bíblico do sul.

À minha frente, está um homem perto dos setenta, recentemente aposentado numa tradicional firma de advocacia do sul. Ele está em excelente forma. Parecida com uma clássica dama de anúncio de chá, muito bem acomodada no seu chanel. A princípio eu pensei que esse look de matrona, bastante comum em crossdressers heterossexuais, refletia alguma estranha fixação na figura da mãe – devido ao uso de máscara, sombra azul, grandes brincos de pérola. Eu não penso mais assim. Este mesmo look é comum entre esposas e entre milhões de mulheres de meia idade que não se interessam em acompanhar mudanças na moda.

A maioria dos crossdressers, e quase todos os crossdressers casados, vivem vidas em que eles não se apresentam en femme a maior parte do tempo. Não tomam hormônios femininos, não fazem eletrólise, mesmo se eles desejassem fazer, e não são leitores regulares de Elle ou Vogue. Eles não conseguem produzir facilmente uma aparência feminina natural, crível e passável.

Primeiro, você tem que usar uma base para esconder todos os vestígios de barba. Depois aplicar pó, novamente uma base, e outra camada de pó, e suar é um grande problema. Uma face muito pronunciada requer uma maquiagem também muito pronunciada para manter o equilíbrio, e depois dos cílios postiços e mesmo depois do mais sutil contorno da mandíbula larga, da sobrancelha densa, alguém pode parecer lindo ou ridículo, mas não pode parecer com a maioria das mulheres por aí.

A idade é uma grande aliada dos crossdressers. Ela é, para todos nós, uma grande androginizadora. A pele amacia e cai, as características sexuais secundárias encolhem e desvanecem. Eu tenho visto crossdressers muito mais convincentes acima dos 60 anos do que abaixo. Não é surpresa, dessa forma, que o tempo que muitos crossdressers passam en femme triplica depois que eles se aposentam.

Ninguém parece ter nenhuma estatística confiável a respeito de quantos crossdressers heterossexuais existem na realidade. “Muitos rapazes no armário”, disse-me uma porta-voz da International Foundation for Gender Education (Fundação Internacional para Educação de Gênero) em Massachusetts. Jane Ellen Fairfax, da Tri-Ess, the Society for the Second Self "um grupo orientado para o suporte às famílias de crossdressers heterossexuais”, arrisca um número de “talvez 3 ou 4 milhões, entre 3% e 5% da população. Eu penso que seja uma minoria gente que diz que é mais, talvez desejando que o número seja maior do que realmente é. E gente que diz que é menos, algo como 1% ou 2%, eu acho que esses são aqueles que se sentem envergonhados". Ray Blanchard, chefe da clinica de sexologia do Centro Canadense para o Vício e Saúde Mental (Centre for Addiction and Mental Health), e que estuda sexualidade humana por mais de 30 anos, também acredita em um número entre 3 a 5% da população.

Há somente dois pontos realmente em comum entre Blanchard e Fairfax: que ninguém sabe ao certo quantos crossdressers heterossexuais existem na população e que todos esses homens em roupas femininas que afirmam serem heteros, são verdadeiramente heteros. Eles podem não ser heteros exatamente da mesma maneira que os homens não-crossdressers são – a maioria dos homens heterossexuais não olha para uma mulher atraente e pensa: “eu gostaria de fazer sexo com ela, eu gostaria de usar o vestido dela, eu gostaria que homens e mulheres olhassem para mim do mesmo jeito que olham para ela" – mas que eles são heteros, são.

A Tri-Ess foi fundada em 1976 e é agora a maior organização para crossdressers heterossexuais e suas companheiras, que elas chamam de esposas, e embora não haja qualquer objeção que uma crossdresser feminina e seu marido se associem ao grupo, até hoje não apareceu nenhum pedido de inscrição. Muitos crossdressers, entretanto, reafirmam o foco do Tri-Ess nos “valores da familia” e na heterossexualidade. The Tennessee Vals, por exemplo, dará boas vindas a você se “você se considerar um crossdresser, transsexual ou qualquer outro tipo de gênero divergente... seja gay ou hetero, bissexual ou assexual".

Está havendo na atualidade um movimento convergente no sentido de abrigar todas as tendências e modalidades de crossdressers, e muitos grupos não compartilham da visão exclusivista da filosofia do Tri-Ess.

Jane Ellen e Mary Frances Fairfax moram no Texas, onde Jane Ellen é Chet, médico e pai de três rapazes. Quando ele está montado, apresenta uma conduta franca e amável, derivada dos seus modos sulistas, mais enfática quando ele está de “sapo”, mas ele é sempre espirituoso, sempre tenaz e inabalável na sua auto-estima e nas suas crenças, as quais incluem freqüência regular aos serviços religiosos e a plataforma do Partido Republicano. Ele vê o crossdressing como muito mais do que um hobby e algo muito distante do que se poderia chamar de um “problema”. Ele insiste que o uso de roupas femininas é tanto relaxante e expressivo do eu feminino quanto é nutritivo e gentil, capaz de melhorar e intensificar qualquer casamento se a mulher é sábia o suficiente para apreciar e forte o suficiente para cultivar o que pode ser, como Jane Ellen admite, um hábito narcisista e auto-indulgente.

As palavras que Blanchard usa quando fala sobre crossdressing - "fetiche", "escala contínua de disforia de gênero", "auto-absorção erótica” e “autoginefilia” – são palavras que os Fairfaxes não querem nem ouvir dizer. Eles ficam chateados de ver o crossdressing associado exclusivamente ao sexo, e tentam afastar essa associação para o mais longe possível. Quando você diz "crossdresser", Jane Ellen e Mary Frances querem que você pense apenas em um rapaz relaxando dentro de um vestido. "Naturalmente não é relaxante", afirma Blanchard, com bastante ênfase. "Salto alto, maquiagem, peruca e espartilho? É irracional. Nem as mulheres acham isso relaxante. Relaxante é uma calça de moleton, roupa que não faz a gente se sentir vestido. Já houve gente me dizendo ‘você sabe, eu aposto que se não fosse pelo estereótipo feminino essas pessoas jamais escolheriam usar um vestido.' Eu digo que não faz sentido (dizer que é relaxante). O crossdressing é uma tentativa de resolver um conflito interno, e um conflito que não está relacionado a tecidos. Se os tecidos fossem idênticos para homens e mulheres no dia a dia, exceto o fato dos homens usarem camisas com quatro botões e as mulheres camisas com cinco botões, os crossdressers desejariam acima de tudo ter a camisa com cinco. Nós não sabemos porque."

Crossdressers heterossexuais estão desproporcionalmente representados pelo segmento de militares aposentados; eles são freqüentemente filhos primogênitos, e quase sempre portadores de traços fortemente masculinos, o que faz a gente conflitar tanto com a aparência deles. Blanchard diz, "Todos esses homens vão lhe dizer, 'eu tive que reprimir a minha feminilidade. Eu me tornei um policial, um bombeiro, um faixa preta de Karatê, um operário da construção civil, a fim de compensar, a fim de recalcar esses temores e para esconder a minha verdadeira natureza.’" Blanchard pensa que o que eles temem é realmente o ridículo e a exposição – não a sua própria feminilidade mas o seu próprio desejo de crossdressing. Eles querem acreditar que o uso de roupas femininas expressa sua feminilidade em vez de ser uma compulsão erótica. "Estes são caras machos, para a maioria das coisas. Não há contradição entre 'eu me sentir como uma mulher' e 'eu dirigir um tanque ou voar em combate'. A contradição é entre essas atividades e 'eu ser a pessoa tão feminina que eu sempre fui'". Este é o único mundo que eu conheço onde homens hetero argumentam que eles são mais femininos do que eles aparentam ser, e suas críticas e julgamentos argumentam que eles são menos.

É noite de “Talentos Ocultos” a bordo do The Holiday, e eu estou jantando com os Rudds numa mesa em frente ao palco. Felicity e Merrie, um cara grande e doce que é professor de engenharia, toma a cena dominando a conversa. Tem um monte de coisas que ambos desejam me fazer entender, e eles estão gratos pela minha atenção. Eu vim descobrir porque tantas mulheres são simpáticas aos crossdressers: mulheres são criadas para se compadecer e proteger os mais vulneráveis, e há algo atraente, inesperado e forte em ser mulher e simpatizar com um homem não porque ele demande isso de você ou porque você tenha que lhe oferecer isso, mas porque você se sente genuinamente solidária com ele, por sua inveja e seu estado de espírito fraco e ansioso relativamente à sua própria condição de mulher.

Peggy Rudd, a chefe e a modelo para as esposas diz, "meu próximo livro é sobre a alegria. A diferença entre o nível de alegria que os crossdressers experienciam" – ela levanta a mão acima cabeça - "e o nível de alegria que suas esposas experienciam." Sua mão vem pra baixo da cintura. Os crossdressers ao nosso redor não dizem nada. Balançam a cabeça, jubilosos astronautas compadecendo-se de suas pobres mulheres deixadas para trás e tentando não mostrar o quanto de satisfação que eles estão tendo. Peggy vira-se para Lori. "Você é especial," ela diz, como ela faz todas as noites. "Você é a mais linda crossdresser que eu já vi. Todo mundo quer se sentar ao seu lado, você é muito linda."

Lori é uma transsexual masculina em fase preoperativa, acompanhada de um dos seus melhores amigos, um crossdresser cuja esposa não chegou a tempo. A insinuação do elogio de Peggy é claro: sua performance como mulher é muito boa. Eu não acho que Peggy deseja ofender; ela não pode se conter. Transsexuais deixam os crossdressers nervosos: talvez haja um continuum, talvez os crossdressers apenas sintam de uma maneira mais branda o que os transsexuais sentem com tanta intensidade, e talvez esses sentimentos possam se tornar exageradamente poderosos se não forem subjugados e controlados pelas esposas e filhos e pelas diretrizes conjugais do Tri-Ess.

Depois do jantar, fomos para o teatro assistir o show de talentos. É uma noite muito agradável, começando com um sujeito baixinho, com aparência de Groucho Marx, que se aproxima de nós por trás murmurando “vocês senhoras estão maravilhosas essa noite”. O show é aberto com dois casais do Japão dançando rumba. Depois, um israelita tocando um tambor artesanal com a boca, um contador cantando super mal um hit dos anos sessenta e uma mulher perto dos 70 cantando e apertando a mão do mestre de cerimônias sem parar.

A próxima atração é alguém do nosso grupo. Eu notei Ted na primeira noite, um sujeito louro, baixinho e elegantemente vestido num smoking preto. Diferentemente dos demais crossdressers, ele vem jantar todas as noites em “black-tie drag”: requintadas perucas bufantes, maquiagem perfeita, salto 8 cm e vestidos colantes, mostrando os contornos perfeitos do seu busto e quadris artificialmente montados. Sua mulher sempre se veste de maneira simples e confortável exceto numa noite em que ele veio de smoking e ela em um dos vestidos dele. A performance de Ted é Marilyn Monroe cantando Os Diamantes São os Melhores Amigos de Uma Garota. Ted pede a mão do mestre de cerimônia e ele se afasta, fingindo horror. A audiência ri, mas eles estão confusos. Não está inteiramente claro para eles que Ted é um homem – talvez o apresentador tenha afastado sua mão porque ela é uma femme fatale? – mas é óbvio que esta é uma pessoa que violou as regras desse programa de pequenos talentos ocultos “domésticos”. O talento de Ted é um talento modesto, mas sua produção, da peruca ao batom, são superiores; muito superior para esta platéia. Ted flerta com o apresentador, mas ele não responde e permanece de cara amarrada. Eu não sei dizer se a hostilidade no ar é uma resposta ao semi-profissionalismo de Ted, sua impostura ou sua masculinidade, mas há alguma coisa repulsiva no ar. Não é abusivo nem desafiador, mas há uma frieza, uma falta de vontade de se relacionar com ele como ele está.

Na tarde seguinte ao show de talentos, Felicity veio para o jantar no seu “sapo”, ou seja, do jeito que ele realmente é, um pastor batista pesadão que trabalhou na construção civil em sua juventude. O maitre do restaurante veio à nossa mesa portando rosas e com um floreio entregou-as à esposa de Felicity, sob os aplausos das nossas quatro mesas. Felicity colocou sua mão grande na dela e apertou. É um brinde aos seus 30 anos de casados e sua bondade e apoio. Ele começa a perder a fala; mas o look dela à distância não se altera. A ela não agrada que ele tenha decidido se vestir como um homem para essa noite. Não a agrada nem um pouquinho, Deus é testemunha, sentar-se com um bando de homens maquiados e vestindo longos, e chamar a isso uma festa de aniversário de casamento.

Mais tarde, quando Felicity diz que seu caminho é ser ministro dos transgêneros, sua mulher põe a mão sobre a boca e diz mansamente, "Jesus nos mostrará o caminho." Ela quer dizer, sem erro, que o caminho certamente não será este. Felicity diz, "É como se houvesse três de mim neste pequeno barco: o marido, o crossdresser e o pastor. Eu posso ouvir as quedas se aproximando e eu sei, eu sei de todo o meu coração, que um de nós não vai sobreviver a esta viagem". Ele começa a chorar, e eu também tenho lágrimas nos meus olhos. Ao lhe estender o lenço de papel, sua mulher me olha e diz, "Você é uma pessoa que realmente se envolve com as suas entrevistas". Pelo resto da viagem, Felicity me procura e sua mulher me evita.

De um modo geral, tenho melhor desempenho com as esposas no Fall Harvest 2000 em Saint Louis, Missouri. As primeiras pessoas que eu encontro no cavernoso lobby do Centro de Conferências Henrique VIII são minha anfitriã, Marcia Lynn e sua esposa, Barb. Marcia Lynn é presidente da seção regional de Saint Louis do MAGGIE (Mid-America Gender Group Information Exchange – Grupo Centro Americano de Troca de Informações sobre Gênero). Os serviços profissionais para a comunidade crossdresser também estão aqui: Absolutely Picture Perfect, oferecendo videos e fotografias; Barb's Large & Lovely oferecendo lingerie em tamanhos GG; a livraria IFGE e o Shoe Express, com calçados femininos de tamanhos 40 a 45.

Quando chega o dia do desfile da Miss Colheita de Outono, Jim Bridges está ocupadíssimo em fazer maquiagem e mais maquiagem, de pé desde as nove da manhã até as oito da noite. A suíte tem o cheiro de um vestiário sem nenhum vestígio de um time. Cada um desses homens está na sua própria jornada e embora sejam um para o outro mais do que um time, se encorajando mutuamente (“você vai, menina!”, "Essa peruca está ótima"), não há nenhuma sensação de que eles estejam nisso juntos ou que isso é agradável. Jim diz, "Eu quero que vocês todas pareçam fabulosas. Talvez uma de vocês seja sortuda esta noite." Há uma onda de risadas masculinas e um homem diz, "É tudo que eu sonho!" Eu pergunto, "Em que vocês desejariam ter tanta sorte esta noite?" e então se segue um completo silêncio. Jim levanta uma sobrancelha mas não diz nada. Se ele acha que alguns desse homens têm uma relação com sua sexualidade mais ambivalente do que eles supõem, ele certamente não iria ofende-los se dissesse isso.

A parte de talentos do desfile vai do doloroso ao agradável passando pelo complicado. Uma crossdresser negra, muito escura e forte, entoa um gospel a plenos pulmões e o simples fato de que é ao vivo e não dublado põe a casa abaixo. Jeanette, uma crossdresser que eu encontrei na primeira noite, está no show, e eu desejaria que não estivesse. Na sua roupa andrógina de uso diário, ele parecia um galã. En femme, era um desastre, e eu culpo sua namorada, Marianne.

Jeanette me contou que foi Marianne quem procurou por ele; bissexual e dominadora, ela adora ter um homem para vestir. Se isso a deixa tão feliz, eu penso, porque ela não o veste de maneira adequada? Ele estava com um tipo estranho de peruca dos anos 70, um vestido de jersey, meias de seda escuras e uma maquiagem que distorcia suas feições. Se ele fosse uma mulher, alguém já teria dito a ele, “você tem feições marcantes; tire o máximo delas”. Ele teria a aparência de uma Gertrude Stein ou Diana Vreeland, poderosa e empática, sem nenhuma tentativa de sair da linha. Jeanette lê contos e poesias de Dorothy Parker e a platéia fica embaraçada, sem saber se eles deveriam estar no Miss USA ou Miss Mundo. Quando eles dizem talento, isso não significa leitura.

As três candidatas finais são selecionadas. Há um generoso aplauso para a cantora de gospel, para a velha mágica, mesmo para Jeanette. Finalmente, a música começa, e por um momento os juízes e os crossdressers e suas esposas ficam de pé no salão batendo fotos, abraçando, beijando, tomando seus drinks. Dentro de cinco minutos, todas as crossdressers estão de volta para suas mesas ou congestionando o lobby. É muito quente e difícil dançar dentro de espartilhos, enchimentos, saltos de 8 cm, perucas pesadas e vestidos de noite bordados. Mais do que isso, dançar vai dissolver a maquiagem e arruinar a ilusão. Com quem eles irão dançar? No momento da fantasia, até homens que não desejam outro homem como parceiro sexual desejariam ter um bonitão como par; uma esposa não é de todo o complemento perfeito para um baile de gala, em vestidos de noite. E assim estou eu na pista de dança, fazendo a “macarena” com 12 cansadas mas animadas esposas, todas elas tendo se livrado dos seus sapatos e estão se abaixando, mãos nas cinturas, rindo e bebendo, até que fique tão tarde que a gente encerre a união.

Depois do cruzeiro, depois de trocar emails com Melanie e Peggy, e mais telefonemas com os Fairfaxes, eu descobri que eu tinha mais a dizer do que eu pensava, e mais preocupações ainda em dizer. Eu não queria demonizar ou patologizar qualquer preferência sexual ou comportamento que não causa mal a ninguém. Eu não queria fazer chacota dos fetichistas. Eu queria focalizar pessoas como Steve e Sue, alegremente casados por 30 anos sem se importarem que, com o uso de hormônios, eles agora sejam quase sempre confundidos com um casal de lésbicas; ou Tory e Cory, com seu flutuante amor adolescente. Eu queria ver os crossdressers como a maioria deles se vêem a si próprios.

E eu vi – mas também vi muitos deles de maneira muito diferente. Os homens que eu encontrei eram, em geral, decentes, bondosos, inteligentes e desejosos de falar abertamente; suas esposas da mesma forma, muitas vivendo sob a pressão adicional de ter que fazer o melhor arranjo possível para um estilo de casamento que elas não escolheram e não prefeririam. Mas me pareceu que a paixão por uma pessoa, ou a capacidade de amar alguém, é algo muito diferente de um impulso sexual dirigido para um objeto ou um ato qualquer, e maior do que o simples desejo carnal por uma pessoa qualquer.

E embora alguém possa argumentar que todo desejo focalizado em um objeto, ou mesmo em um ato, é um fetiche, eu não penso dessa forma – da mesma que eu não penso mais que uma cirurgia para readequação de sexo (mesmo quando ela é reconhecida como uma cirurgia para confirmação de sexo) seja tão diferente de uma cirurgia plástica de abdômen.

A maior dificuldade das pessoas têm com os crossdressers é, eu penso, que os crossdressers se vestem com o seu fetiche, e a inconfundível presença de uma luxúria sendo satisfeita ou um desejo sendo preenchido na sua presença, até mesmo através da sua presença, é irritante. A mistura de auto-excitação e ansiedade dos crossdressers, e nosso desconforto e ansiedade em resposta a elas, é muito mais do que a maioria de nós é capaz de suportar. A gente pode não se importar com podófilos (fetichistas dos pés), mas também nós podemos não querer assisti-los.

Os crossdressers do Tri-Ess insistem que crossdressing não tem nada a ver com sexualidade, e por conseguinte nada a ver com sexo. Mas é perturbadora a afirmação deles de que o crossdressing é expressão criativa dos seus dois lados, porque ela está em disparidade com o seu comportamento, a sua natureza e os seus matrimônios. Estes homens estão tão distantes dos ativistas de gênero e as feministas como está o próprio George W Bush em pessoa.

Como uma esposa me disse, "por 20 anos ele não pôde me ajudar com os pratos porque ele estava assistindo futebol. Agora ele também não pode porque está fazendo as unhas; faz alguma diferença?" Porque, para esses homens, a mulher interna é totalmente versão Maybelline (alusão à marca famosa de produtos de beleza), não versão Madre Teresa, não versão Liv Ullmann e nem mesmo versão Tracey Ullman. Não há nenhuma compreensão inata da amizade feminina, da insistência feminina, dos vínculos femininos, da tradição feminina de apoio e gentileza pelo parceiro, e da importância que elas dão à relação acima de tudo.

Se houvesse essa compreensão, esses homens não seriam capazes de pedir às suas esposas para partilharem com eles esta vida de crossdressing e, cada um, maridos e esposas, sabem disso. Eles sabem que, se as mulheres insistissem em usar camisas de basquete ou uniformes de baseball em público, e pedissem aos seus maridos para aceitarem suas pernas e axilas cabeludas e suportes atléticos como parte da sua vida sexual, os maridos não sairiam correndo para se reunir com grupos de esposas de apoio (S/Os) para saber o que fazer.

Quando eu leio as recomendações do Tri-Ess para as esposas, eu não sei se eu rio ou choro: é provavelmente sua falta, mas você não pode repara-la, ele realmente precisa de você mas ele pode não demonstrar isso, seu amor vai superar o problema dele, e um bom homem é difícil de encontrar. A hipótese bastante difundida é que estes crossdressers são hipócritas: atacando fortemente em público qualquer desvio comportamental e se vestindo em privado como Chapeuzinho Vermelho. Ainda existem muita Chapeuzinho Vermelho por aí, mas o seu ataque frontal aos desvios de comportamento caiu muito nos últimos 30 anos. Todos os crossdressers com quem eu conversei expressaram admiração pelo movimento pelos direitos dos gays. Para os crossdressers, os homossexuais e as mulheres constituem modelos em termos de auto-respeito e direitos civis, mesmo sabendo que a comunidade gay oferece a eles no máximo tolerância, nunca recepção calorosa.

Quase tudo que o Tri-Ess diz a respeito dos seus membros é verdade: eles são tradicionais homens heteros, que amam suas esposas e usam vestidos. E estes homens cristãos, conservadores e republicanos têm mais em comum com outros homens cristãos, conservadores e republicanos do que qualquer outra pessoa.

Suas esposas não são mulheres com sua própria renda e carreiras profissionais. Elas tentam fazer seus casamentos funcionarem, e se o preço de um bom provedor e um homem decente não for sexo em demasia e uma dose de sofrimento constante, então não se trata de uma barganha tão desconhecida assim. As esposas não são uniformemente obesas, maternais e destituídas de auto-estima (como certas pesquisas medíocres tem sugerido).

Fazendo malabarismos com limitados recursos de tempo, dinheiro e prazer, balanceando dominação e medo, auto-engano e amor, egoísmo e generosidade, os crossdressers e suas esposas são obrigados a lidar diariamente com uma grande controvérsia – a compulsão deles (pelo crossdressing). De outra forma, eles são iguais a todo mundo.

(*) Esta é a tradução de um extrato editado do livro “Normal: Transsexual CEOS, Crossdressing Cops And Hermaphrodites With Attitude', de Amy Bloom, New York: Random House, Inc., 2002.

Amy Bloom é psicoterapeuta, mora em Connecticut e ensina na Universidade de Yale. Tem mais de 20 anos de experiência como Seu primeiro livro de não-ficção, Normal: Transsexual CEOs, Crossdressing Cops, and Hermaphrodites with Attitude, é uma análise das variações de gênero existentes no mundo de hoje e as implicações que isso representa na vida e nas relações de pessoas que apresentam tais comportamentos.