ÂNGELA GUTA GIACOMETTI
São Paulo-SP

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Biografia
Queridas Colegas,

No dia 05/05/2004 tivemos a triste notícia de que a Guta partiu para a eternidade.

Além da Paula Andrews que a conhecia há mais tempo, fui uma das que constantemente a visitava e passava fins de semana em sua residência, aperfeiçoando o nosso lado crossdresser, juntamente com uma linda e amável travesti de nome Pinky. A S/O da Guta também, vez por outra, participava de nossas reuniões. Sempre que íamos a São Paulo, na Cage das colegas Betinha, Paula Andrews e Paola Gabrielli, viajávamos juntas porque morávamos nas proximidades do litoral de São Paulo. E assim participamos de alguns eventos sobre os quais fiz relatos em meu site.

Foi num desses fins de semana juntas que a ensinei a fazer um site. Ela, muito estudiosa e dedicada aos seus ideais, passou-me a frente e logo se tornou a webmaster do BCC, colocando-me como sua auxiliar. Aliás, o endereço de seu site foi sugestão minha. Caía-lhe bem o Gutinha, pela sua delicada estatura, pela sua meiguice e pela sua enorme vontade de estar mulher. Todos os seus parentes sabiam de sua condição e da condição das amigas chegadas como eu.

Ela merece estar eternamente em nossas lembranças.

Suzy Kelly.
Webmaster.

Veja outros relatos de associadas:

PAULA ANDREWS:

Muitas e muitas vezes peguei-me pensando como seria o dia em que pela primeira vez eu recebesse uma notícia como essa; da morte de uma de nossas irmãs.

Acrescida pela relação de amizade íntima que tive com a Guta, é muito pior do que pude um qualquer momento imaginar.

Guta tinha um gênio duro; era mandona, por vezes difícil de conviver; a gente precisava ter jeitinho para lidar com ela. Disso em parte vieram as razões para seu afastamento aqui de nosso convívio. Mas  foi uma das melhores crossdressers que conheci. Foi, e isto é pessoal, numa época em que isso sequer existia, minha madrinha, lá naqueles distantes anos 80. Foi na companhia dela que participei de minhas primeiras cdsessions (naqueles tempos PI - pré-internet - não conhecíamos o termo crossdressers; chamávamo-nos, numa adaptação da expressão francesa de "travestis amadores" ou "travestis secretos"; e cdsession era "festinha").

Foi a Guta quem primeiro me fez ver que quando eu fosse a rua, não haveria uma placa em minha testa dizendo: travesti. E também tranqüilizava-me, sempre dizendo que ninguém anda pelas ruas procurando travestis a serem desmascarados.

Juntas sonhamos, muitos anos antes da criação do BCC, com um clube de "travestis secretos". Um lugar aonde pudéssemos nos encontrar, fazer comprinhas e tricotar na companhia de nossas iguais. Juntas imaginamos, naquelas noites em que nos encontrávamos em minha casa, eventos como os que agora realizamos: Miss BCC; sessões de fotos, HEFs. E um pouco dessas conversas, desses sonhos, acabaram através de mim, chegando aos ouvidos da na época ainda uma menina a quem eu, uma aprendiz ainda, pretensiosamente,  ensinava a montar-se; uma das fundadoras de nosso clube, a Debbi. Digo isso para que à Guta tenha uma parcela significativa do crédito que lhe é devido por nossa existência enquanto grupo organizado aqui no BCC.

A esposa da  Guta foi a primeira S.O. que conheci ainda quando  não sabia o que queria dizer S.O (o termo nos era desconhecido). Quanta ajuda também dela...

Vou escrevendo e já começo a engasgar. Lembranças e emoções fortes afloram vulcanicamente. Paro por aqui. O chão parece sumir; um pedaço de minha própria história, de minha própria vida, corre para o vazio do nada.

DENISE TAYNAH:

O dia de HOJE ficou um pouco triste com a passagem pelo último Portal de um dos grandes ÍCONES do Crossdressing Brasileiro (o site dela foi um capítulo de lições que aprendi no meu caminhar de crossdressing).

Tive o prazer de conhecê-la pessoalmente em 2002, no meu 1º HEF.

Fui a 1ª a chegar naquele evento junto a Valéria Faiza (marinheiras de primeira viagem) e um bom tempo depois chegava a Diana Leite, Patricia Din e Guta que, após se acomodar, veio ao meu encontro e, quebrando o gelo da minha imaturidade em participar do HEF (as meninas do Rios Ladies ainda não tinham chegado), levou-me até seu aposento, mostrando-me sua bagagem,  fotos e conversando. Dali em diante fiquei menos ansiosa de como deveria me comportar e entendendo melhor o que é um HEF.

Me diverti muito com Guta naquele HEF.

Sei também que ela era um pouco durona, mas todas nós temos qualidades e defeitos, prefiro ficar com a certeza de que valeu seu sacrifício pessoal pelo bem coletivo do BCC.

MIRIAM ROSE DE LIMA:

Assim como foi nossa precursora na organização e busca de respeito a todas as CD's, GUTA provavelmente já está providenciando para que sejamos bem acolhidas no outro Plano quando para lá partirmos. Que a LUZ PERPÉTUA ilumine sua bondosa ALMA e descanse em PAZ.

MARIA ANTONIETA MATTOS:

Guta...

Meu amor, eu sei perfeitamente que me lês...

E, sei também, minha amiga que agora um fardo muito grande é deixado de lado. Uma nova realidade se abre pra você. Novos desafios, novas tarefas e uma percepção totalmente diferente de tudo e de todas as anteriores. Somos Sabedoras, nós duas de que sua passagem por aqui foi curta, foi efêmera e por vezes carregada de toda série de sentimentos; uns bons e outros tentando sê-lo. Mas amiga, nas conversas que tivemos nós duas, através do chat do clube que te deve quase tudo, aprendi a ver em suas mensagens, uma mulher resoluta e corajosa, uma mulher que não me participou em hora nenhuma a enfermidade que padecias. Estou impressionada com a forma simples que me cativou. Você sempre teve uma palavra positiva e otimista para mim. Cada vez que na tela aparecia seu nome, GUTA, eu corria a lhe desejar boas vindas e, assanhada, precisava saber coisas de você. Ah minha querida... Que pena que foi tão pouco tempo.

Tudo o que teclamos, tudo o que trocamos de experiências de vida estão registrados aqui no meu coração e saberei, nos dias que me tocam a passar, fazer bom uso.

Agora, ficará um sentimento vazio... Eu, suas amigas mais chegadas, aquelas a quem você marcou com sua presença, ficamos órfãs de você. C'est la vie não? A hora de todas nós também chegará e espero que, quando a minha chegar, possa deixar ante as pessoas que me rodeiam, a impressão linda e paradoxalmente triste, de que farei falta, de que minha ausência será sentida e que serei lembrada com sentimento de amizade, carinho e amor.

Vá amiga, segue a jornada de desenvolvimento espiritual... Ele ainda é longo e eu te desejo sucesso pelos caminhos a trilhar. Nosso Pai, saberá analisar, mensurar e decidir sobre você e o que te cerca.

MÁRCIA REGINA:

Apesar das poucas oportunidades de contato nos últimos tempos, guardava minha amiga Guta num lugar especial em meu coração. Ela foi uma das que me abriu as portas e o coração quando ainda estava cheia de dúvidas e incertezas. Certamente, a lacuna que ela deixa não poderá mais ser preenchida, restando apenas desejar que ela, onde quer que esteja, encontre a paz.

LETÍCIA CLOGGUY:

Guta (se puder me ouvir),

Não lhe conheci pessoalmente, apenas em chats e Foruns, desde a época em que a única de comunicação em grupo era o "Castelo da Priscila". Naquela época e em seguintes, depois que o Forum foi criado, existiam duas certezas para mim: ser crossdresser era possível e viável, pelo que as meninas de Sampa viviam e contavam, e que eu nunca conseguiria ser uma crossdresser com aquela intensidade.

As meninas de Sampa eram quase ícones sagrados, nem vou citar nomes pois todas sabem quem são. Respeitadas, admiradas, idolatradas, nossa referência. Vasculhávamos seus sites, e cada vez que o fazíamos descobríamos coisas novas, e admirávamo-nas cada vez mais. Uma delas era você, Guta. Nossa, uma crossdresser heterossexual convicta vivendo seu cding nos anos 60, com uma S/O? Fotos em preto-e-branco mostrando o dia-a-dia de uma MNG há 30 anos atrás? Era mais um incentivo, mais um alento para meninas como eu.

Um dia você ficou doente, e todas que conviviam com você virtual ou pessoalmente ficaram condoídas. Mas você voltou, exuberante.

Passou-se o tempo e fiquei chateada com você. Problemas houve, e me fizeram negar e esquecer tudo de bom que você havia trazido para o clube e para cada uma de nós. Confesso que ultimamente a menção ao seu nome não me fazia pensar na Guta de outrora, a quem admirava, mas sim naquela outra que saiu do nosso convívio justamente por causa dos tais problemas. Adjetivos não muito simpáticos, histórias escabrosas...

Hoje você passou pelo Portal 5, e está acima das nossas idas e vindas mundanas. O que vejo, o que sinto? Vejo uma pessoa humana, com seus defeitos e problemas, qualidades e virtudes. Igualzinha a cada uma de nós. E sinto que devo lhe dizer essas palavras, para que você não tenha dúvida de que, apesar dos últimos tempos, tudo de bom que você fez não foi por nós esquecido.

O Portal 5 não relativiza quem somos, nossa passagem por ele não nos faz melhor, e muito menos pior, mas o que somos e fomos passa junto a nós. Portanto, espero que, lembrando-lhe da importância de tudo de bom que você nos fez, esteja contribuindo com um pouco de paz e tranqülidade na sua passagem pelo portal.

Hoje eu tenho duas certezas: ser crossdresser continua sendo possível e viável, e que a maneira segundo a qual vivo minha vida só depende de mim, a única desculpa que tenho para não viver o que desejo é minha própria incompetência e incapacidade em buscar e lutar. Hoje sei ser possível descobrir o meu caminho, e tento fazê-lo mais e mais a cada dia. Mesmo inconscientemente, sei que alguns exemplos e experiências de outras manas me incentivam, não pelo resultado alcançado, pois isso é muito pessoal, mas sim pela determinação demonstrada para trilhar o caminho até lá. E, certamente, nesse universo encontram-se aquelas velhas fotos em sépia, desbotadas, mas de uma significância ímpar para quem se disponha a enxergá-las e senti-las.

Muita luz e paz para você.

VERÔNICA DIMITRI:

Conheci a querida Guta através do BCC. Grande idealizadora e precursora do movimento, sempre admirei-a e constantemente nos falávamos via e-mail.

Fiquei muitíssimo, ou melhor, ainda estou, muito sentida por sua partida, mas acho que devo compartilhar algo que aprendi com vocês. A morte é como uma viagem: estamos aqui do lado do oceano, nossa amiga nos deixou, olhamos por toda a imensidão e não conseguimos vê-la, pois as ondas ora nos atrapalham, o mar revolto às vezes dificulta, mas sabemos que em breve, venceremos todos os obstáculos e estaremos do outro lado do oceano, reencontrando nossa querida e estimada amiga. Boa viagem querida Guta, em breve nos encontraremos, aguarde!

Atualizada em 22/02/2006