ARTIGOS E TESES
portadores de disforias de gênero
Pleito para a OMS
- Organização mundial de saúde
por Waleria Torres
Apresentação do Projeto
Este projeto consubstancia a proposição de alterações na conceituação do que sejam as disforias de gênero: suas causas, critérios de classificação e avaliação, e a terminologia utilizada, no Código Internacional de Doenças- CID da Organização Mundial de Saúde- OMS.
O projeto conta com o apoio de entidades representativas de portadores de disforias de gênero a nível nacional (Transgender Brasil e Grupo Brasileiro de Transexuais - GBT).
Introdução: A Mudança Proposta
Podemos definir a disforia de gênero como a discordância entre a identidade de gênero e a conformação genital. A pessoa disfórica se sente muito mal com sua situação genital em discordância com sua identidade.
Até os anos 50 e o advento das cirurgias de transgenitalização, não se podia diferenciar a pessoa disfórica das pessoas com orientação homossexual. Esses dois fenômenos, que hoje sabemos serem tão diferentes entre si, eram então inapelavelmente confundidos.
Em 1952 a American Psychiatric Association-APA, estabeleceu sua norma interna DSM-I, onde classificou a homossexualidade, o cross-dressing, o travestismo e o transexualismo, como estados patológicos, numa gradação de intensidade de um mesmo fenômeno, considerando-se o transexual como o caso extremo, em que se chegava a alterar o corpo, procurando-se alterar os próprios genitais, como uma situação limite de inadaptação à realidade do próprio gênero.
Essa gradação foi decorrente de uma posição ideológica extremada, então vigente na sociedade americana, de que todo diferente sexual teria sua origem numa desordem de identidade, de auto-reconhecimento. Estas situações eram consideradas perversas, intrinsecamente patológicas.
Hoje em dia essa situação mudou radicalmente, para o entendimento e compreensão da homossexualidade. Além de toda a pressão social e política pela des-patologização da homossexualidade, mesmo na natureza encontrou-se uma espécie de primatas muito semelhante conosco: o bonobo (Pan paniscus), que totalmente livre nas florestas de Wamba no Congo, em seu habitat natural, se comportam, todos os membros da espécie, de forma sistematicamente bissexual, evidenciando que justamente o primata mais semelhante geneticamente conosco demonstra haver homossexualidade na natureza (deWaal & Lanting, 1997).
Evidentemente, bissexualidade e homossexualidade, como a heterossexualidade, não poderiam ser decorrentes de problemas mentais, quer nos bonobos, quer nos humanos.
Já em 1965, Gore Vidal, num epílogo que
acrescentou ao seu romance The City and the Pillar, escrito
originalmente em 1948, mostrava que a homossexualidade, assim como a
heterossexualidade, eram questões de gosto, ou seja, uma situação de
estar e não de ser. Uma forma de amar, uma forma de direcionar a
libido. Uma situação muito mais dinâmica que estática, já que ele,
mesmo sem ter naquele tempo notícias do bonobo, já antevia que todo
ser humano potencialmente, quanto à orientação de seu amor e do seu
afeto, assim como de seu desejo sexual, seria dinamicamente bissexual,
em potentia (Vidal 1965).
Hoje em dia, o CID sabiamente reconhece que a homossexualidade não é
um problema, nem físico nem mental, nem sequer social, e retirou a
homossexualidade das desordens mentais.
Mas os cross-dressers, os travestis e os transexuais continuam como
patologias mentais no CID-10, no item F.64, como desordens de
identidade- GID.
Antes de mais nada, vamos explicar e adequar a terminologia que usamos:
Cross-Dressing ou Transvestism:
Que também podemos chamar de transformista no Brasil, e que internacionalmente hoje em dia tem sido designado como transvestite (vide o site www.caritig @ org.fr). A pessoa usa de roupas e maquiagem, procurando-se mostrar, de forma caricata ou não, como se pertencesse ao sexo oposto ao seu. Não usa cirurgias plásticas, nem silicone, nem hormônios, apenas maquiagem e roupas. Como um ator, e muitos são efetivamente atores.
Hoje em dia, muitas mulheres, nas grandes corporações, usam desse artifício para masculinizarem sua aparência, para serem aceitas no meio empresarial e poderem galgar a cargos mais elevados nas organizações, procurando evidenciar uma eficiência masculina, negando sua feminilidade, considerada nessas corporações como debilidade, como mediocridade. Hoje aceita-se no mundo empresarial a mulher, mas não sua feminilidade.
O cross-dressing masculino, de homens se fantasiando de mulheres, é mais jocoso, chama mais a atenção, mas é praticado em muito menor escala do que pelas mulheres, que o praticam abertamente e em larga escala, nos grandes escritórios.
Eu me pergunto: terão todas elas algum problema de desordem de identidade? Ou essa desordem será característica só dos homens que praticam o cross-dressing?
Ou patologizar o cross-dressing, como é feito no item F.64.1, não parece mais uma cena do Malade Imaginaire de Molière? (Molière, 1672)
Travestismo ou Transgenderism:
O que designamos como travesti, internacionalmente hoje em dia se designa como transgender (vide www.caritig @ org.fr ; Freitas,1999).
O travesti vive um papel de gênero social do sexo oposto, e para isso chega a alterar o próprio corpo com próteses e cirurgias. Mas preserva seus genitais. Não se identifica com o sexo oposto ao dos seus genitais, apenas se mostra socialmente como transgender.
Sexualmente pode expressar o seu desejo de forma hetero, homo ou bissexual, podendo quanto ao ato sexual agir de forma ativa, ativa/passiva ou apenas passiva --- o que é muito raro. A maioria evidencia ter decidido se travestir na adolescência ou na pré-adolescência, após alguma experiência sexual homo ou bissexual.
No CID 10 não se diferencia expressamente o transgenderismo do transexualismo nem do transvestismo ou cross-dressing. Parece se classificar também no item F.64.1.
Será uma patologia mental um homem querer continuar agindo como homem, e apenas se mostrar de uma forma diferente, inclusive muitas vezes por interesse profissional? Muitos são profissionais do sexo, ou da vida noturna.
Será um desvio de identidade, ou apenas , como eles preferem ser reconhecidos, uma maneira própria de ser no mundo?
É interessante notar que estudos com testes psicométricos como testes de Rorschach e MMPI não têm, de forma significativa e inquestionável, detetado verdadeiras psicopatias, de forma sistemática, em travestis. Não terão eles razão no que testificam sobre si mesmos, e sobre sua situação?
No nosso país, temos dois exemplos típicos de travestis inteligentes, que mostram na mídia a realidade do travesti: apenas os psiquiatras teimam em não ouví-los, e em privilegiar mais seus pontos de vista sobre o existir alheio, que o próprio existir alheio:
Rogéria, a travesti mais famosa do Brasil, testifica continuamente na mídia que é um homem bissexual chamado Astolfo, e que interpreta naturalmente um papel feminino há muitos anos. Vive disso, e tem muito talento. Terá Astolfo um problema mental por isso?
Telma Lipp, uma das travestis mais belas, que já foi capa de inúmeras revistas, uma musa em termos de beleza, diz claramente que é um homem, mas que gosta de se mostrar femininamente, por ser gay. Preza abertamente seus genitais masculinos, dos quais não abre mão de forma alguma. É uma pessoa equilibrada, que já se deixou envolver por drogas pesadas, como inúmeros outros homens fazem constantemente no Brasil, mas conseguiu lutar e se livrar das drogas, pelo menos por enquanto. Será Telma um homem com desordens de identidade? Por ser pouco inteligente, e não se aperceber bem de sua real situação de macho man?
Não estaremos, aqui também, numa típica situação de patologização pela nossa incompreensão da situação, por impormos à sociedade nossos pontos de vista e nossa maneira de ser no mundo, querendo impedir minorias normais de serem no mundo como melhor lhes parece, usando de nosso poder de maioria, e de nosso poder normativo para mais uma vez atuarmos como no Malade Imaginaire de Molière? Porque sistematicamente queremos impor nossa maneira de ser às minorias, nos fazendo de surdos para com essas minorias?
Terão os médicos, psicólogos, psiquiatras, sexólogos, esse direito para com essas minorias, que se vêm terrivelmente prejudicadas tanto existencialmente, como social, civil, cultural e profissionalmente pela nossa atitude, que termina por ser contra eles muito mais ideológica que profissional?
Transexualismo ou Disforias de Gênero:
O termo disforias de gênero surgiu em 1973 (vide Cohen-Kettenis & Gooren 1999), e o de desordens de gênero, nos anos 90. Será a disforia causada por uma desordem mental? É assim que hoje em dia o transexualismo, como disforia, é classificado no CID.
De onde surgiu a idéia de que a causa da disforia é uma desordem mental?
Do modelo teórico construtivista social, desenvolvido por John Money desde 1955.
Em 1955, Money e seus colaboradores (Money,Hampson,Hampson,1955), tomando por base dois pontos de princípio freudianos:
1. O ser humano ao nascer, psiquicamente é gênero indiferenciado.
2. O ser humano se identifica com seus genitais, automaticamente; construiu um modelo de base cognitiva, sobre um existencialismo construtivista social, concluindo em suas divagações os dois pilares fundamentais de sua teoria do sex of rearing:
1. A criança aprende a ser menino ou menina como aprende a falar, até os dois anos de idade.
2. Hormônios, neurônios e genes não são importantes pata a construção da identidade de gênero : o que importa é a criação.
Baseado nessas duas hipóteses, Money direcionou todo o seu esforço, e seus recursos, que não foram poucos: a criança normal seria, portanto, suficientemente inteligente para aprender a falar, e para aprender a reconhecer quem era quanto ao seu gênero, baseada nos seus genitais, e no reconhecimento social. Se não aprendesse, estaria demonstrando o que? Ser muito pouco inteligente, não conseguindo reconhecer em si mesma a realidade anatômica dos genitais, mostrada pelo espelho de forma clara e inequívoca.
Pensando assim, Money considerava um terceiro ponto de princípio que nos passa desapercebido:
Existe onticamente uma infalibilidade absoluta na influência da conformação genital na psiquê. A influência dos genitais seria automática e inquestionável de per se.
Money considera, em sua maneira de pensar, a influência dos genitais na psiquê uma realidade perfeita, platônica, ideal, infalível. A influência psíquica da conformação genital, eu diria, seria mais infalível que o Papa. O Papa hoje em dia dá voltas ao mundo, pedindo perdão pelas consequências históricas que deixou sua organização. Será que Money vai ter que fazer o mesmo com as consequências históricas que deixará seu sex of rearing?
Money adotou essas premissas como dogmas e os defendeu sem alterações substanciais ao longo de aproximadamente 40 anos. No início dos anos 80, pressionados pelas pesquisas neuroendocrinológicas de Dorner, Pfaff, Gorsky, entre outros, e pelos resultados de Imperato-McGinley, Money e seus colaboradores sugeriram que os hormônios eram importantes no período fetal, não para a formação da identidade de gênero (gender identity), mas para o desenvolvimento de papéis de gênero (gender roles) vide Ehrhardt & Meyer-Bahlburg, 1981. No XVº Congresso Mundial de Sexologia havido em Paris em 2001 e do qual participamos ativamente, em discussão com Tom Mazur (da equipe de Money), ouvimos mais uma vez a repetição estéril deste argumento, que é totalmente inconsistente --- por exemplo preferir bonecas, brincar de casinha, quando se esperava uma atitude máscula da criança (a forma de escolher as brincadeiras é definida como gener roles e não pela gender identity segundo Money e colaboradores), é sinal indiscutível de formas alternativas de auto-reconhecimento pela criança, como o menino mariquinha, por exemplo. Os hormônios fazerem com que um menino venha a gostar de bonecas e passa anel, brincar de roda e aprender crochê, e ao mesmo tempo estaria vivenciando uma identidade de macho man? Isso seria um fato insólito --- e não encontrado na casuística. Portanto, os hormônios afetam a identidade, mesmo que Money ainda se mostrasse naquela época refratário à idéia, por motivos ideológicos, sem base na casuística.
Em 1994 Money ( Money 1994) deu enfim a mão à palmatória, admitindo que pré-natalmente os hormônios, mesmo que para ele ainda de uma forma muito misteriosa, têm que afetar a identidade de gênero. Infelizmente, mesmo seus seguidores parecem ainda não terem tomado consciência dessa sua conscientização mais abrangente sobre esse problema, mesmo em 2001, como ficou evidenciado por nossas discussões públicas com Tom Mazur no congresso de Paris.
Procurando comprovar definitivamente a validade de seu modelo, em 1967 Money sugeriu a um casal que teve gêmeos idênticos em que durante a circuncisão um dos meninos sofreu a perda total do pênis, que ele fosse castrado (extraídos também os testículos) e transgenitalizado cirurgicamente para menina aos 8 meses de idade; o menino aprenderia a ser menina, identificando-se com seus genitais e com a sua criação feminina, se desenvolvendo como uma menina normal. Os pais acreditaram e a cirurgia foi feita.
Anos depois, Money e seus colaboradores reportaram para o mundo científico através de dois livros que se tornaram famosos no meio médico e psicológico (Money & Ehrhardt 1972; Money & Tucker 1975), que haviam obtido pleno sucesso com os gêmeos, e que um permanecia menino normal e o castrado havia aprendido a ser menina. Seu modelo teórico foi incorporado à medicina e psicologia como conhecimento científico e passou a ser ensinado nas universidades e escolas de medicina como verdade científica até os dias de hoje.
Se Money tivesse razão, estava explicada a transexualidade.
A criança transexual não se adaptando à sua imagem genital e à sua criação estaria evidenciando ter uma desordem de identidade por problemas na apercepção distorcida da realidade (Mormont,Michel,Wauthy 1995). Teria problemas mentais por não identificar-se com a realidade, mas com sua imaginação --- um tipo esquizóide e pouco inteligente --- precisando então de um tratamento que fizesse com que compreendesse corretamente a realidade da qual não conseguia se aperceber, por mais clara que ela fosse. Certamente não deveria apresentar um desenvolvimento normal de inteligência.
Da mesma forma, mas numa gradação menor, o travestismo seria uma falta de aceitação da realidade social como papel de gênero, o que evidenciaria também uma psicopatia e fuga da realidade, porém mais branda. Por isso hoje em dia a OMS mantém tanto o transexualismo como o travestismo como psicopatias no CID- Código Internacional de Doenças.
Em consequência da inerente falta de inteligância de transexuais e travestis, eles não poderiam ser levados em conta, devendo ser tutelados por autoridades mais competentes, como psiquiatras e psicólogos, por exemplo, que decidiriam por eles seu futuro, sua adequação e integração social. Decidiriam por eles, o que seria bom ou mal para eles, como energúmenos, como tutelados.
Em 1979 surgiram algumas vozes discordantes de Money sobre esse assunto, quando Imperato McGinley estudou casos de síndromes de falta de 5-alfa-redutase (Imperato McGinley et al 1979) --- crianças nasciam com genitália ambígua quase feminina mas mesmo criadas como meninas, quando atingiam mais de 7 anos de idade evidenciavam uma identidade masculina --- quando a endocrinologista aventou a possibilidade do gênero da identidade ser organizado pela ação de hormônios sexuais no cérebro durante a gestação, sendo o modelo teórico de Money aplicável apenas quando naturalmente o cérebro da criança e a criação coincidissem casualmente. Mas a prova dos gêmeos --- em que não poderia haver essa coincidência fortuita --- era tão decisiva --- e a propaganda tão intensa --- que Imperato McGinley foi ignorada.
Outros teóricos pesquisaram na linha de Imperato McGinley. O neurobiólogo Gorsky da Califórnia foi um dos primeiros a encontrar gênero neuro diferenciações anatômicas no hipotálamo no cérebro de seres humanos em 1989 (vide Allen et al, 1989); o neurobiólogo Swaab --- o primeiro a encontrar diferenças anatômicas de gênero no hipotálamo de humanos em 1985 (vide Swaab & Fliers, 1985); além de mais modernamente Zhou et al 1995, que encontrou semelhanças neuro anatômicas na estria terminal no cérebro de mulheres normais e disfóricas, e diferenças notáveis entre cérebros femininos e masculinos; e Kruijver et al 2000, que confirmou Zhou e encontrou semelhanças neuro anatômicas entre estrias no cérebro de homens normais e disfóricos, além do trabalho de Kawamura et al,2001, apresentado no XVº Congresso Mundial de Sexologia, que demonstra diferenças anatômicas no corpo caloso no cérebro de transexuais, onde mostram que o corpo caloso de transexuais femininas se assemelha ao das mulheres e se diferencia dos dos homens --- todos mostrando que o cérebro humano é gênero diferenciado neuralmente, havendo diferenciações neuro anatômicas entre homens e mulheres, e semelhanças entre mulheres normais e transexuais, o mesmo acontecendo entre homens --- devendo ser o bebê diferenciado psiquicamente como consequência desse fato, como alegava Imperato McGinley --- e como negava Money.
O estudo de cérebros de primatas não humanos por psiquiatras e primatólogos reforçavam isso, de forma bastante contundente (Resko et al 1988; Bonsall & Michael 1989) --- mas os gêmeos de Money permaneciam como prova e todos se calavam ou eram calados pelo status quo --- afinal ele tinha provas comportamentais em humanos, e os outros apenas indicações neuro anatômicas.
Mas havia quem questionava Money sob um outro aspecto: quem eram os gêmeos? Onde viviam, como viviam, como estavam ? Porque havia uma absoluta falta de transparência sobre sua identidade, todos tendo que acreditar apenas na palavra de Money e seus colaboradores?
Ele alegava que era para proteger a família e as crianças, o que todos respeitavam. Mas agora que a neurobiologia indicava que o bebê podia ser neuro-psiquicamente gênero diferenciado --- o que alteraria toda a questão, contrariando o modelo teórico francamente--- porque não se mostrava a realidade existencial dos gêmeos?
Quem questionou foi Milton Diamond (vide Diamond 1996; Diamond & Sigmundson 1997), pediatra do Hawai, que chegou a ter uma discussão pública com Money sobre os gêmeos num congresso científico. Diamond os encontrou em Winnipeg no Canadá, em 1994 (vide Colapinto 2000), quando conheceu o psiquiatra que acompanhava o caso, Sigmundson, e ficou chocado com a realidade que encontrou. Conheceu o menino transgenitalizado que teria aprendido a ser menina. O nome atual dele é David Reimer.
David, Diamond e Sigmundson conversaram muito, e David contou sua história para Diamond --- vide Diamond & Sigmundson 1997, Colapinto 2000. Ao nascer recebera o nome de Brian, e seu irmão era Bruce. Durante sua circuncisão, Bruce foi circuncidado mas Brian fora mutilado pelo cirurgião Huet e ficara sem pênis mas com testículos normais. Desesperados, seus pais recorreram ao especialista que sugeriu sua castração, transgenitalização e criação como menina. Os pais aceitaram a terapia e Brian foi feito cirurgicamente Brenda.
Brenda foi torturada psicologicamente por Money durante anos em sua infância, para que admitisse que era menina porque não tinha pênis. A faziam ficar nua com o irmão diante do espelho para que ela visse a diferença genital que havia entre eles, e que Brian era menino e ela só podia ser menina. Money chegou a simular situações de coito dela com o irmão várias vezes, fotografando-os nessas posições, para que ela aprendesse que era menina e Brian menino. Eles tinham 6,7,8 anos quando passaram por essas situações constrangedoras, para não dizer humilhantes, sem que seus pais soubessem dos detalhes, na clínica de John Money --- conforme Colapinto 2000.
Eles ficavam aterrorizados nessas situações, e David diz que logo admitia para Money que era menina para ficar livre da pressão exercida por ele, se livrar daquele pesadelo e poder ir embora --- conforme Colapinto 2000. Depois Money escrevia nos seus artigos o que queria, como queria, da forma que queria --- afinal ele era a autoridade. Na família, orientados por Money e acreditando piamente em sua competência os pais ajudavam na tortura. Brenda, inteligente, simulava, fingia. Mas atesta que não se sentia menina, queria se livrar de tudo aquilo, mas não podia. Sem saber o que tinha acontecido, sabia não ser menina, porque não se sentia menina, mas ao mesmo tempo sabia que não era menino normal porque não tinha genitais de menino e não era reconhecida como menino --- apesar de se sentir menino e gostar de ser menino. Vivia em conflito, não encontrava seu lugar no mundo e na sociedade em que existia --- o drama que vive toda criança disfórica (vide Freitas 1998).
Com 14 anos os gêmeos ficaram sabendo da verdade pelos pais porque Brenda chegou ao limite e ameaçou se suicidar se tivesse que rever John Money, e os pais queriam levá-la mais uma vez para a terapia na clínica de Massachussets. Depois de saber a verdade Brenda imediatamente assumiu o papel de David.
Questionou abertamente o pai : porque não havia matado o médico que cometera aquele crime contra ele, deixando-o impune? Assim que pôde comprou um revolver e foi matar Huet, mas desistiu no último momento porque o cirurgião, sob sua mira em sua clínica, começou a chorar à sua frente e a pedir perdão. David foi embora, destruiu a arma, jogou-a no mar e chorou --- vide Colapinto 2000.
Passou por depressões terríveis, tentou o suicídio várias vezes, ficou entre a vida e a morte mas sobreviveu. Se isolou, passou anos isolado tentando se refazer, tentando sobreviver. Hoje tem 31 anos, está casado com Jane com quem tem 3 enteados que para ele são filhos e se sente, na medida do possível, um homem comum, trabalhador, que sustenta sua família simples como operário num matadouro no Canadá --- trabalho muito rude onde só trabalham homens duros, resistentes como ele --- e ele se sente bem vivendo assim, como um deles, entre seus iguais.
Passou ao longo desses anos por dois processos completos de tentativas cirúrgicas de transgenitalização sem grande sucesso--- sua chance seria bem maior se não o tivessem castrado (retirado seus testículos) --- conforme Colapinto 2000.
Cientes da verdade e com a autorização de David Reimer, Diamond e Sigmundson escreveram um artigo contando a história dos gêmeos sem citar seus verdadeiros nomes (vide Diamond & Sigmundson 1997). Eles escreveram em 1994 e conseguiram publicá-lo apenas em 1997 tal o patrulhamento ideológico, mas enfim conseguiram ser ouvidos. Mesmo com todas as evidências tudo era ainda insuficiente, alegando-se que a investigação de Diamond era tendenciosa e que tinha uma conotação pessoal contra Money --- e ele também não revelava quem era o gêmeo. Era a palavra de Money contra a de Diamond; e a de Money era muito mais forte.
Então, David Reimer se mostrou, publicamente.
Teve a coragem de revelar sua identidade, apesar do constrangimento pessoal e dos anos de tortura que o traumatizaram inexoravelmente, e permitiu a John Colapinto que escrevesse sua biografia e a publicasse, com fotos, nomes, datas, com total clareza e transparência --- vide Colapinto 2000 --- porque ele não queria que outras crianças corressem o risco de passar pela tortura por que ele passou.
O modelo de Money --- o modelo teórico que advoga a manipulação e a tortura de crianças; a coação e a prepotência autoritária contra o indefeso; o modelo teórico que ignora anos de pesquisas em neurobiologia e endocrinologia molecular; o modelo que ignora e ridiculariza o que diz o paciente sobre si mesmo e sobre sua realidade; o modelo que foi sustentado ideologicamente durante anos, contra o qual não se podia argumentar sem cair no ostracismo --- enfim desaba e se desfaz.
Nós mesmos apresentamos dois trabalhos no XVº Congresso Mundial de Sexologia de Paris em 2001 sobre esse assunto (vide Torres & Jurberg 2001a, 2001b) e percebemos como poucos até agora tiveram acesso a essas informações sobre David Reimer, e parecem ficar aturdidos quando entram em contato com essas novas realidades, e as declarações de David sobre sua vida e sobre a manipulação dos resultados apresentados por Money e colaboradores em 1972 e 1975. Tom Mazur admitiu nesse congresso, em discussão conosco, que a polêmica nos EUA sobre David Reimer está muito intensa, mas em Paris esse debate ainda não havia chegado --- tivemos a honra de estarmos entre os primeiros a divulgar e estender essa polêmica ao âmbito mundial que abrangeu o congresso de Paris.
Esse modelo de Money prejudica pelo menos 14 a 15 milhões de disfóricos de gênero ---vide Torres & Jurberg 2000 --- pessoas que, com ou sem problemas genitais, quer por sua natureza ou por designações cirúrgicas, apresentam sua identidade em discordância de gênero com seus genitais --- entre elas os transexuais (que são 4 milhões no mundo). Fausto-Sterling, 2000 estima que 10 milhões foram artificialmente feitas disfóricas por cirurgias em bebês e crianças.
Depois da revelação de David começam a aparecer os outros casos dos que estavam esmagados pelo status quo, que eram silenciados pelas associações médicas, psiquiátricas e pela academia como poucos radicais insatisfeitos pelo modelo teórico --- vide Fausto-Sterling 2000. Começa a ser ouvida Cheryl Chase e seu movimento de intersexuais americanos mutilados pela técnica terapêutica de Money- a Intersex Society of North America- ISNA, que congrega mais de 1500 intersexuais transgenitalizados quando bebês e crianças (vide Nussbaun 2000; Fausto-Sterling 2000; Colapinto 2000). No Brasil aparece Martha Freitas (vide Freitas 1998) propondo uma nova ótica para o assunto gênero de uma maneira geral e para a situação do transexualismo em particular --- sendo ouvida pelos disfóricos e por poucos não disfóricos. Na realidade, no Brasil desde o início dos anos 80, Quaglia, fundadora do Grupo de Gônadas e Intersexo do HC da USP, já aventava a hipótese de que a identidade poderia ser diferenciada desde o útero e que essa diferenciação poderia vir a se mostrar a causa da transexualidade (vide Quaglia 1980) --- e Quaglia, em sua trajetória também foi pouco ouvida.
Agora existem evidências clínicas além dos resultados da pesquisa neurobiológica e etológica. Agora existem os testemunhos públicos das vítimas que precisam ser ouvidas e não podem mais ser caladas. Cheryl Chase foi recebida em maio de 2000 na reunião havida em Boston da Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society (LWPES), e apresentou uma conferência propondo a centralização do tratamento no ponto de vista do paciente--- vide Fausto-Sterling 2000. Chase tentava ser ouvida desde 1993 sem sucesso. Não aceitar as evidências à partir de agora deixa de ser uma questão científica e passa a ser ideológica e ética.
Como se pode ver, hoje tudo precisa ser repensado. Novos modelos teóricos sobre gênero precisam surgir. O gênero precisa ser melhor estudado, e a neuro-psico-biologia do gênero estudada à exaustão, e desenvolvidos novos modelos mais éticos, científicos e epistemologicamente mais corretos --- que deverão vir a nortear uma nova visão social e jurídica sobre o assunto, além de terapêutica.
Qual a consequência disso?
O transexual, mais respeitosamente reconhecido como disfórico ou neurodiscordante de gênero --- vide Couto 1999; Jurado 1999; Jurado,Quaglia, Ignácio 2000 --- é na realidade um caso de intersexo -- como já antevia Quaglia 1980 --- em que ocorre uma anomalia biológica congênita --- não genital, mas neural de gênero.
Certamente seu problema não é de orientação sexual --- como a hetero, bi ou homossexualidade --- ou de papel social --- como o travestismo --- mas quase certamente podemos afirmar ser biológico. Reconhecendo isso o Conselho Federal de Medicina- CFM publicou sua resolução 1482/97 mostrando que a técnica de correção cirúrgica genital é a fase mais importante no tratamento dos disfóricos, autorizando o desenvolvimento dessas tecnologias no Brasil.
Ao mesmo tempo que a OMS reconhece não ser a homossexualidade uma situação patológica --- portanto não sendo um problema médico em nenhum sentido; o CFM reconhece que o transexual precisa de um tratamento médico e cirúrgico para sua correção --- ou seja, é um problema essencialmente médico.
Depois disso, dá para ainda sustentar a idéia, incluída no modo de considerar o problema no CID-10, de transexualismo ou disforia de gênero como desordem de identidade?
Nós cremos que não: esse é um mito que foi criado artificialmente pela adoção do modelo de Money para a formação da identidade de gênero. E algo de muito grave, do ponto de vista filosófico e epistemológico foi cometido com a adoção desse modelo, e pela forma com que ele foi adotado e incorporado como ciência.
Em epistemologia sabemos bem que uma coisa é a realidade, e outra são os nossos modelos da realidade. A realidade, qualquer que ela seja, desde Kant sabemos ser um númeno desconhecido e incognoscível para o homem. Nós podemos conhecer fenômenos, que são reproduções, ou compreensões do númeno em si incognoscível.
Por isso, em ciência, estamos continuamente criando modelos, numa tentativa de simular a realidade; e conhecendo nossos modelos que se aproximam da realidade, mesmo assintoticamente sem jamais tocá-la, poderemos conhecer alguma coisa próxima da realidade. Mas em ciência temos o hábito de esquecer que usamos sempre modelos, e algumas vezes confundimos o modelo com a própria realidade.
Depois que na física, Newton construiu seu modelo da gravitação universal, um outro grande cientista, Laplace, teve a ingenuidade epistemológica de dizer que em física nada mais precisava ser conhecido, porque já se havia chegado ao conhecimento absoluto. Só faltaria, à partir de então, aplicar o modelo de Newton a todos os casos que aparecessem na física.
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WFTorres (Martha Freitas):
Engenheira pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Filósofa pela PUC, pela Escola Eclesiástica de Filosofia.
Autora de "Meu Sexo Real: a origem inata, somática e neurobiológica da
transexualidade", Editora Vozes, 1998.
Conferencista no 1º Congresso de Intersexo e Disforias de Gênero de
Florianópolis, 1998;
Apresentou trabalho sobre disforias de gênero no VII Congresso Brasileiro de
Sexualidade Humana, 1999, Rio de Janeiro.
Professora de Disforias de Gênero do curso de pós graduação "lato sensu"
de terapia sexual do SBRASH, 1999;
Coordenadora e co-fundadora da Organização não governamental: "Transgender
Brasil";
Colaboradora do site: transgenderbr.cjb.net;desde 1998;
Mestranda em sexologia pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro.
Colaboradora do site: www.apaixonadas.net
Apresentou trabalhos em simpósio sobre problemas de gênero no XV Congresso
Mundial de Sexologia de Paris, junho 2001;
Autora de inúmeros artigos sobre gênero.
Email:
Waleria
Torres
Artigo extraído do site http://waleriatorres.tripod.com.br/