ARTIGOS & TESES
GENEROLOGIA COMO DISCIPLINA EM SEXOLOGIA
Por Waléria F Torres - extraído do site TRANGENDER BRASIL de Verônica Lane
Menino ou menina?
A definição parece óbvia. Mas existem os “problemas de gênero”. Como casos de disforias de gênero (“transexuais”); casos de acidentes com extirpação do pênis, em crianças que passam a ser criadas como meninas, mas mais tarde mostram terem sido sempre meninos; casos de síndrome de Imperato McGinley (IMGS) com total ausência de redutase têm genitais com forma feminina; são criados como meninas, mais tarde expressam sempre terem sido meninos (alguns, mais tímidos, mesmo se reconhecendo meninos, preferem viver escondidos sob um papel de gênero “lésbico”); casos de intersexo devidos à insensibilidade parcial na recepção de andrógenos (PAIS), meninas criadas como meninas, depois confirmam terem mesmo um íntimo feminino. As questões de gênero são complexas e causam, se mal avaliadas, terríveis problemas para as vítimas.
Os exemplos mostram que existe hoje um problema ético no paradigma atual de definição do gênero, que não tem sido considerado. Com o avanço do conhecimento não mais se consegue esconder realidades de discordâncias íntimas conflitantes, antigamente reprimidas, mas a cada dia mais evidentes.
Hoje não é mais aceitável a imposição de um gênero, que agride a integridade da pessoa. O meio moralmente não tem o direito de impor um papel externo, rejeitando a identidade natural. Por isso é importante o estabelecimento de uma generologia. Porque novos paradigmas mais adequados precisam ser estabelecidos, com mudança de referenciais, com conseqüências no Direito.
Gênero e Aparência Genital:
Confundimos gênero com a aparência genital, o que não passa de um mito que se baseia em coincidências. A forma genital é divinizada e de forma anímica adquire vida e identidade próprias (Cassirer, E 1923). Deixa de ser um dos muitos sistemas do corpo humano, que evidentemente é passível de má formação, ou de formação em desarmonia com os sistemas neurais e é visto como uma divindade. Essa divindade tem o poder de gerar o gênero, e a identidade de gênero. Mais recentemente, o mito evoluiu para uma condição em que a identidade de gênero deixou de ser atributo exclusivo dos deuses, e passou a ser influenciada pela criação. Propomos apresentar uma nova conceituação de gênero, com base em nossa realidade biológica, de primatas que somos. De uma posição filosófica menos coisificante. Proporemos que essa nova conceituação venha a ser considerada na declaração da cidadania civil. Evidentemente um sistema de registro civil que incorpore uma nova conceituação de gênero, será muito mais preciso. E por sua própria definição, o registro de identificação civil é um conjunto de atos autênticos, tendentes a ministrar prova segura e certa do estado das pessoas.
O que é Identidade?
Nossa identidade se forma através de processos que se passam na memória (Damásio,1994). Formamos em nosso cérebro, 2 tipos de memórias: Um primeiro tipo, que diz respeito à nossa autobiografia (representações imagéticas), onde se incluem: memória de trabalho (ligada ao córtex pré-frontal); memória perceptiva de longa duração(ligada ao hipocampo); memória não perceptiva ("priming" emocional - ligado às amígdalas e estria terminal; etc); e um segundo tipo (não necessariamente imagéticas) que dizem respeito ao estado do corpo: pré-disposições organizadas em núcleos sub-corticais e basais (tálamo, hipotálamo, tronco cerebral,etc) e imagens corporais, viscerais e de outros tecidos (através de tálamo, hipotálamo e núcleos basais).
Os sistemas corticais e núcleos sub-corticais reagem a estímulos internos e externos, e produzem mudanças no sistema. A percepção dinâmica dessas mudanças Damásio (1994,1998) entende como a formação da subjetividade, e a vivência da identidade. Para Damásio, primatas não humanos possuem sistemas suficientes para gerarem uma vivência de identidade (Damásio, 1998).
Casos de anosognosia, citados por Damásio (1994), mostram que não se forma a identidade numa pessoa que não tem percepção de seu corpo (memórias do segundo tipo); e Ramachandran (1998), à partir de casos de síndrome de Capgras mostra que sem a operação eficiente de amígdalas, estria terminal e hipotálamo (HAL), pode-se perder a noção de auto-identificação e auto-reconhecimento.
Identidade de Gênero:
Pesquisas em primatas não humanos têm mostrado que o HAL de rhesus, entre outros primatas, é sexualmente diferenciado, organizado de forma inata e irreversível, proporcionando como resultado o condicionamento da masculinidade e feminilidade vivenciada pelo adulto (Bonsall,RW et al, 1990; Pomerantz,SM,1985; Pomerantz,SM, 1987, Resko et al, 1988).
Alguns dizem que primatas não humanos não têm identidade (Ehrhardt, AA & Meyer-Bahlburg,HFL, 1981), com o que Damásio (1998) não concorda. Se o primata não humano tiver uma identidade, esta se mostrará gênero diferenciada de forma inata e irreversível, pela organização neuroendócrina do HAL. Sendo o homem um primata com identidade, a mesma situação ele vive. (McEwen,B, 1994;Frankfurt,M, 1994).
Terá a educação o poder de conseguir alterar radicalmente a organização gênero diferenciada inata do HAL? Aprender é reorganizar. Terá a educação, o poder de reorganizar uma coisa organizada neuroendocrinamente de forma específica? Haveria alguma vantagem evolutiva nisso?
Evidências adicionais a favor da organização inata e irreversível, em humanos:
Nenhuma amnésia ou acidente cortical, que afeta mesmo a linguagem e "priming" emocional, afeta a identidade de gênero em seres humanos;
É conhecido que aprendemos uma linguagem com o córtex. Foi sugerido que a criança aprenderia a ser menino ou menina, como aprenderia a falar. Mas isso sabemos não ser possível, porque como se aprende uma linguagem, se pode perder a linguagem.
A Evidência das Síndromes e um Novo Paradigma:
De acordo com o paradigma hoje predominante, se os genitais são femininos, e a educação também, as identidades deverão ser femininas. Mas existem casos que contradizem este paradigma. Os genitais externos são masculinizados pelo DHT, e não por T (Wilson, JD et al, 1981). O inverso acontece no HAL, quando T é o elemento masculinizador (Bonsall,RW et al, 1990). Na síndrome de Imperato McGinley, pela falta hereditária da redutase, T não é metabolizado em DHT, e a genitália externa permanece indiferenciada, sendo mais feminina. As crianças são consideradas meninas e educadas como tal. Mas sistematicamente, depois dos 7 a 12 anos de idade, se mostram meninos, vivem como homens, ou os mais tímidos aceitam viver o papel de “lésbicas”.
Por outro lado, existem inúmeros casos de síndromes de PAIS. Neste caso, T e DHT podem existir em abundância, mas não provocam efeito pleno. Nem nos genitais, nem no HAL. Os genitais, como nos casos de Imperato McGinley, permanecem femininos, e as crianças, são reconhecidas e criadas como meninas. Com o tempo, na quase totalidade dos casos se mostram efetivamente meninas, sem nenhuma disforia de gênero (Pinsky,L & Kaufman,M,1987).
Qual a diferença entre essas crianças? Não nasceram todas com genitais reconhecidamente femininos? E não foram todas criadas igualmente de forma feminina? Em vários países, em várias culturas, por todo o mundo? Qual a diferença entre elas? Por que umas são disfóricas e outras não? Elas não se adaptam ao paradigma atual. Entre elas, tudo é muito parecido, menos a organização do HAL que é totalmente diferente. Este fato e todos os demais já avaliados mostram que gênero é um caso típico de adoção de um novo paradigma.
Papéis de Gênero:
A criança expressa sua identidade, pela maneira de brincar e se expressar. O macaquinho, quando brinca, expressa sua realidade. Essas características infantis são a expressão da verdadeira identidade de gênero (numa sociedade). Justamente a criança expressará sua identidade (sua realidade, como se vê, como se sente), pela forma como se portará na infância. As crianças com problemas de gênero evidenciarão justamente por sua expressão na infância, e mesmo na meninice, a existência de problemas (acima de 7 anos,na síndrome de Imperato McGinley; de 5,6,7 anos em diante, nos casos de neurodiscordância). Crianças que se esperava fossem masculinas evidenciarão uma feminilidade inesperada, e vice versa. O paradigma atual prescreve que essa criança deverá ser pressionada a “corrigir” sua identidade; a “aprender” uma identidade mais adequada. Deverá aprender um papel que esconda a verdadeira identidade. Assim começa a criança a ser torturada (acham que condicionando, poderão mudar a organização de seu HAL).
A partir desse equívoco, hoje em dia se tem dificuldade em compreender problemas de gênero. Tudo parece um mistério. Apenas:
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Gênero e identidade de gênero, dizem respeito a quem cada ser humano é. Orientação sexual diz respeito a com quem a pessoa se relaciona.
Existem homens que gostam de se relacionar com mulheres. Outros, com mulheres e com homens. Outros preferem homens. Outros têm horror de mulheres. Outros gostam de uma cabrita, outros de uma boneca de plástico, outros, mas todos, são homens. Têm um HAL masculino, e (geralmente) genitais masculinos, com os quais estão satisfeitos.
Existem problemas de gênero, mas não existem problemas de orientação sexual. Orientação seja homo, bi ou hétero, simplesmente erótica ou efetivamente sexual, nunca constitui um problema. Constitui uma tendência filética, ou mesmo um costume cultural, mas não um problema. Quem mostra isso é a natureza. Através de um outro descendente do chimpanzé: o bonobo. Na natureza, o chimpanzé tem um comportamento heterossexual numa sociedade violenta. O bonobo é sistematicamente bissexual, há mais de 2,5 milhões de anos, numa sociedade sem violência (justamente a bissexualidade da espécie foi o elemento que desarmou a violência). A descoberta do bonobo, pouco divulgada na mídia, revolucionará todos os conceitos sobre as origens da hétero, bi e homossexualidade. Naturais, todas são. Patológica, nenhuma é. E não têm nada a ver com disforias de gênero.
CONCLUSÃO:
Temos evidências suficientes para postularmos uma generologia, e com ela sugerimos a adoção de um paradigma mais adequado de conceituação de gênero, no nível biológico, com conseqüências no psicológico, sociológico e jurídico, levando em consideração o HAL generodiferenciado inata e irreversivelmente. Existe um campo aberto para o detalhamento do conhecimento das situações diferenciadas de gênero.
Propomos uma generologia como disciplina, como uma porta para o desenvolvimento de novas investigações que levem em consideração a vivência das vítimas de problemas de gênero; incluindo-se a preparação entre os sexólogos de terapeutas de gênero, aptos para avaliar as mais variadas situações.
Como novo paradigma, propomos a mudança do referencial da conceituação de gênero, do eixo genital, para o eixo gênito-neural.
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Atualizada em 08/12/2004