ARTIGOS & TESES

Organização e manifestações clínicas do desvio sexual na infância

As perturbações da identidade sexual que se manifestam nos estágios iniciais do desenvolvimento podem ser distinguidas de acordo com a sua expressão sintomática, época de aparecimento, defesas predominantes e pontos de origem. Sempre que nos defrontamos em nossa atividade clinica com pacientes cujo motivo de consulta aponta nesta direção, devemos ter em mente que estes desvios têm, como condição apriorística para o seu surgimento, uma distorção profunda da matriz familiar ao nível das identificações. Em Glasser (1985), por exemplo, encontramos uma definição sumária segundo a qual as perversões podem ser entendidas como transtornos da identificação". Aqui, evidentemente, quando se fala em matriz familiar, alude-se às pessoas que diretamente desempenham as funções parentais junto à criança, o que em alguns casos pode restringir-se unicamente a um dos pais e às vezes a um substituto com ou sem parentalidade biológica.

Sabemos que a designação do sexo pelo ambiente é um determinante primário da orientação genérica a ser seguida pela criança, e que esta pode, inclusive, opor-se à sua constituição biológica. Os trabalhos de Stoller com pacientes intersexuados (pseudo-hermafroditas) evidenciam que a identidade de gênero é inscrita e sustentada em seu desenvolvimento sobretudo pelo mandato do desejo familiar: masculinizante ou feminilizante; o que o leva a afirmar que a anatomia não é o destino" (Stoller, 1975).

De acordo com as variações na organização primária das relações de objeto e na forma como se internalizaram os esquemas relacionais dos primeiros anos de vida, a criança encontrará maior ou menor facilidade para tornar compatíveis seu sexo e seu gênero, ou seja, sua constituição biológica e sua disposição psíquica.

Se a identidade sexual, como hoje a compreendemos, é passível de fixar-se de forma pictográfica na fase inaugural da vida através do processo originário, o qual, como nos diz Aulagnier (1975), constitui um fundo representativo primário, é certo que este introjeto primordial anterior às representações por fantasia ou ideação correspondentes aos processos primário e secundário exercerá uma influência permanente, se não decisiva, sobre os patterns posteriores de escolha e relação de objeto. A articulação, em etapas iniciais do processo evolutivo, de defesas relativamente estruturadas tendendo a uma estereotipia dinâmicofuncional permite-nos falar em manifestações perversas que excedem de forma importante a comum atividade erógena dos anos de infância. Como, porém, tais manifestações desviantes na criança possuem ainda alguma plasticidade, permitindo mesmo uma aproximação terapêutica efetiva em significativa parte dos casos, prefiro referir-me a estes distúrbios como organizações, e não como estruturas, o que parece me sugerir uma maior mobilidade psicodinâmica, não obstante alguns autores utilizem ambos os termos indistintamente.

Gostaria de ressaltar que os tipos de manifestações perversas excedem em muito, por sua diversidade fenomênica, aos tipos de organizações com as quais podem estar associadas. As particularidades da organização perversa, de seus determinantes históricos e conjunturais, deveriam possibilitar-nos distingui-la especificamente de categorias outras, como as psicoses ou sociopatias, em que a conduta sexual desviante pode ser eventualmente observada. É pertinente acrescentar, no entanto, que na infância inicial estes quadros clínicos podem não estar bem caracterizados, sendo possível diferenciá-los no plano diagnóstico somente após um atento acompanhamento e observação cuidadosa durante algum tempo.

Concordando com Goldstein & Baranger (1989), entendo que o conceito de perversão envolve sempre a questão sexual, não incluindo portanto as diversas formas de manifestações destrutivas e criminais em que este elemento não é preponderante, para as quais já tem sido proposto o termo "perversidade". Não creio também que o termo perverso possa ser designativo para qualquer manifestação da sexualidade que não siga os padrões heterossexuais convencionais. Se a conduta fetichista e travestista, por exemplo, está associada freqüentemente a uma organização assim referida, o mesmo não acontece com a homossexualidade, que não necessariamente pressupõe uma perversão, podendo expressar também um sintoma neurótico transitório ou permanente.

A seguir considerarei as diferentes formas clínicas pelas quais se dá a conhecer a "organização perversa" nas etapas progenitais do desenvolvimento. Terei por critério transitar pelo espectro das manifestações desviantes, iniciando pelos quadros clínicos que mais se aparentam fenomenológica e estruturalmente aos transtornos psicopatológicos maiores - as psicoses - indo até as apresentações sintomáticas mais próximas às das organizações neuróticas, em que talvez nos vêssemos limitar a designar como perversa unicamente a conduta, às vezes circunstancial.

TRANSEXUALISMO

O termo transexualismo, criado por Benjamim (1964), tem se prestado a diversos usos, distorções e mitificações. Originado num contexto clínico psiquiátrico em que se avaliava em adultos a oportunidade de uma cirurgia "corretiva" de sexo que, supostamente, traria a felicidade a um invertido condenado pela anatomia, o transexualismo foi estudado entusiasticamente por um grupo de psicanalistas norte-americanos na década de 60.

A utilização deste conceito clínico para a classificação diagnóstica na infância, ou para a prognose de transexualismo adulto em meninos muito efeminados, implica num necessário questionamento com referência à sua especificidade estrutural e à sua utilidade clínica.

Os autores que adotam esta terminologia diagnóstica apresentam este transtorno como a manifestação mais radical de feminilização do menino. Benjamin descreve os como pessoas de sexo masculino que mesmo sabendo se homens e biologicamente normais encontram-se profundamente inconformados com seu sexo biológico e desejosos de modificá-lo. Desde muito cedo estas crianças manifestam repúdio pe los genitais e anseio permanente de serem meninas, conduzindo-se como tais e de forma não afetada. Observa Stoller (1975) que estes meninos comumente são muito bonitos; mesmo que não o sejam, objetivamente, apresentam-se aos olhos da mãe como fisicamente perfeitos. A beleza real da criança e as disposições presentes na mãe e no pai (matriz identificatória) seriam o "combustível" e a "centelha" para o desencadeamento do processo de feminilização.

As mães destas crianças costumam ser mulheres cronicamente deprimidas, com importantes deficits narcisistas e freqüentemente com conduta viril presente ou passada. Com relação ao filho apresentam uma expectativa messiânica de restauração fálico-narcísica que as leva a crerem-no um semideus quando nasce. Este é convertido então no "falus feminilizado" da mãe, com o qual se estabelece uma relação vivenciada por ambos como perfeitamente harmônica. É necessário para isso que qualquer esboço de virilidade seja desencorajado sistemática e antecipadamente por sutis condutas maternas que evitam à mãe o insuportável reconhecimento da masculinidade do menino. A extrema simbiose que se instala entre ambos é comparada por Greenson (1966) à dos cangurus com suas crias, onde o filhote se desenvolve no interior da bolsa marsupial, mantendo com a mãe a maior proximidade física imaginável durante um período prolongado.

O pai, como função e freqüentemente como pessoa, é totalmente ausente neste contexto. A relação pai-filho não tem registro como tal na experiência psíquica da criança. Observe-se que aqui não há um "enfraquecimento" da imago paterna, ela simplesmente não existe" no universo fantasmático da criança que, via de regra, se defrontará pela primeira vez com um homem passível de ser assim significado durante a psicoterapia. Este pai só foi na verdade escolhido por suas características pessoais de alheamento, de omissão e de passividade, que foram suportáveis à esposa e favoreceram posteriormente o idilio ex-tático e excludente entre mãe e filho. Não obstante, a homossexualidade paterna, latente ou manifesta, é menos comum nestes casos do que nas aberrações sexuais perversas em que, segundo Stoller (1975), intervém a ansiedade de castração (travestismo, fetichismo). O transexualismo primário, para Stoller, não seria uma perversão, como também não seria uma psicose.

Stoller toma emprestado o conceito de imprinting da etiologia para dar uma idéia de como desde os primeiros instantes de suas vidas estes meninos recebem impressões e sinais de suas mães que lhes sugerem sempre a adoção de comportamentos femininos, embora não se observem manifestações de hostilidade da mãe para com a criança. Elas os feminilizam sem castrá-los. Esta relação, insolitamente harmônica, parece aproximar-se da idealmente descrita por Freud como livre de ambivalência, entre a mãe e o primogênito homem (Stoller, 1969).

Ao avaliarmos uma criança com estas características teríamos a impressão de estar efetivamente observando uma menina. O comportamento seria suave e natural, sem simulação, os gestos delicadamente femininos, sem a afetação do efeminado ou a excitação da criança travestista. O intenso sofrimento destes meninos começaria com o início da vida escolar, que quebra a serenidade do convívio simbiótico com a mãe e expõe a criança a sucessivas humilhações, às quais ela própria parece não entender, e que a levam pela primeira vez a tomar consciência através do convívio com os outros (o que raramente é favorecido antes dessa idade) da sua atipia.

Os casos mais conhecidos comunicados na literatura são os de Lance, um menino de cinco anos, tratado por Greenson (1966) em análise, e o de Nikki, cuja história pessoal é relatada por Stoller (1975).

Lance foi tratado por apresentar uma compulsão travestista que se expressava de forma aberrante e que era acompanhada por interesses e comportamentos feminóides generalizados, francamente incentivados pela família. Tinha uma identificação intensa com a boneca Barbie, com a qual às vezes parecia confundir-se. Greenson entendeu que o transexualismo de Lance se devia a um contato exageradamente próximo com uma mãe possessiva, que o engolfava totalmente em termos táteis, visuais e afetivos, e à existência de um pai desprezado, fracassado e isolado na família.

Nikki, cujo nome é a contração de "Verônica", nome que a mãe desejava dar a uma filha, começou a ser observado com quatro anos, quando tinha já uma identidade totalmente feminina. Ele era vestido permanentemente de mulher pela mãe, que o maquiava e o registrava nos hotéis como menina, quando viajavam. Nikki gostava de usar vestidos românticos e de ter o cabelo longo pela cintura. A distorção extrema da identidade sexual de Nikki parecia estar claramente relacionada à relação intensamente simbiótica com a mãe, uma desenhista de moda, e à ausência do pai, um empresário mais velho que achava a família maçante.

A hipótese clínica do transexualismo como estrutura é dificilmente sustentável, sobretudo por seus estritos critérios diagnósticos que são raramente satisfeitos pela experiência. As noções de uma "simbiose feliz", de uma "feminilização sem castração", de "ausência absoluta de registro paterno", de "travestismo sem excitação" (que nem mesmo os dois casos citados corroboram) têm sido contestadas clínica e teoricamente por diversos autores.

A respeito disto, afirma Dór (1987): "Somos tentados a situar a problemática transexual neste entremeio que assinala a linha divisória das perversões e das psicoses". O autor claramente alude aqui à ilusão/convicção delirante que produz no imaginário infantil a demanda da troca de seu corpo por outro corpo. Como não ver aqui um fracasso dos processos de personalização e de realização na constituição do psiquismo infantil?

Citando Czermak, escreve Dór: "Esta virtualidade transexual é o que me parece presente em toda psicose sob a vaga forma daquilo que se costuma chamar de homossexualidade psicótica. Do mesmo modo que o delírio interpretativo é uma das formas de cristalização da psicose, o transexualismo é uma outra, cujos termos estão presentes na própria margem de toda psicose".

Para Millot (1983), o transexualismo é algo que vem em resposta ao sonho de apartar, e inclusive de abolir os limites que demarcam a fronteira entre o real e o imaginário. A autora lembra que "os primeiros casos de transexualismo relatados pelos psiquiatras e sexólogos parecem ter sido casos de psicose", e acrescenta que já Lacan sustentava que na psicose havia uma forte pendência para o transexualismo, apresentando o caso Schreber, com seu delírio nuclear de transformação, como ilustrando exemplarmente esta possibilidade.

Relativamente a este aspecto, Galenson & Roiphe (1984) dizem-se céticos com relação à reconstrução Stolleriana de uma "simbiose excessivamente íntima e feliz". Afirmam: "Tudo o que sabemos sobre as mães bissexuais e cronicamente deprimidas dos transexuais sugere que existe uma simbiose altamente perturbada e comprometida com uma distorção significativa na subsequente separação-individuação e nas fases iniciais do desenvolvimento genital".

Da mesma forma, Lothstein (1988) sustenta que .05 distúrbios da identidade de gênero são conseqüentes a importantes falhas no processo de constituição do self nuclear e a deficiências empáticas dos self-objetos que determinam uma integração egóica e narcísica precária.

Vemos, portanto, o quanto o estatuto nosológico do transexualismo como entidade psicopatológica fica essencialmente abalado por sua inconsistência clínica, diagnóstica e metapsicológica. Procurarei, nas manifestações clínicas estudadas a seguir, à medida em que se esclareçam as condições intrapsíquicas e interpessoais que estão na base da organização e manifestações desviantes, mostrar ao leitor que o transexualismo não satisfaz os requisitos diagnósticos para uma organização, evidenciando, sim, o fracasso de uma defesa perversa ou uma psicose monossintomática delirante.

TRAVESTISMO

É comum na literatura psicanalítica, em que este transtorno é descrito e estudado, relacioná-lo tradicionalmente com as ansiedades de castração da fase edípica. Vários autores coincidem ao situar o aparecimento do sintoma entre os três e os cinco anos, diferentemente do desvio anteriormente descrito, onde em alguns casos a femínilização do menino pode ser observada ainda no primeiro ano de vida. No entanto, numerosos estudos sobre as condições de gênese da conduta travestista cada vez mais apontam que o comportamento desviante pode ocorrer em muitos casos nas etapas primitivas do desenvolvimento, principalmente durante o processo de separação-individuação. Deve-se perguntar, em face do já dito, se as descrições de condutas travestistas infantis precoces, eventualmente entendidas como prognosticadoras de um transexualismo adulto, não prenunciam de fato uma perversão travestista nos seus estados Iniciais.

Stoller (1975) entende o travestismo infantil como uma reação defensiva do menino frente a uma situação traumática precoce. Classifica essa manifestação clínica como perversa justamente por sua etiologia traumática (ameaças à integridade física e/ou psíquica), distinguindo do transexualismo, onde acredita não existirem circunstancias traumáticas originais.

Ao travestista foi permitido até certo ponto desenvolver a masculinidade, digamos, até o momento em que a mãe a suportou. Quando a masculinidade do filho provoca nela desejos hostis de vingança, ela o ataca através de manobras humilhantes e desvirilizadoras. É comum que a criança seja travestida pela mãe ou exposta por ela a situações degradantes para um menino. As mães são mulheres que apresentam manifesta competitividade com o sexo oposto, estrutura de caráter fálico-narcisista, precavendo-se constantemente contra possíveis humilhações provindas de um homem. Os pais, embora possam apresentar-se aos olhos do filho como rígidos ou severos, são homens com grande vulnerabilidade narcísica e participam ativamente na subjugação perversa da criança.

Entre as circunstâncias traumáticas, além do travestismo inicialmente introduzido na vida da criança pela mãe ou por terceiros e das perdas e privações primitivamente sofridas, Stoller (1989), num de seus últimos artigos sobre as origens do travestismo masculino, aponta como fatores potencialmente indutores de defesas e estruturações perversas as cirurgias (às vezes desnecessárias) realizadas em idade precoce. Estes fatores são também confirmados como componentes genéticos da conduta travestista infantil por outros autores como Greenacre (1968) e Arbiser (1988).

O que parece ser um ponto de consenso entre os autores é que o travestismo infantil evidencia em suas origens e manifestações um processo de individuação intensamente dominado pela angústia de separação. Roiphe & Galenson (1984), relatando sua experiência clínica com pacientes travestistas, dizem que "alguns desses meninos, face à considerável intensificação da ansiedade de perda objetal, desenvolveram uma profunda identificação com a mãe, expressa na emergência de um travestismo persistente, que sugeria um desenvolvimento travestista ulterior" Arbiser (1988) sugere que o ritual travestista só aparentemente pode-se apresentar como uma defesa contra a castração; quando a defesa fracassa reaparece a compulsão à repetição com a emergência de angústias mais primitivas que estão em jogo e que remontam aos estágios anteriores.

É comum que os autores equiparem travestismo e fetichismo no comportamento infantil e abordem, às vezes de forma indistinta, a ambas as manifestações. Stoller chega mesmo a propor a expressão travestismo-fetichismo, com a qual não concordo e cuja divergência pretendo justificar. Acredito que o fato de que uma criança necessite transvestir-se totalmente com as roupas de sua mãe, ou irmã, enquanto que outra excita-se e tranqüilizar-se unicamente em manipular eroticamente uma parte do vestuário ou um único atributo feminino disponível, deve necessariamente levar-nos a supor que o travestismo evidencia uma ameaça vivida de aniquilamento self-corporal de muito maior intensidade e características regressivas do que a angústia d~ terminante da conduta fetichista. No travestismo a criança revestir-se inteira e concretamente com a pele/roupa da mãe, conforme propõe Greenson (1966). Há uma sobreposição completa da idealizada imago materna - à qual a criança aferra-se pelo temor de perde-la - à frágil e precária identidade subjetiva e sexual que a criança constituiu. A criança introduz-se no corpo da mãe, diz Glasser (1985). O travestismo serve à função de uma segunda pele, conforme estudada por Bick (1968). Meltzer demonstrou clinicamente o aparecimento de manifestações travestistas em crianças pós-autistas, evidenciando seu significado primitivo como condição psíquica que se impõe para o início do estabelecimento de relações baseadas na identificação projetiva com os objetos parciais (Meltzer, 1984).

No caso clínico de Tim, relatado por Stoller (1989), a hostilidade materna, presente desde o início na relação com o filho, construiu uma história de sucessivas humilhações e descasos, que se originavam numa "superidentificação" da mãe com o menino. Isso fazia com que existisse uma proximidade especial entre eles, construída não a partir de simpatia ou amor, mas do desprezo que a mãe sentia por si própria e que era o mesmo que sentia pelo filho de forma projetada. Ela assim tratou seu narcisismo ferido, permitindo que o filho fosse travestido e triunfando maniacamente sobre seu passado. Tim, por sua vez, triunfa sobre o trauma elaborando seu ódio através do ritual travestista. Ao olhar-se no espelho, travestido, fixava ali a imagem composta filho-mãe de cuja unidade buscava repetidamente reassegurar-se.

Além do aparecimento precoce durante o processo de dessimbiotização, o travestismo infantil tem por condição para o seu diagnóstico, como frisa Anna Freud (1965), a erotização excitatória do ato de vestir-se com roupas femininas.

Sperling (1974) sublinha que não se poderá diagnosticar travestismo sem a observância de excitação ou se no menino houver desejo expresso ou não de extirpação dos genitais. O pênis é um órgão fundamental na composição desta ilusão perversa. A autora entende que a imagem da mulher fálica unisse na fantasia da criança à imagem do homem com seios (pai pré-genital); a criança não quer pertencer a um sexo ou outro, mas a ambos. Relaciona este desejo à onipotência e à ganância oral de ter em si tudo, o que sugere pontos de fixação nas fases mais primitivas do desenvolvimento. Como McDougall (1978), Sperling descreve o alentamento por parte da mãe a um desenvolvimento bissexual do filho, desaprovando suas tentativas de identificação paterna que, não obstante, estão presentes, apesar dos ataques deflagrados por ela ao pai que adquire aos olhos do filho uma valência negativa. A negação e o repúdio onipotente do pai na realidade psíquica da criança numa época em que o anseio de identificação masculina é presente mas desalentado pela mãe - e o atentado sofrido à masculinidade podem ser responsáveis pela conduta masoquista dessas crianças que tendem repetidamente a provocar situações de maltrato.

No caso de Tomás, um menino de quatro anos e dez meses, que Sperling analisou após analisar a mãe (método que propõe), os sintomas travestistas estavam presentes desde os três anos. Tomás gostava de usar as roupas de sua irmã, calcinhas, camisola, etc. Tinha a fantasia de que nascera menina e só posteriormente convertera-se em menino. Costumava dizer "quando eu era menina...". As angústias e temores que imaginariamente aterrorizavam Tomás eram de origem mais primitiva do que a angústia de castração, e relacionavam-se a distorções e danos precoces à imagem corporal, como atesta a fantasia de ter sido inicialmente uma menina. A preocupação pela integridade corporal desempenha neste caso uma função central. Assim como temia danos físicos, Tomás também se excitava com a fantasia de ser castigado fisicamente e machucava-se, efetivamente, com muita freqüência. Na descrição que Sperling faz da mãe, como uma mulher robusta, de cabelo curto e ternos de alfaiate, e do pai como um homem pequeno, frágil e de feições delicadas, encontramos na realidade externa as condições favorecedoras de um desenvolvimento interior de tal forma perturbado e com uma produção fantasmática eventualmente delirante.

Os quatro artigos conhecidos publicados por Sperling sobre o desvio sexual na infância são extremamente valiosos pelo detalhamento clinico e pelas conclusões teóricas que disto extrai. Os possíveis pontos questionáveis de sua teorização abordarei a seguir na apresentação e discussão do fetichismo infantil.

FETICHISMO

Talvez pelo fato de o fefichismo ter sido tomado como o protótipo de toda a perversão, desde o trabalho de Freud de 1927, é também a forma de manifestação perversa infantil mais precocemente estudada pelos psicanalistas e talvez a que mais divergências teóricas tenha produzido.

O primeiro artigo escrito por um psicanalista e publicado em um periódico psicanalítico, que descreve a conduta fetichista infantil, data de 1930, e é de autoria de Lorand, tendo por título Fetichism in statu nascendi. De acordo com a compreensão de Freud do fetiche como representando o pênis ilusório da mãe, Lorand descreveu o comportamento compulsivo da criança, que tinha um apego fetichista por sapatos.

É interessante a descrição dos pais exibicionistas e demasiadamente permissivos em seus contatos com a criança, evidenciando um funcionamento familiar perverso.

Em 1946, uma comunicação importante sobre o fetichismo infantil é feita por Wulff, que, além de caracterizar clinicamente a conduta desviante, formula uma hipótese genético-dinãmica sobre as origens do fetiche. Segundo Wulff, o fetiche pode representar um substituto do corpo da mãe, de uma parte (conforme com a hipótese freudiana), ou de sua totalidade. Wulff propõe uma espécie de genealogia do fetiche, interpretando seus diferentes significados e formas de expressão nas distintas fases do desenvolvimento. Na sua origem o fetiche se relacionaria a ansiedades da fase oral, ligadas à amamentação e ao desmame. Durante a fase anal o fetiche serviria aos propósitos de retenção e posse do objeto, insuficientemente estabelecido na sua totalidade. Na fase fálica, as angústias mais primitivas encontrariam um suporte no penis, com o incremento dos temores de castração e busca de reajustamento através do fetiche equiparado na fantasia ao falo. A descrição, porém, que faz Wulff dos "objetos-fetiche" em seus estágios iniciais parece aproximá-los dos objetos transicionais encontrados no desenvolvimento normal.

Quando Winnicott, em 1951, publica seu artigo sobre os objetos transicionais e fenômenos transicionais, questiona a conotação patológica atribuída por Wulff ao apego da criança pequena a alguns objetos inanimados dos quais se tornará adicta. Esclarece Winnicott: "o objeto transicional de um bebê normalmente se torna gradativamente descatexizado, especialmente na medida em que se desenvolvem os interesses culturais (...) A adicção pode ser expressa em termos de uma regressão ao estágio primitivo no qual os fenômenos transicionais são incontestados (...) O fetichismo pode ser descrito em termos de uma persistência de um objeto ou tipo de objeto específico, que data da experiência infantil no campo transicional, ligado a um delírio de um falo materno". O fetiche, para Winnicott, portanto, se constituiria mais bem numa patologia do objeto transicional, caracterizado pela sua persistência ao longo do tempo e pela distorção de sua finalidade.

Em 1960 Winnicott descreveu o caso de um menino que apresentava uma obsessão por cordões, que com muita freqüência costumava amarrar os móveis uns aos outros dentro de casa, e cujas fantasias se associavam a maior parte do tempo a cordões ou similares. Investigando a história do menino, Winnicott descobriu que ele havia passado por várias situações de separação traumática de sua mãe, desde os três anos, por repetidas hospitalizações desta. Além das importantes alterações de seu estado de humor, e do uso do cordão, este menino apegava-se desesperadamente a ursinhos de pelúcia, que tratava como pessoas, e retinha as fezes. Através de entrevistas com a família, em que os esclareceu sobre a relação entre estes sintomas, as separações e as angústias que estas haviam produzido, Winnicott conseguiu intervir de forma a propiciar que mãe e filho abordassem, em conversa, as situações de ruptura, e dessa forma o menino evoluiu favoravelmente. Entendeu Winnicott que a patologia do objeto transicional, o uso do cordão, relacionava-se à necessidade de negar a separação e que esse desvio poderia conduzir ao desenvolvimento de uma perversão.

Em 1963, Sperling criticou duramente a formulação de Winnicott sobre a transicionalidade e, concordando com Wulff, escreveu: "É minha opinião que Winnicott criou muita confusão ao chamar a estes fenômenos e objetos de transicionais. Segundo acredito, são manifestações patológicas de uma perturbação específica da relação de objeto". Conforme Sperling, os conceitos de Winnicott são equívocos e perigc505, e avaliam erroneamente o significado e a função das manifestações infantis do fetichismo.

Greenacre, que ocupou-se com as origens do fetichismo em vários artigos, abordou as relações entre fetiche e objeto transicional em dois trabalhos (1969, 1970). Salienta Greenacre que ambos os fenômenos mostram marcadas diferenças. Segundo entende, o aparecimento do fetiche associa-se à imagem de uma mãe não suficientemente boa e incontinente com seus sentimentos agressivos, suas angústias e frustrações, o que pode dificultar o desenvolvimento da criança ocasionando uma erotização sadomasoquista prematura, algumas vezes associada com uma genitallzaçáo precoce. Para Greenacre, a intensificação da atividade auto-erótica encontra sua função defensiva no controle da tensão e assume padrões mais ou menos automatizados. Mesmo quando um objeto externo ao corpo tenha sido escolhido, sua forma e seu uso são mais concretizados e podem adquirir a característica de um fetiche infantil".

A erotização, pois, parece ser uma distinção importante entre o uso de objetos inanimados com objetivos transicionais e fetichistas. Encontramos também em Greenacre uma referência à época do apego ao objeto como um elemento diferencial. Ela escreve: "O fetiche conduzindo à perversão torna-se manifesto somente no período em que o objeto transicional está perdendo a sua importância funcional". A partir de sua experiência clinica, Greenacre diz ter constatado que nos desenvolvimentos perversos ocorre freqüentemente uma exposição demasiada do corpo nu da mãe ou de seus genitais à criança, o que seria uma influência perturbadora precoce e produziria um impasse no desenvolvimento psicossexual. Esta observação confirma as anteriormente referidas sobre a natureza eroticamente estimulante, porém hostil, da atitude parental e a ambivalência intensa presente nestas reações.

Greenacre afirma que a criança fetichista possui uma distorção importante na organização da imagem corporal, decorrente dos padrões relacionais que descrevemos, e que o fetiche por sua solidez e durabilidade serve para "consolidar a ilusão de uma suplementação materna para o próprio corpo em crianças pequenas cuja relação precoce com a mãe não foi suficientemente boa". O objeto transicional permite uma gradual aproximação da realidade externa, uma ampliação do interesse da criança pelo ambiente, com um conseqüente afastamento do corpo da mãe; diferentemente do fetiche que, expressando dramaticamente a angústia da criança numa dessimbiotização vivida como desgarramento, em sua utilização compulsiva busca permanentemente reparar uma ilusão de defeito egóico e corporal.

Parece-me importante a revisão da literatura, com vistas a uma maior precisão conceitual, que faz Bak, em seu artigo "Distortions of the Concept of Fetishism" de 1974. Bak critica o que chama de "superextensão" do conceito de fetichismo, e principalmente a tendência de outros autores a interpretarem o apego da criança a objetos inanimados, nas etapas iniciais do desenvolvimento, como fetichismo. Bak insiste em que o fetiche possui uma função essencial e uma fase específica: a defesa contra a ansiedade de castração intensa que se manifesta na fase fálica. Discorda, portanto, de autores como Gillespie (1940) e Weissman (1957) (citados por Bak), que ressaltam a predominância de fatores orais e relacionam o fetiche a tentativas de identificação do ego com um "seio bom".

Bak busca deixar claro que as manifestações que se costumam descrever como fetichistas e que aparecem aos 4 ou 5 anos, acompanhadas de uma excitação sexual difusa, não necessariamente conduzem ao fetichismo adulto. Salienta que, embora essas manifestações possam conter os mesmos significados simbólicos e geneto-dinâmicos, a quantidade de investimento e as necessidades defensivas podem reduzi-las a meras tendências. Não se poderia falar num fetichismo verdadeiro. Para Bak a condição sine qua non do fetichismo é a ansiedade de castração durante a fase edípica. O que precede a fase fálica não é específico do fetichismo, os chamados fetiches pregenitais defendem contra a separação, a perda objetal, a privação, a perda da integridade corporal, contrariamente ao que pensa Bak quando diz que somente se poderá falar em fetiche infantil se o objeto servir à estimulação genital.

Sem necessariamente posicionar-me com relação à época exata em que se pode passar a falar em fetichismo infantil, acredito serem importantes as manifestações pré-genitais que Bak descreve como precursoras do fetichismo infantil propriamente dito. Ele sugere que a relação mãe-filho que favorece o surgimento do fetiche se caracteriza pela presença de "objetos protéticos". Estes objetos são antes objetos dados ou sugeridos pela mãe do que objetos criados pela criança, como seria um objeto transicional. É interessante a relação que faz entre os cuidados maternos primários e o aparecimento das sensações genitais na criança. Diz Bak que "é provavelmente mais do que uma metáfora que neste estágio a sexualidade da criança (ou a esquematização genital) está na mão das mães. A vulnerabilidade específica desta fase pode ser contingente com a emergência da representação do objeto predominantemente separado". Por isso o trauma do abandono se relaciona ao incremento da angústia de castração, pois a masturbação compulsiva ou a atividade fetichista buscam reinstalar a presença e a estimulação sensual que o objeto assegurava, de forma autoplástica.

Numa publicação relativamente recente, Stoller (1989) relata um caso de fetichismo infantil que questiona algumas das hipóteses anteriormente expostas, sobretudo por se tratar de um menino que manifestou a conduta fetichista com a idade de dois anos e meio.

Stoller pretende demonstrar que Mac era efetivamente perverso, e não apenas apresentava precursores pre-edípicos da perversão, neste estágio precoce do desenvolvimento. Segundo Stoller, "Em virtude de sua relação com a mãe, induzida precocemente, impregnada de erotismo, mutuamente necessária, carregada de ambivalência, uma relação que o levou a desenvolver um fetichismo erótico, ele merecia ser considerado um perverso". Concorda o autor, porém, que seu fetichismo não pode ser igualado ao fetichismo do adulto.

Os sintomas de Mac aparecem na época em que infelizmente coincidem, em sua vida, o nascimento de um irmão com o seu ingresso numa escola maternal. A angústia gerada por esta situação desencadeia em Mac o comportamento perverso, que consistia num intenso interesse nas meias e nas pernas de sua mãe, cujo contato direto o deixava muito excitado, chegando à masturbação.

Nas situações enumeradas por Stoller como potencialmente traumáticas no desenvolvimento inicial de Mac, aparecem: adoção, circuncisão, mudança de residência, situação em que perdeu-se da mãe, d~ pressão puerperal, simbiose ambivalente e intensa angústia de separação.

A mãe do menino (analisada por Stoller) é descrita como uma mulher triste e atemorizada, que havia tido uma infância infeliz e que buscava na relação com o filho a cura para sua depressão; tratava-o como um fetiche, uma parte dela ou um objeto ideal, externo a ela, mas que estava sendo permanentemente aspirado para o seu interior. Essa descrição concorda com as de Khan (1979) e Chasseguet-Smirgel (1984) sobre as características da relação estabelecida entre o futuro perverso e sua mãe. Mac é descrito pela mãe como "deslumbrante", "fisicamente lindo", com "pele maravilhosa", mas ao mesmo tempo em que serve de objeto à projeção de uma idealização narcísica é também hostilizado como uma parte injuriada do self da mãe. Neste caso, entende o autor que a ameaça de castração provinha da mãe. Com uma frase, sintetiza as peculiaridades dessa relação: "Ela o ama do modo como sente que sua mãe não podia amá-la e o odeia do modo como odeia a si própria". Mac esteve em tratamento durante um ano e meio com um colaborador de Stoller, tendo uma evolução razoável, mas sem alteração do comportamento fetichista.

EXIBICIONISMO-VOYEURISMO E SADISMO-MASOQUISMO

As manifestações clínicas que busco neste tópico abordar são ilustrativas das que Freud, em 4905, referiu como configuradoras de paresantitéticos, nos quais ambos os comportamentos, o ativo e o passivo, aparecem comumente associados. Freud dizia que um sádico é sempre um masoquista e um escoptofilico é freqüentemente um exibicionista, achando o fim sexual um duplo desenvolvimento em que as condutas perversas se alternam.

Como afirma Ajuriaguerra (1983) ao estudar os desvios da orientação sexual na infância, o desejo de ver, tocar, exibir-se, faz parte da curiosidade sexual da criança. O voyeurismo e o exibicionismo estão presentes nos jogos sexuais infantis, seja entre crianças do mesmo sexo ou de sexo diferente, por uma necessidade de conhecimento e de confiança. Citando uma pesquisa de Mutrux (1965) sobre as atividades sexuais de exibicionistas adultos, o autor aponta, porém, a alta freqüência deste tipo de comportamento durante os anos infantis; cerca de dois terços dos pacientes investigados relataram a ocorrência destes comportamentos em épocas iniciais do desenvolvimento.

Anna Freud (1965) encontrou, como elemento comum em meninos exibicionistas, um constante temor de suas tendências passivofemininas e uma intensa angústia de castração que os levava a enfatizarem "aberta e superlativamente todas as tendências opostas, com o resultado de parecerem agressivamente viris e, com freqüência, assumirem o comportamento de exibicionistas fálicos". Se recordarmos a conduta exibicionista e voyeurística exibida pelo pequeno Hans (1909), conforme nos relata Ureud, veremos o quanto esta se interconecta com as angústias de castração vividas pela criança face à conduta contraditoriamente sedutora e castradora da mãe, que em algum momento o ameaçou claramente com um dano genital. Por outra parte, encontramos em seu pai uma demasiada tolerância aos avanços eróticos da mãe com relação ao filho e um esforço compreensivo que, se por um lado permitia-lhe auxiliar o menino, por outro poderia oferecer-lhe uma imagem de excessiva indulgência e cumplicidade.

Na literatura psicanalítica, em que são raros os casos clínicos relatados nos quais o exibicionismo-voyeurismo aparece como sintoma principal, Sperling parece ser uma autora que contribui de modo elucidativo para o entendimento geneto-dinâmico das circunstâncias que o determinam. Num artigo em que estuda os hábitos sexuais infantis, refere-se à típica atitude dos pais de nunca tomarem conhecimento da conduta perversa infantil de um menino que ela atendeu na adolescência (Sperling, 1980).

Num caso de voyeurismo infantil feminino, Sperling relata brevemente a história de uma menina de seis anos e meio que lhe foi encaminhada pela escola por possuir o hábito de seduzir as colegas abaixando-lhes as calcinhas e inspecionando os seus genitais. Esta menina tinha uma perturbação geral da conduta e costumava roubar dinheiro da mãe para, comprando doces e oferecendo-os às amigas, conseguir que estas satisfizessem o seu desejo. Ilustrando o comprometimento amplo do desenvolvimento desta menina em diferentes áreas, a autora nos diz que esta garotinha, enurética, obesa e asmática, era filha de uma mulher muito sedutora, exibicionista e voyeurista. O pai, que parecia estimulá-la sexualmente, havia se separado da mulher; a menina sofria também sedução por parte da irmã mais velha. O distanciamento físico e afetivo do pai, com quem era muito apegada, fez com que a menina, já anteriormente sintomática, se sentisse abandonada, deprimida e, identificando-se com ele, assumisse um papel sexualmente agressivo. Observe-se, pois, como um desvio que se expressa sobretudo numa alteração da conduta sexual aponta sempre para circunstâncias externas indutoras que condicionam perturbações importantes em etapas primitivas do desenvolvimento emocional.

Num estudo posterior, Sperling (1980) retoma o caso desta menina, à qual chama Rita, e acrescenta alguns dados importantes para o entendimento dos fatores transgeracionais atuantes na gênese da conduta sexual perturbada. A mãe de Rita havia tido uma mãe extremamente rigorosa, punitiva, mas francamente sedutora, que partilhava sua nudez com a filha, ocorrendo com freqüência que ambas tivessem violentas discussões em ocasiões nas quais encontravam-se despidas. Nestas situações a mãe de Rita costumava impressionar-se com o belo corpo que sua mãe possuía, apesar da idade. Ela viria a ter suas brigas com a filha em circunstâncias semelhantes, no banheiro ou em seu quarto, quando as duas encontravam-se igualmente desnudas. Ao separar-se do marido a mãe de Rita deprimiu-se profundamente e, muito preocupada consigo mesma, não dava a menor importância às necessidades da filha. Foi nesta época que Rita, privada completamente do cuidado que de alguma forma o pai e a mãe lhe haviam dispensado até então, manifestou a conduta sexualmente agressiva que parecia ter o claro significado defensivo de protege-la de um colapso psicótico.

Apesar de ter permanecido em tratamento por alguns anos com Sperling, que analisava também a mãe, e apresentado sensíveis melhoras, Rita voltou a tratar-se aos 16 anos, por um decréscimo do seu desempenho escolar e crises de pânico, justamente quando se preparava para ingressar na universidade, o que determinaria o seu afastamento da mãe.

Julguei importante a inclusão desse caso, de forma detalhada, neste capítulo, pelo fato de os relatos clínicos de desvios sexuais em meninas serem escassos em toda a literatura por mim revisada, o que o leitor terá percebido através dos exemplos dos quais me utilizei anteriormente, e por retratar de forma clara o contexto genético-evolutivo em que estas perturbações costumam ter lugar.

Como ao longo do livro não me ocuparei especificamente de nenhum caso típico de exibicionismo-voyeurismo infantil, gostaria aqui de mencionar, sumariamente, dois casos de minha experiência pessoal que me parecem clinicamente interessantes quanto às formas de expressão dos distúrbios em meninos.

O primeiro deles foi-me apresentado numa consultoria e tinha como queixa clínica uma conduta exibicionista numa criança de cinco anos. Este menino possuía uma malformação congênita e nascera com quatro dedos na mão direita. A mãe deprimira-se muito com o fato e o cercara, desde muito cedo, de uma série de cuidados através dos quais buscava minorar-lhe o possível sofrimento causado por tal imperfeição. O garoto tornara-se o centro da sua existência e ela descuidara bastante do seu casamento, que acabou após alguns anos, o que fez com que sua estreita relação com o filho se tornasse uma importante razão para ela continuar vivendo. O pai, homem rígido e violento, afastou-se progressivamente de ambos, o que favoreceu que o filho, privado de sua presença e engolfado pelas necessidades narcísicas maternas, construísse, a partir de uma deficiência anatômica original, o sintoma exibicionista que consistia em abaixar as calças e mostrar seu pênis (seu quinto dedo) em situações sociais nas quais se sentia desamparado, como na escola, parques de diversão e outras.

No segundo caso, o sintoma exibicionista era parte de um distúrbio de gênero em que a conduta travestista aparecia como manifestação principal. Este menino, de seis anos, fascinado com uma telenovela em que os homens despiam-se na frente das mulheres, num clube de strip -tease, imitava a conduta dos personagens na sala de aula. Subindo em cima de uma classe, durante o recreio, ele começava a tirar a roupa enquanto os colegas, fazendo um círculo ao seu redor, o aplaudiam gritando "tira, tira" ou "bicha, bicha". A constelação familiar, típica, compunha-se de um pai intelectual voltado para seus livros e óperas, e uma mãe absorvente que controlava cada detalhe da vida do filho cuidando, sobretudo, que ele estivesse sempre limpo, arrumado e cheiroso. Tratava-se, igualmente, de uma criança gravemente comprometida em seu desenvolvimento emocional desde os primeiros anos.

Nos casos descritos, pode-se observar como a conduta exibicionista e voyeurista associa-se amiúde ao comportamento sadomasoquista, em que a criança agride a si e aos outros numa infecunda tentativa de elaborar uma situação traumática que abrangeu um período decisivo do seu processo de sexuação durante a infância inicial.

Para introduzir-se no exame do comportamento sadomasoquista em crianças, Ajuriaguerra (1983) recorre a uma passagem das Confissões de J. 1 Rousseau em que está notavelmente demonstrado o papel que desempenham as situações de maus tratos físicos na fixação do comportamento desviante. Falando das punições que lhe eram impostas por Míle. Lambercier, escreve Rousseau: "Durante muito tempo, ela se contentava com as ameaças, e estas ameaças de um castigo completamente novo para mim pareciam-me assustadoras; mas, após a execução, eu achava a experiência menos terrível do que fora a espera; e o que há de mais bizarro é que este castigo me afeiçoava mais ainda àquela que mo havia imposto (...)eu havia encontrado na dor, na própria vergonha, uma mistura de sensualidade que me havia deixado mais com desejo do que com temor de experimentá-la novamente pela mesma mão". Acrescenta ainda Ajuriaguerra que a visão ou o exercício da crueldade constituem-se, como o sentimento de dor, num importante elemento de excitação sexual durante a infância.

Em 1919, Freud assinalara já como as fantasias e impulsos sádicos e masoquistas poderiam contribuir decisivamente para a gênese das perversões a partir da experiência infantil. Tal como a entendeu Freud, a fantasia de flagelação por parte das crianças se derivaria, em meninos e meninas, de uma ligação incestuosa com o pai. Posteriormente, a investigação psicanalítica sobre a infância inicial deu-nos elementos suficientes para concluirmos que as fantasias sadomasoquistas envolvem, sobretudo, a relação com o objeto primário, a mãe, levando-se em conta que neste contexto o pai está também de alguma forma representado. Trata-se de uma representação parental de forte matiz sadomasoquista que é fixada1 perdurando na mente e influenciando o desenvolvimento da criança de forma muito mais violenta e definitiva do que a comum representação sádica do coito parental que encontramos nas crianças de uma maneira geral.

Para a criança desviante, conforme a importante contribuição de Bloch (1985), o mais importante parece ser a sobrevivência física e psíquica em circunstâncias vinculares nas quais a criança se sente ameaçada de assassinato. Tanto Bloch como Sperling reafirmam a importância de traumatismos físicos sofridos precocemente pela criança como indutores da conduta sadomasoquista ainda em tenra idade.

Recorrerei, novamente, a um caso relatado por Sperling (1980) para exemplificar a gênese e clínica da conduta sadomasoquista em um menino de oito anos e meio.

Jerônimo foi trazido a tratamento sob pressão da escola; ele costumava dirigir-se às pessoas com uma linguagem desrespeitosa e obscena. Temia as outras crianças de sua idade, mas costumava atacar os menores, principalmente as meninas. Tinha uma maneira sorrateira de agredir os colegas e o fazia, principalmente, pelas costas. Beliscava-os e procurava introduzir-lhe o dedo na região anal. Em determinada ocasião, cravou um lápis nas costas de outro menino, machucando-o bastante.

Jerônimo apresentava um distúrbio de identidade sexual e brincava indistintamente com brinquedos femininos e masculinos. Ao começar o tratamento tinha condutas francamente sexuais com relação à analista. Tentava sentar-se encostado nela, punha a cabeça sobre os seus genitais e, quando a analista impunha limites ao contato, ele a atacava com palavras obscenas, saltava sobre ela e jogava-lhe objetos. Depois buscava seduzi-la dando-lhe bolachas e flores. No decorrer do tratamento, o menino começou a apresentar sintomas psicóticos evidentes, como agitação psicomotora, estados de desconexão e tentativas recorrentes de agressão física à terapeuta. Não obstante, sua conduta escolar melhorava, dando a idéia de que seus conflitos passavam a expressar-se de forma extrema, mas circunscrita, na relação transferencial. Buscava obter da terapeuta o mesmo tipo de gratificação sexual que a mãe lhe dava, que consistia em brincadeiras nas quais ela o beliscava e mordia-lhe as nádegas, praticamente enfiando-lhe o nariz no ânus. O pai e o tio realizavam com ele o mesmo tipo de brincadeira, de forma bastante violenta.

O pai de Jerônimo dissera que não pretendia envolver-se com o tratamento. A mãe só concordara com o tratamento do filho porque acreditava que a analista seria incapaz de realizá-lo; por isso, Sperling impôs, como condição para tratar o menino, que ela também se analisasse. Numa etapa mais adiantada da análise, Jerônimo desenvolveu sintomas fóbicos (entendidos como melhora) nos quais expressava temores de que a mãe morresse. Queixava-se também de que esta já não o beijava como antigamente. Durante as sessões brincava ainda com bonecas, mas agora de uma forma bastante destrutiva, arrancando-lhes a cabeça e os membros. Numa ocasião em que a terapeuta interpretou-lhe os impulsos hostis contra a mãe, ele reagiu raivosamente e tentou cortar-lhe o pescoço, as orelhas e os dedos. Sempre angustiado, evidenciava temores de que lhe cortassem o pênis. Segundo Sperling, parte destes relacionava-se ao registro traumático de uma cirurgia de amígdalas a que fora submetido aos cinco anos.

Na análise da mãe, evidenciou-se que esta tinha uma perversão sexual masoquista e só obtinha satisfação se o marido beliscasse ou batesse em suas nádegas; não obstante, ocorreram mudanças significativas na sua relação com o filho. Como a relação de Jerônimo com o pai revelava-se extremamente patógena, Sperling decidiu proibir diretamente a continuidade das brincadeiras sádicas com o menino. Percebeu ela que ambos os pais utilizavam-no para gratificar as suas próprias necessidades infantis perversas, e Jerônimo desenvolvera uma atitude sádica com relação à mãe e masoquista para com seu pai. A evolução favorável na terapia deste menino, que obteve uma maior integração psíquica e uma melhora de sua relação com os objetos externos, passou por uma internalização dos conflitos que se expressavam na conduta, por uma modificação da atitude dos pais e pela possibilidade de expressão verbal de seu ódio a estes, ao mesmo tempo em que era capaz de reprimi-lo como descarga motora direta.

Não gostaria de concluir este tópico sem referir-me especificamente aos efeitos pós-traumáticos do abuso sexual na infância como condicionante de condutas sadomasoquistas posteriores.

Num artigo intitulado Child abuse and the child psychiatrist, de 1990, Johnson, investigando os maltratos físicos e psíquicos na infância, diz que, dentro de uma perspectiva psicodinâmica, os ataques físicos e psicológicos à criança podem ter como conseqüência desorganizações afetivas que, por seu turno, levam-na a desenvolver mecanismos de defesa que compulsivamente a conduzem a criar situações em que o trauma venha a se repetir. As vítimas podem identificar-se com o agressor, tornando-se abusivas e indutoras, e resignando-se a serem objeto persistente de maltrato por parte dos outros. As crianças vítimas de incestos ou pedofilia são passíveis de, adaptando-se a este padrão, tanto temerem como propiciarem as circunstâncias de vitimização.

Segundo Schultz (1972), as crianças vítimas de atentado sexual podem ser inscritas num gradiente que tem num extremo a vítima acidental e no outro o participante sedutor, que apresenta já distorções na personalidade por efeito de privações ou maus tratos anteriormente recebidos. Lukianowicz (citado por Ajuriaguerra, 1983) aponta, a partir de uma pesquisa com meninas sexualmente abusadas, como perturbações posteriores do desenvolvimento psicossexual o distúrbio anti-social, a prostituição juvenil, a frigidez adulta e os sintomas depressivos com freqüentes tentativas de suicídio. O comportamento sádico com animais parece obedecer ao mesmo tipo de configuração evolutivo-relacional que aqui busquei caracterizar.

FEMINIZAÇÃO E HOMOSSEXUALIDADE

Nas manifestações de uma distorção precoce do processo identificatório na infância a efeminação pode aparecer como precursora das manifestações perversas já descritas, pode permanecer ao longo do desenvolvimento como um traço marcante da personalidade sem que ocorram atuações homossexuais, ou pode estar na base de uma conduta homossexual infantil, a qual por sua vez não necessariamente pressupõe a efeminação. Buscarei esclarecer melhor o que afirmo discutindo em particular cada uma das alternativas referidas, começando pelos conceitos homossexualidade e efeminação ou feminização.

Numa contribuição ao estudo dos desvios sexuais, Arbiser (1986) propõe uma diferenciação entre o efeminado e o homossexual, baseada numa passagem de Freud (1919) em que isto parece ser colocado como necessário. Sustenta Arbiser que "Diferentemente da homossexualidade, que se traduz em uma escolha de objeto homossexual, a FEMINIZAÇÃO se traduz em uma posição narcisista na qual o ego se oferece ao superego como objeto sexual". Segundo Arbiser, na FEMINIZAÇÃO não há uma escolha de objeto homossexual, a pessoa não se enamora de pessoas do seu próprio sexo mas, antes, de si mesma. "Se trata, em suma e definitivamente, de uma homossexualidade que não conduz a uma escolha de objeto concordante, mas a um sintoma: a FEMINIZAÇÃO."

Utiliza-se aqui, parece-me, um discutível argumento, visto que o próprio Freud usava este mesmo modelo teórico, da identificação feminina no menino, para explicar em 1910 a estruturação homossexual em Leonardo da Vinci. É justamente a partir da identificação com a mãe, ou com o lugar imaginário que esta ocupa na fantasia do menino, que este escolherá narcisicamente o seu objeto sexual e o tratará com o mesmo ardoroso amor que sua mãe lhe prodigou.

Arbiser cita textualmente a afirmação de Freud em que se apóia:

"O menino escapa da homossexualidade pela repressão e transformação da fantasia inconsciente. O mais singular de sua fantasia, posteriormente consciente, é que apresenta uma atitude feminina sem uma escolha de objeto homossexual". Não parece claro que Freud se refira aqui a uma "identificação feminina"; mais bem alude, talvez, a uma posição passiva. A equiparação qualitativa entre feminização e homossexualidade, cuja distinção parece consistir mais especificamente no grau de contaminação da conduta pela fantasia, nos é oferecida por Freud no mesmo artigo, quando, algumas páginas adiante, diz: "O menino que tendia a evitar a escolha homossexual de objeto, e que não busca mudar de sexo, se sente no entanto mulher em suas fantasias e adorna a mulher flageladora com atributos e qualidades masculinas" (Freud, 1919).

Saludjian (1977), num estudo sobre os afetos na homossexualidade masculina, demonstra como em três etapas da relação mãe-filho estabelece-se a condição homossexual, tomando como modelo o "Leonardo" de Freud. Na primeira etapa o sujeito se apega à mãe e é objeto desta. Na segunda etapa o intenso apego de ambas as partes determina que o menino seja despojado de sua virilidade e não possa desejar. Na terceira etapa há uma tentativa infrutífera de converter a mãe em objeto, recaindo a escolha sobre um duplo masculino. A feminização, pois, pressupõe sempre uma escolha homossexual, embora esta escolha nem sempre seja atuada.

Supondo esclarecido este particular, passarei ao exame da homossexualidade infantil efeminada.

As crianças que neste grupo incluem-se podem ser vistas como tendo atingido um estágio mais avançado no processo constitutivo da identidade sexual. As fixações, porém, em estágios pré-genitais do desenvolvimento psicossexual, os iniciais déficits identificatórios, a excessiva intimidade com mães que os engolfam e feminilizam através da erotização e do controle intrusivo de suas vidas, fazem com que estes meninos mantenham-se num complexo de Édipo negativo. São crianças que se dessimbiotizam com dificuldade face à excessiva solicitude e proteção materna, geralmente tornando-se retraídos e dependentes, sentindo-se à vontade somente no ambiente familiar. Tendem a adquirir trejeitos e maneirismos femininos, embora não manifestem desejo de mudar de sexo e não desenvolvam a compulsão de vestir-se com roupas femininas, como os pacientes dos grupos antes estudados. Conforme assinalam Lebovici e Kreisler (1966), estes meninos, investidos pela libido narcisista materna, podem tornar-se vaidosos e exigentes, desenvolvendo grande preocupação com o corpo (saúde, higiene e vestuário). Seu narcisismo, à semelhança das mulheres, investe o corpo todo, não se observando neles o orgulho fálico comum à maioria dos meninos.

Stoller (1975) assinala como patognomônica da relação mãe-filho a sedutividade materna, estimulante da sexualidade do menino, alternada contraditoriamente com medidas punitivas e restritivas às manifestações viris e sexuais da criança. As dificuldades no entrosamento social e a ansiedade de separação podem estar presentes e agudizarem-se nas primeiras situações externas que imponham um distanciamento temporário da mãe ou da família.

O pai não é alguém necessariamente hostil ou distante, mas inadequado. Alguns desses pais são homossexuais latentes e gratificam-se indiretamente com a conduta dos filhos, além disso, como enfatizam Lebovici e Kreisler (1966), têm comumente uma ligação erotizada com estes, que serve também como condicionante de um Édipo negativo persistente, com fantasias de dar ao pai um filho fabricado com os próprios excrementos. A busca nostálgica de um pai potente e idealizado (falo estruturante) pode tornar estes meninos presas fáceis de atuações pedofilicas, e a inveja e o sentimento de inferioridade com relação aos outros podem faze-los objeto de jogos sexuais com colegas, onde assumirão uma atitude passiva que, se não for interrompida e tratada oportunamente, é passível de vir a consolidar um padrão de conduta sexual homófila. Juntamente com os casos de travestismo, estes são os mais comumente vistos na clínica e sobre os quais encontramos maior bibliografia disponível.

Anna Freud (1965), considerando o prognóstico destas crianças em tratamento, aponta como determinantes significativos as satisfações e frustrações administradas oral e analmente pela mãe, as vicissitudes no processo de independização, a intensidade dos desejos passivo-femininos em relação ao pai e o efeito dos choques da castração. Acredito que a maior proximidade com as organizações neuróticas melhore o prognóstico destes pacientes, quando comparado ao das distorções mais severas da identidade de gênero, já anteriormente descritas neste capítulo.

Num outro grupo, que designarei como homossexualidade não efeminada, não se poderia propriamente falar num distúrbio da identidade de gênero. Incluem-se aqui os meninos viris, cuja masculinidade desenvolveu-se satisfatoriamente, orientando a sua identidade genérica, mas que, em face de ansiedades inerentes ao estágio evolutivo, ou reativamente a uma situação externa de efeitos traumáticos, podem incorrer em períodos de atuações homossexuais de caráter passageiro ou prolongado. Embora, como afirma Ajuriaguerra (1977), o relacionamento com pessoas de um mesmo sexo durante o desenvolvimento infantil normal seja comum e não tenha um valor de organização homossexual posterior, é importante distinguirmos entre ocasionais incursões infantis na homossexualidade e a busca compulsiva de contato sexual com o mesmo sexo, que costuma denunciar sofrimento interior. As privações afetivas induzidas por circunstâncias externas diversas podem levar a criança a buscar alívio para as angústias depressivas através do acting out homossexual, assim como em outros casos a compulsão masturbatória serve ao mesmo fim.

Embora apresentem uma estruturação neurótica de personalidade, com uma organação edípica predominantemente positiva, estas crianças podem se ver tentadas a optar, ainda que tardiamente, por uma solução de conotação desviante. Se o sofrimento expresso pela criança através das suas atuações é entendido pela família, e ela consegue encontrar no ambiente uma disposição reparatória, poderá ser levada consequemente a tratamento. A intervenção terapêutica possibilitará à criança vivenciar os sentimentos depressivos evitados, conscientizando-a das motivações inconscientes de seu comportamento e permitindo assim a resolução elaborativa do conflito. Se os sinais de sofrimento evidenciados, embora de forma não verbal, não forem adequadamente advertidos pelo ambiente, a homossexualizaçáo do menino será favorecida pelo estabelecimento do ganho secundário, e mesmo que as características genéricas masculinas sejam conservadas poderá ocorrer uma inversão permanente da orientação objetal. Vislumbra-se aí uma possível etiologia da homossexualidade "discreta" ou "imperceptível" do adulto.

Em seu último livro, Stoller (1989) noticia o caso de um menino de 8 anos, Rock, a quem se refere como levemente feminino. Rock tinha maneiras femininas de caminhar, falar, gesticular. Costumava também vestir as roupas de sua irmã quando brincava de casinha com ela. Tinha dificuldades para brincar com meninos, preferindo as meninas. Era tímido. Não se defendia quando agredido fisicamente e acabava chorando. A mãe de Rock é descrita como uma mulher forte, firme e agressiva. O pai, com quem o menino tinha uma relação muito difícil, era um pintor que trabalhava pouco na profissão, mas fazia todo o trabalho doméstico. As vezes alcoolizava-se, quando tornava-se insuportável, sendo às vezes agredido pela mulher.

O pai de Rock mostrou-se inabordável terapeuticamente. A mãe foi analisada por Stoller com bons resultados. Rock foi tratado por um terapeuta infantil e, com a colaboração ativa da sua mãe, evoluiu bem. Na época do relato de Stoller, era já um homem adulto que não se havia tornado efeminado nem homossexual.

CONCLUSÃO

A proposta de classificação dos desvios sexuais da criança, aqui apresentada, é uma primeira tentativa de estabelecer parâmetros genético-dinâmico-estruturais que ofereçam ao analista uma base de referência conceitual fundamentada na metapsicologia psicanalítica, mais do que na nosografia psiquiátrica infantil, permitindo-lhe uma categorização diagnóstica das perturbações sexuais precoces consoante com o referencial teórico que o formou.

O desvio na infância foi, durante muito tempo, um assunto do qual os analistas se aproximavam tanto com cautela diagnóstica como com perplexidade clínica, indagando a si mesmos se, por bizarras que se apresentassem, não se poderia atribuir tais manifestações às variações caleidoscópicas da expressão da sexualidade infantil perverso-polimorfa. Julguei, pois, importante, partindo de uma revisão ampla, histórica e detalhada da literatura psicanalítica sobre o assunto, acrescida de alguns questionamentos e proposições pessoais, adentrar-me neste intocável santuário que em alguns aspectos continua sendo a infância frente à louvável intrusividade da investigação teórica da psicanálise.

Todos os desvios sexuais são, em qualquer idade e essencialmente, desvios sexuais infantis. A organização dita perversa denuncia, talvez mais do que qualquer outra estruturação psicopatológica, com notável precisão e vividez, os avatares e as impossibilidades que pre cocemente se interpõem ao processo de constituição da identidade subjetiva e sexual. Pela persistência quase imodificada, mal reprimida, das particularidades do erotismo infantil, com defesas primitivas inicialmente estabelecidas para lidar com o impulso sexual em condições adversas, o desvio permite o acesso ao longo do trabalho analítico aos eventos traumáticos que se sucederam na história do indivíduo e se expressaram posteriormente, mais do que na forma de uma fantasia, sob a forma de um ato.

Quando estas distorções podem ser abordadas clínicamente num estágio, senão nascente, ainda inicial, sua lógica interna se faz mais evidente e compreensível e seu tratamento apresenta melhores perspectivas, porque a possibilidade de intervir também sobre o contexto das interações criança/família - além da abordagem analítica individual - e a relativa inconsistência estrutural da patologia nesse estágio oportunizam uma aproximação terapêutica certamente mais efetiva e eficaz.

Atualizada em 08/12/2004