ARTIGOS & TESES

UMA REFLEXÃO SOBRE HORMÔNIOS

Por Kate Emery Hotaru

Antes de fazer um pequeno comentário sobre hormônios, gostaria de dizer que hormônios não podem ser usados indiscriminadamente por qualquer pessoa.

Comecei a usar hormônios, porque fui diagnosticada com GID (), quando ainda morava no Canadá. Toda minha papelada ainda esta com o Doutor Keith Loukes, do Sherbourne Health Center em Toronto.

Nunca tomei e nunca tomarei nenhum medicamento sem acompanhamento médico.

Em nosso "meio" conheci muitas pessoas que tomam hormônios para  desenvolver caracteres secundários femininos, sem a menor preocupação com os "efeitos colaterais". Essas pessoas precisam tomar muito cuidado com o que vai acontecer com a vida delas. Gosto de dizer que a natureza não nos permite ser homem e mulher ao mesmo tempo, não podemos exercer funções masculinas e femininas ao mesmo tempo.

A perda de libido e ereção é geralmente bem vinda a maioria dos transexuais, já que não sentimos nenhuma vontade em usar o órgão genital masculino que a natureza nos proporcionou. A perda da ereção foi, no meu caso foi maravilhosa, pois nunca gostei daquela situação e nem daquela sensação.

Todas aquelas que fazem uso de hormônios, precisam saber que a libido vai diminuir, a ereção vai desaparecer, os seios vão crescer e provavelmente vão engordar.

Me lembro que falei a meu médico no Canadá: "I rather have a happier life than longevity" (prefiro ter uma vida mais feliz a longevidade). Naquele tempo já estava ciente de que os hormônios iriam causar "danos" ou mudanças irreparáveis no meu metabolismo e no meu "corpo".

Passei por muitos lugares depois disso, fui até o CAMH (antigo Clarke Institute), aonde novamente fui diagnosticada como portadora de GID. Fiz parte de alguns grupos de ajuda como "SOY Toronto, 519" e sei que a maioria das Transexuais estavam adorando os "efeitos colaterais" dos hormônios.

Porém, minha vida naquela época não era fácil, estudava em um internato masculino, chamado UCC (Upper College Canada), era menor de idade e tinha medo de contar a meus pais, portanto, não fiz uso de hormônios até os meus 23 anos.

Desde minha adolescência me vestia com roupas femininas ou andróginas. Quando entrei na faculdade, já tinha uma certa autonomia e até já ia as aulas vestida como mulher e já tinha lido e conversado com muita gente a respeito de ser uma "TS" - transexual.

Das crossdressers que conheci, a maioria dos que fazem uso de hormônios se tornam infelizes por causa da perda de libido/ereção.

Dos transexuais, sei que maioria gostam das mudanças e que por causa das informações obtidas com psicólogos e psiquiatras já sabem que não terão uma vida fácil, mas mesmo assim preferem seguir esse caminho árduo.

Usar hormônios para "ficar" bonita ou mais "passável" é besteira, porque hormônios não mudam tanto a estrutura do corpo, a não ser que a pessoa ainda não tenha passado pela puberdade. Hormônios não mudam a voz, tamanhos dos pés e mãos, estrutura óssea, não causa menstruação e nem permite que fiquemos grávidas.

Eu pessoalmente, sei que muito em minha vida mudou e vai mudar, sei que vai ser mais difícil ter uma vida "estável", e pra ser bem sincera, no fundo no fundo, não gostaria de ser "TS".

Desculpe falar de coisas banais, sei que o BCC é um clube voltado aos "crossdressers" e desculpe se eu ofendi alguém com minhas idéias e textos "transexuais".

E mais uma vez repito que os hormônios não devem ser usados indiscriminadamente por qualquer pessoa.

Pergunto: Que resposta você dará a seu filho/filha quando ele/ela lhe perguntar porque tem seios? Que resposta dará a sua esposa quando sua "performance" não for mais aceitável? E quanto a sua vida social, amigos e parentes? Não dá para mentir sempre, um dia precisamos falar a verdade...

Foi muito difícil me abrir com meus pais e estou preparada para enfrentar a sociedade e bater panela quando for preciso. Ainda bem que sou solteira, pois pelo menos se houver sofrimento, um dia serei a única a sofrer.

Procure sempre seu médico.

O QUE DIZEM OS SITES

Por Letícia Lanz

Nas minhas intensas andanças pela Internet de um ano para cá, esbarrei em certos textos. Confesso que fiquei confusa, pois em vários artigos, aparentemente com "credibilidade científica", encontrei muita coisa contraditória. Ou seja, uns dizem que o estrogênio e a progesterona podem ser de grande valia na prevenção e no tratamento de moléstias vasculares do homem, tendo apenas alguns efeitos colaterais "indesejáveis" como o desenvolvimento dos seios (ginecomastia).

Gostaria de ter alguma opinião a respeito, pois vejo existem várias associadas do BCC vasculhando esse imenso matagal de informações controversas, que é o universo dos hormônios. Entre os sites visitados estão:

VASCULHANDO AS OPINIÕES MÉDICAS

Por Márcia Regina Moreira

Em primeiro lugar, uma questão de ordem se impõe, para evitar mal-entendidos e interpretações precipitadas. As ciências biológicas em geral, e a medicina em particular, têm base empírica. Não é, como todas sabem, ciência exata. Os únicos números que podem ser aplicados são os da estatística; tanto mais próxima da realidade quanto maior for o número da amostragem estudada, e quanto mais estiverem livres de vieses nas conclusões. Medicina é ciência dinâmica; a verdade de hoje pode não ser mais a verdade de amanhã. Infelizmente é assim que funciona, é o que se tem e com o que se pode contar, para não ficarmos parados aguardando a Grande e Definitiva Verdade. A natureza não “colabora”. Embora os métodos de investigação estejam em constante evolução, serão sempre limitados. Assim também penso que seja com a Economia: o “tecido social nem sempre responde da forma esperada pelos acadêmicos, e os prognósticos caem no vazio.

Existem em todas as áreas da medicina e sobretudo sobre temas controversos, os chamados Consensos ou  Diretrizes (guidelines), documentos elaborados por um colegiado de especialistas com a finalidade de servir de linha mestra para a adoção de condutas diagnósticas e/ou terapêuticas. Servem de base para estas diretrizes grandes estudos observacionais, classificando as condutas, de acordo com o seu valor estatístico, em níveis de evidência e em sub-grupos de recomendações. Por exemplo: nível de evidência "A" seria aquele baseado nas conclusões de grandes estudos multicêntricos, duplo-cegos, randomizados com grandes amostragens, ultrapassando os milhares de pacientes (alguns ultrapassam a centena de milhar). Portanto, como a própria palavra já indica, os Consensos não são leis; são guias mestras para orientar os profissionais nas tomadas de decisão, sem que isto signifique que eles devam abrir mão de suas experiências pessoais (se tiverem alguma, é claro).

Outro ponto a ponderar: a indústria farmacêutica séria (as grandes corporações) tem interesse comercial, obviamente. Mas elas não podem simplesmente lançar um produto no mercado afirmando, sem qualquer base científica, que é uma droga milagrosa. Se o produto não der bons resultados e, pior, se causar a morte de muitas pessoas, tudo o que foi gasto na pesquisa (milhões, ou bilhões de dólares) será perdido, e muito mais, pelos processos de indenização, multas, etc (nos países em que a justiça funciona). Também não significa que não haja fraude nas conclusões dos estudos por elas patrocinados. Sabe-se com toda a certeza, que a indústria pode, simplesmente, produzir o texto do ensaio clínico e pagar para que um luminar da medicina o assine como autor, dando-lhe credibilidade. O que não as isenta da responsabilidade de responder por eventuais conseqüências sobre a saúde pública.

Mas vamos aos artigos indicados pela Leticia.

Li os dois, com bastante atenção. Comento o primeiro; o segundo não vale a pena.

O trabalho publicado em 1999 pelos doutores Krishnankutty Sudhir (deve ser indiano radicado na Austrália), e Paul A. Komesaroff  é sério e bem intencionado, ou melhor, é bem intencionado mas não é sério, porque lhes falta informações importantes. A saber: nas décadas de 50 e 60 foram desenvolvidos ensaios clínicos de larga amostragem para a avaliação de resultados da prevenção de doença arterial coronária em homens submetidos a hormonioterapia com estrógenos. Os resultados se mostraram catastróficos. Houve um aumento proibitivo na incidência de acidentes tromboembólicos (obstruções de artériras centrais e/ou periféricas), muitos fatais, contra resultados pífios no que diz respeito à prevenção de infarto. Os estudos neste sentido foram abandonados. Se novas pesquisas sobre prevenção de acidentes coronarianos em homens em uso de hormônios femininos encontram-se em andamento, desconheço.

Finalmente, reposição hormonal em mulheres com a finalidade de reduzir risco cardiovascular (infarto do miocárdio, para simplificar) é contra-indicado. Não só não reduz o risco, como pode aumentar. A reposição hormonal em mulheres pós-menopausa só está indicada em casos muito especiais, e com outra finalidade que não a de reduzir risco de infarto.

A seguir, a quem interessar possa, em inglês está um resumo das conclusões dos referidos estudos.

Postmenopausal Hormone Therapy and Cardiovascular Disease in Women

The week of July 8, 2002, scientists at the National Heart, Lung, and Blood Institute announced that they had stopped a large study of postmenopausal hormone therapy (PHT) using a combination of estrogen plus progestin. This trial, called the Women’s Health Initiative (WHI), showed that estrogen plus progestin significantly increased the risk of invasive breast cancer and blood clots in the legs and lungs and did not protect women from heart disease and stroke. In fact, the study showed that women taking this drug had a higher risk of heart attack and stroke. (The hormone formulation studied in this trial was CEE/MPA [brand name Prempro]. The medical name is oral conjugated equine estrogens [CEE] with oral medroxyprogestrone acetate [MPA].)

The week of March 1, 2004, the National Institutes of Health stopped the estrogen-only phase of the Women’s Health Initiative (WHI). The WHI found an increased risk of stroke and no reduction in the risk of heart disease in postmenopausal women who have had a hysterectomy.   The estrogen-only arm used CEE [brand name Premarin].)

In February 2004 the American Heart Association updated its Guidelines for Cardiovascular Disease Prevention in Women with new recommendations for PHT. Combined hormone therapy is not recommended for the prevention of heart disease and stroke in postmenopausal women. The Guidelines recommended a conservative approach to the use of estrogen-alone hormone therapy until further research is available.

Since the recent data from the estrogen only arm of the WHI trial does not support the use of estrogen only to prevent cardiovascular disease, the American Heart Association reinforces its recommendation that hormone therapy not be used for cardiovascular prevention. Its use for other reasons should be cautiously considered with the advice of a physician. Hormones may relieve menopausal symptoms, but women and their healthcare providers should weigh the potential risks of therapy against the potential benefits for menopausal symptom control.