ARTIGOS E TESES

CARACTERÍSTICAS GENÉTICAS

Por Veronika Schneider

Um artigo publicado no site da BBC Brasil nos informa que o presidente da Universidade de Harvard, Lawrence Summers declarou, em uma conferência, que o sexo masculino supera o feminino devido a características genéticas, e não somente por experiência. Segundo Summers, essa teoria é resultado de pesquisas e não apenas da sua opinião pessoal. Diante da polêmica provocada por tal declaração, a pesquisadora Nancy Hopkins, do Departamento de Biologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), disse que, caso não tivesse deixado o local antes do final da conferência, teria desmaiado ou vomitado.

Dentro da minha modesta opinião, é de se estranhar muito que uma figura tão proeminente no meio científico quanto o presidente de uma instituição reconhecida internacionalmente possa tentar reduzir uma problemática de extrema complexidade (que envolve não apenas os fatores biológicos, mas também diversas variáveis sócio-culturais, históricas, antropológicas, etc.) a um nível superficial que nos induz a conclusões obtusas, sustentadas por uma ou outra análise estatística.

Porém, independente do caráter polêmico do tema, observando-se o desenvolvimento histórico da humanidade, torna-se evidente a hegemonia dos valores masculinos na organização social ao longo dos séculos, não apenas no âmbito das ciências e das artes, como também em muitas outras áreas do conhecimento. Esta realidade, contudo, não pode ser utilizada como fonte de argumentações que justifiquem pretensas teorias ou hipóteses de superioridade intelectual ou de melhor aptidão de um sexo em relação ao outro, sobretudo pelo fato de que o principal recurso para a manutenção desta hegemonia tenha sido e ainda continue sendo, em grande medida, o mesmo de sempre: a força.

Considerando-se que o acesso ao ensino superior - e aos instrumentos de pesquisa - só muito recentemente tenha se tornado possível para as mulheres, parece-me óbvio acreditar que a concretização de resultados relevantes, tais como novas descobertas ou invenções, dependa mais do fluxo do tempo e esteja muito mais vinculada à metodologia científica e à dedicação à pesquisa propriamente dita do que a elementos de importância secundária (como, por exemplo, a diferenciação sexual) que exercem pouca (ou provavelmente nenhuma) influência na obtenção de resultados.

Fatos isolados, como a constatação de que os meninos tiram melhores notas do que as meninas em disciplinas específicas, como a matemática ou a física, durante o período de formação acadêmica, nos indicam apenas que a polarização - dentro deste contexto - de uma forma ou de outra, exerce influência decisiva sobre os focos de interesse, sobre as nossas escolhas, bem como sobre os pontos de vista divergentes diante da realidade. 

Em decorrência disso, podemos até nos imaginar diante de uma civilização hipotética e hegemonicamente feminina: muito provavelmente o nosso mundo seria outro, diferente deste que temos hoje, talvez com um pouco menos de racionalismo e tecnologia, porém com muito mais harmonia e equilíbrio.

OS RAPAZES E AS MOÇAS NA EDUCAÇÃO

Por Maria Antonieta Rodrigues de Mattos

Eu sou professora. Ministro aulas de Física, sou física além de engenheira. Também eu, após mais de quinze anos de experiência com o magistério, tenho números para dizer e observações à fazer. Meu universo escolar tem abrangência entre os jovens do 2º grau e acadêmicos de Ciências e Letras. Toda esta "fatia" tem exemplos claros que passam por meu crivo. Assim, posso me referir à esta importante parcela de discussão com propriedade e vasta experiência. Concordo em quase tudo o que a Vera Jardim colocou em sua explanação. Em primeiro lugar, quem lê um pouquinho de psicologia voltada ao ensino, fundamentos de educação ou mesmo o desenvolvimento mental voltado aos jovens, há de compreender que a grosso modo podemos dividir nossos estudantes em duas classes distintas logo de cara e antes de comportar-lhes gênero.

1) - Nós temos aquele grupo de jovens que possuem pensamento analítico (e eu digo jovens por ter mais contato com eles mas a coisa se estende por todas as faixas etárias), ou seja, possuem uma facilidade tremenda com cálculos exatos. A Matemática, a física e os cálculos em geral não são segredo para eles. São os chamados "cú de ferro" das salas de aulas... risos Pode-se reparar que, normalmente, são pessoas mais circunspectas e se não de difícil relacionamento, têm mais dificuldade com a vida "social". Mais uma coisa pode-se depreender desta "categoria" de pessoas; elas tem muita dificuldade com as chamadas ciências humanas, por não conseguir memorizar fatos e datas aleatórias sem uma base lógica de cálculo para servir de suporte. onde a "decoreba" impera e quem possui a maior capacidade de retenção de conhecimentos, mesmo que de forma passageira, consegue tirar as notas mais elevadas nas argüições.

2) -  Daí a situação inversa. O bom aluno de Gramática, história, sociologia e matérias afins, é normal e comummente, aluno medíocre nas disciplinas de cálculo e de lógica. Tenho visto que temos neste grupo os maiores "coladores" e os mais espertalhões das salas de aula. São falantes, extrovertidos e geralmente uns "bon vivant" simpáticos e ótimos vendedores de suas próprias imagens.

Não quero também dizer que não hajam exceções. Elas existem e são em número muito grande. Mas não chegam a  descaracterizar a regra geral.  Vera, você tem regência em sala de aulas, diga-me por favor se sua experiência difere em muito da minha, apesar de, pela própria natureza de sua disciplina, não ter muito contato com estas duas , digamos, classes de jovens. Bem, feita esta distinção inicial posso adentrar no assunto propriamente dito que é o relacionamento ALUNO/ALUNA e suas respostas à experiência educacional.

Numa sala de 3º ano de 2º grau, no ensino regular, sem distinguir se a escola é particular ou pública, normalmente no período matutino temos os alunos que possuem o melhor padrão de vida do universo estudantil. Nesta categoria estão os jovens filhos da "classe Média" e mesmo os abastados rebentos (não gosto muito deles, salvo raras exceções) dos mais ricos. Mas deste bolo, normalmente temos mais moças que rapazes em atividade escolar. São vários motivos para isto e não cabe  adentrarmos nestes motivos aqui e agora. Esta gama de jovens que eu colocaria numa proporção de 60% de moças para o restante de rapazes está classificada como sendo o "futuro do Brasil". Também as razões aqui , para tal afirmação, andam por diferentes motivos alheios ao nosso assunto.

O que vale, amigas, é que desta peneirada prévia , eu tenho resultados muito significativos quanto ao rendimento escolar. E o desempenho das mulheres é geralmente MUITO superior. Enquanto elas me questionam sobre um problema de física qualquer, legitimamente interessadas na resolução e ou compreensão do conteúdo mostrado, temos nos rapazes uma dispersão que é geralmente fatal na conclusão da compreensão e desenvolvimento lógico do conteúdo ministrado. Por vezes me causa exasperação o comportamento típico dos rapazes. Eles não conseguem manter o interesse na explanação da matéria e via de regra precisamos usar de subterfúgios didáticos para os trazer para a "realidade". Elas, as moças, normalmente sentam-se aos grupos e, às voltas com livros e fontes de pesquisas diversas, normalmente dão conta do recado. Claro que não temos uma regra imutável aqui mas, um grupo similar de rapazes estará quase sempre, às voltas com piadas de sexo, times de futebol e mesmo estudos aleatórios das "capacidades" de suas colegas de sala...

Características da espécie?

Se for, porque então as mulheres, que considero mais afeitas aos estudos, ainda não se sobressaíram num show e banho de sapiência sobre os homens?

GAFE DE REITOR REABRE DEBATE SOBRE DIFERENÇA ENTRE SEXOS

SALVADOR NOGUEIRA / REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE SÃO PAULO - 24/01/2005

O reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers, causou polêmica na semana passada ao atribuir a relativa falta de sucesso de mulheres em ciências exatas a diferenças inatas com relação aos homens. Que essas diferenças existem, a maioria dos especialistas parece concordar. Sobre o quanto elas realmente fazem a diferença, não há consenso.

Para o popstar da psicologia evolutiva, o canadense Steven Pinker, professor da mesma Harvard, e autor do best-seller "Tábula Rasa", "as observações dele até que não foram tão absurdas".

É de esperar que um defensor das diferenças inatas entre os seres humanos, baseadas em variações genéticas, devidas à seleção natural, tomasse essa posição.

Mais moderada é a postura da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, 32, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ela argumenta que as variações entre homens e mulheres só aparecem em grandes médias estatísticas e, mesmo assim, são tão sutis a ponto de quase não fazerem diferença no dia-a-dia. "Você não pode falar disso sem colocar todos os qualificativos", disse em entrevista à Folha.

Na outra ponta do espectro, está a psicóloga evolutiva Helena Cronin, da Escola de Economia de Londres. Autora do livro "A Formiga e o Pavão" (Ed. Papirus), sobre como a seleção sexual moldou a biologia das espécies, a pesquisadora, que qualifica a si mesma como feminista, argumenta que as diferenças entre homens e mulheres -fruto da evolução- são inegáveis e significativas.

"Nós não temos essas diferenças enormes, não somos muito dimórficos comparados a outros mamíferos", afirmou a pesquisadora. "Mas na vida moderna, diferenças que podem ter sido pequenas agora são enormes."

Ela considera irrefutáveis as evidências que mostram habilidade superior dos homens para percepção espacial, importante nas tarefas matemáticas, e julga que as verdadeiras feministas, em vez de dar as costas a Summers, deveriam ter tentado "entender por que [as coisas] são como são e aí então tentar mudá-las".

O reitor já se desculpou, enquanto pesquisadoras de Harvard profetizaram que sua fala ia atrapalhar a contratação de mulheres talentosas pela universidade.

Para Herculano-Houzel, a "gafe" de Summers teve, pelo menos, o mérito de trazer a discussão para o público. São as diferenças entre homens e mulheres relevantes para a vida e a dinâmica social? Conheça duas opiniões divergentes de cientistas sobre o tema nas entrevistas abaixo.

DIFERENÇA ENTRE HOMENS E MULHERES É MENOR DO QUE SE PENSA, DIZ CIENTISTA

Folha de S.Paulo - 24/01/2005

Conhecida por seu trabalho como pesquisadora e divulgadora da ciência, Suzana Herculano-Houzel argumenta que as diferenças entre homens e mulheres são muito menores do que a psicologia popular sugere. De Saquarema (RJ), por telefone, a neurocientista conversou com a Folha de S.Paulo.

Folha - Parece que a psicologia popular já criou uma imagem de que há uma diferença essencial entre os sexos: as mulheres são melhores com as palavras, os homens as superam no raciocínio matemático e espacial. Até que ponto essa idéia se sustenta?

Suzana Herculano-Houzel - A idéia se sustenta estatisticamente. Se você tirar a média, comparar a média, mulheres, em geral, são ligeiramente melhores do que homens em raciocínio verbal. Mas só ligeiramente melhores. Assim como os homens se saem ligeiramente melhor, em média, em testes de habilidade espacial, como, por exemplo, comparar duas figuras tridimensionais e dizer se uma é igual a outra quando vistas sob perspectiva ou ângulo diferentes. Existe uma diferença? Existe. Agora, a primeira coisa é se essa diferença é detectada na média. O que quer dizer que tem muita gente, homens e mulheres, que têm habilidades verbais e espaciais semelhantes. E a segunda coisa, importantíssima, é que a diferença é muito sutil. Você não pode falar disso sem colocar todos os qualificativos. A diferença é pequena e marginalmente significante.

Folha - Portanto, o grande problemas é confundir médias estatísticas com o que vai ser encontrado em cada pessoa.

Herculano-Houzel - Esse é o primeiro problema. O segundo é que você não tem como saber se essa é uma diferença de fato determinada biologicamente por ser homem ou ser mulher. A outra possibilidade é você ter uma predisposição, uma facilidade maior para uma coisa ou para outra, o que é diferente de determinação genética, e uma terceira possibilidade é haver uma determinação cultural. A gente sabe que, em grande parte, o cérebro da gente é o que a gente faz. Se você nunca teve aprendizado com piano, nunca vai ser um pianista. Se passa horas na frente do piano, mas forçado, você também não vai ser um pianista. Então, se há uma série de fatores culturais que afastam, por exemplo, as mulheres de carreiras nas exatas, é claro que o resultado vai ser que, na média, você vai encontrar homens com uma facilidade maior de lidar com números.

Folha - Mais do que uma aptidão inata, isso pode refletir diferenças de gostos e tendências?
Herculano-Houzel - Também pode refletir uma questão de preferência. Mas aí todas as mesmas perguntas valem --se há um determinismo biológico, digamos, ou se você simplesmente em uma propensão, uma facilidade para fazer uma coisa, e a gente toma mais gosto por aquilo que é fácil. São fatores demais misturados. Existem duas diferenças conhecidas que talvez sejam mais fortes. Uma é a orientação espacial, como é que você se situa no espaço, como é que você vai de um ponto a outro. É verdade que homens e mulheres fazem isso de maneira diferente, usando até estruturas diferentes do cérebro.

Folha - De que maneira?

Herculano-Houzel - Os homens tendem a usar marcos absolutos, referências espaciais absolutas, pontos cardeais inclusive. Trezentos metros nessa direção, depois tanto na outra. As mulheres costumam dar preferência a marcos físicos, então ela anda até o jornaleiro, depois até o terceiro sinal, vira na farmácia e tudo o mais. E são regiões diferentes do cérebro: uma é hipocampo e outra é o parahipocampo [duas áreas que ajudam na manutenção da memória]. Agora, a grande diferença entre os cérebros masculino e feminino diz respeito ao comportamento sexual, e isso todo mundo esquece. A maior diferença entre possuir um cérebro feminino e um cérebro masculino é que cérebros masculinos, por exemplo, na sua grande maioria, têm uma preferência por se aproximar de mulheres, e vice-versa. Isso é uma diferença cerebral de fato, e é fundamental --um interesse básico da gente. E na verdade nem é tão genético assim, porque pode ser influenciado por hormônios durante a gestação, tanto que não é 100%, mas em torno de 90% a 95% dos casos. Essas são as duas diferenças cerebrais realmente importantes, realmente significativas, entre os sexos. As cognitivas não determinam o que você faz.

Folha - E a questão da lateralização dos hemisférios cerebrais, que muita gente também associa ao predomínio da emoção no lado direito do cérebro e ao da razão no esquerdo?

Herculano-Houzel - Olha, esse negócio de que o lado esquerdo é racional e o direito é emocional é um exagero. Diferenças relacionadas à lateralização existem, mas são coisas geralmente muito sutis. As diferenças maiores dizem respeito ao processamento emocional, mas todo mundo usa isso, não tem essa de homem só faz assim e mulher só faz assado. Na verdade, o que tem de mais recente aparecendo sobre isso mostra justamente o contrário do que a psicologia popular sempre pregou --que as mulheres usam mais o lado direito do cérebro e são mais emotivos, enquanto os homens são mais racionais. As várias pesquisas que estão saindo agora estudam casos específicos com tarefas nas quais o objetivo é ganhar dinheiro, mas tanto o prêmio que você ganha em dinheiro quanto o risco são proporcionais. Quanto mais você espera antes de dizer "está bom, basta", maior fica o risco de perder tudo se demorar demais. No NIH [os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos], eles fizeram isso com homens e mulheres. Os homens se saem melhor, e a diferença é que eles, e não as mulheres, recrutam regiões do sistema límbico, que representam o estado emocional do corpo na hora de tomar essa decisão. Quanto mais arriscado o negócio fica, mais os homens, e não as mulheres, usam essas regiões do cérebro para dizer "agora chega".

Folha - Uma tendência que parece estar crescendo ultimamente é a da psicologia evolutiva, que tenta atribuir a origem das diferenças entre os sexos às necessidades de adaptação que a humanidade enfrentou durante milhões de anos. Como a sra. vê isso?

Herculano-Houzel - A psicologia evolutiva tem um apelo muito grande pela idéia de buscar razões biológicas e evolutivas para o porquê de as coisas hoje serem como elas são. O problema é que ela encontra uma dificuldade muito grande porque você não tem hipóteses que possam ser testadas, justamente por estar lidando com a evolução. Não tem como voltar no tempo e fazer experimentos, mudar as condições ambientais e ver como a que isso levaria depois de milhões de anos. O outro problema é que a formação do organismo é muito econômica. Isso quer dizer que você muda ou seleciona uma característica por uma determinada razão, porque ela serve para tal coisa, e sem querer você acaba alterando alguma outra coisa na estrutura do organismo também. Um dos exemplos clássicos é a presença dos mamilos nos homens --aquilo não serve para nada, mas está ali. O corpo é montado segundo o mesmo padrão básico, mas para alguns tem uma finalidade e para outros não tem.

Folha - Quanto à menção feita às diferenças inatas pelo reitor da Universidade Harvard, a sra. acha que as reações exaltadas se justificam?

Herculano-Houzel - Eu acho que é um comentário infeliz, mas altamente compreensível, dada a entrada que essas idéias da psicologia popular têm no público. É infeliz, mas por outro lado é bom quando você tem oportunidade de esclarecer e atrair o interesse público, pelo menos para ter o senso crítico de se perguntar se a coisa realmente é assim.

Folha - Como cientista no Brasil, de que maneira a sra. vê o fato de que em muitas áreas as mulheres ainda sejam minoria?

Herculano-Houzel - Eu não posso falar pelo geral, e nem pelas exatas, mas no meu ramo, que é o de biomédicas, as mulheres são muito bem representadas e muito respeitadas. Nunca passei por nenhuma experiência, no Brasil, de ser discriminada. Agora, no estrangeiro... (risos). Na Alemanha, onde me formei [no Instituto Max Planck, em Frankfurt], a gente não é considerada tão importante porque já existe uma idéia pré-concebida de que não vale a pena eles investirem na nossa formação porque um dia a gente vai ter filhos e largar a ciência. É um pacto não-escrito.

PSICÓLOGA FEMINISTA HELENA CRONIN REFORÇA DIFERENÇA ENTRE SEXOS

Folha de S.Paulo - 24/01/2005

Ao atender o telefone de sua casa, em Londres, a psicóloga e feminista Helena Cronin perguntou ao marido se ela podia conceder meia hora ao jornalista --ele estava terminando de fazer o jantar. Leia a seguir a entrevista.

Folha - Logo de cara, a sra. foi categórica ao dizer que Lawrence Summers tinha razão no que disse [o reitor de Harvard afirmou que as mulheres têm menos capacidade em ciência e em matemática do que os homens]. Por que acha isso?

Helena Cronin - Isso não tem nada a ver com a minha opinião, com a minha visão, é a visão da ciência. O entendimento evolutivo moderno é o de que, como na maioria das espécies que se reproduzem sexualmente, os homens são diferentes das mulheres de uma maneira muito típica. É o que se chama de dimorfismo, as diferenças entre machos e fêmeas. A noção de que somos diferentes é a que ele está defendendo.

Folha - Mas uma coisa é dizer que homens e mulheres são diferentes e outra é dizer que isso implica diferenças na capacidade de fazer ciência e matemática.

Cronin - Você está absolutamente certo. Há duas coisas diferentes que entram quando se fala em ser um cientista, e ele toca em ambas. Uma é uma habilidade particular, cognitiva, de fazer matemática, engenharia, o que seja. Outra é a disposição social e emocional, que é se você quer competir para ser o melhor professor, para ser o ganhador do Prêmio Nobel e assim por diante. E há uma terceira, que é a distribuição geral de habilidades e inabilidades em machos e fêmeas. Vivemos num mundo em que essas coisas estão começando a aparecer. Deveríamos levá-las a sério. Algo que não se deveria fazer é sair da sala quando alguém está falando a verdade, como fizeram com o reitor.

Folha - Que diferenças marcantes já foram identificadas pela ciência entre homens e mulheres?

Cronin - Para começar, em qualquer diferença produzida entre homens e mulheres pela seleção natural há mais variação nos homens. Há uma diferença muito maior entre o "menos" e o "mais" nos homens do que nas mulheres. As mulheres tendem a ficar mais perto de sua própria média. Então, por exemplo, não há uma grande diferença entre quantos filhos cada mulher pode ter. A que teve mais filhos não é muito diferente da que teve menos. Mas em homens há uma diferença maior. Especialmente após a introdução da agricultura, alguns homens não tinham nenhum descendente, e alguns tinham muitos.

Folha - Mas uma coisa é a habilidade deixar descendentes, outra a de ter aptidão para matemática...

Cronin - Mas isso tende a ser igual em muitas coisas. Não é só sorte, não é só preconceito que fazem com que os ganhadores do Prêmio Nobel em ciência tendam a ser homens em vez de mulheres, porque os homens têm maior variação em habilidades --em inteligência, habilidade de fazer ciência e assim por diante-- do que as mulheres. Então há mais ganhadores do Prêmio Nobel entre os homens, mas também há mais idiotas. As mulheres tendem mais a ser medianamente boas.

Folha - Há alguma explicação para que isso ocorra? Isso faz sentido em termos de descendência, mas para inteligência é mais difícil.

Cronin - Eu não vou dar uma resposta realmente boa, porque as respostas que eu vi eu nunca as vi sendo bem colocadas, mas parece ter a ver com o fato de que vale mais a pena para os machos correr riscos. Os machos competem um com o outro para acasalar, e as mulheres apenas ficam lá e qualquer macho vai querer acasalar com elas. As fêmeas não precisam investir a longo prazo, qualquer macho está geralmente disposto a acasalar, então elas não precisam se arriscar. Para um macho, quanto mais competição, mais risco, mais ele se exibe e maior é a chance de ele ter sucesso [reprodutivo]. Então acho que tem a ver com isso. É uma pergunta fundamental, e eu honestamente não sei a resposta exata. Mas toda a história de vida dos homens é mais arriscada e competitiva, e isso se traduz também no fato de o que vence aparece no topo da curva e o que perde fica na outra ponta da curva.

Folha - Especificamente sobre habilidades matemáticas, existe informação estatística suficiente para apoiar essa noção de diferenças entre homens e mulheres?

Cronin - Há uma diferença bem particular. Eu vou dar um exemplo de habilidades que são exigidas quando você está fazendo matemática, engenharia, e assim por diante, e mostrá-lo que as coisas que alimentam essas habilidades são mais vistas em homens do que em mulheres. Se você tentar imaginar um objeto tridimensional em sua mente e tentar rotacioná-lo em sua mente, e então você for exposto a um conjunto de representações bidimensionais de objetos e for perguntado sobre quais representam o mesmo objeto, mas rotacionado no espaço, a maioria dos homens é muito boa com isso. A maioria das mulheres não é muito boa. Em testes cognitivos como esse, essa é a diferença mais robusta que você pode encontrar entre homens e mulheres. As mulheres que vão melhor neles tendem a avançar muito pouco, comparadas à curva dos homens. E são muito poucas as mulheres que vão bem longe na curva dos homens. Parece que essa habilidade é uma das coisas que se encaixa na habilidade matemática. Você pode imaginar como isso se encaixa em engenharia e na física.

Folha - Aparentemente há barreiras ideológicas para reconhecer essas diferenças de gênero. Quão importante a sra. acha que é reconhecer essas diferenças, por exemplo, para fazer escolhas de carreira?

Cronin - Outra pergunta excelente. Os homens competem. Eles querem estar no topo. Eles querem ganhar o Prêmio Nobel, querem ser reitores de universidade, querem ser editores-chefe do jornal. E as mulheres não têm esse senso de competitividade, porque elas não tiveram de competir do modo que os homens tiveram. Toda a psicologia dos homens é muito competitiva, comparada à das mulheres. Sempre foi assim, em todas as espécies sexuadas.

Folha - No caso humano, no entanto, as diferenças são mais sutis.

Cronin - Na nossa espécie bem menos, é verdade. Se fôssemos como elefantes marinhos, eu odeio imaginar um elefante marinho lutando pelo Prêmio Nobel. Ele mataria seus competidores! Eu não daria a ele uma carteira de motorista! Ele seria perigoso! Nós não temos essas diferenças enormes, não somos muito dimórficos comparados a outros mamíferos. Mas na vida moderna diferenças que podem ter sido pequenas agora são enormes, sobre quem está disposto a pegar um trabalho que irá tirá-lo de sua vida, de seus filhos, de seu parceiro, do resto da sua família. Tem essa diferença entre homens e mulheres também. E isso não tem só a ver com ser um cientista, tem a ver com ser qualquer coisa, e, acima disso, tem a ver com você ser mediano ou ser o melhor em alguma coisa. Essa é uma das razões pelas quais fiquei muito irritada com as mulheres em Harvard que deram as costas ao reitor por causa do que ele disse. Porque, como uma feminista, eu acho que você realmente tem que entender o mundo para mudá-lo. Se você é feminista, e você não gosta de como as coisas são, você realmente tem de entender por que elas são como são e aí então tentar mudá-las.

Folha - Há algum exemplo disso posto em prática?

Cronin - Um pequeno exemplo é essa inabilidade de ver coisas em três dimensões se encaixa na menor habilidade das fêmeas de ter sucesso em matemática. Por que não tentar mudar o modo pelo qual ensinamos matemática para ver se conseguimos ajudar as mulheres a ir melhor nisso? E houve um pequeno experimento nisso, que não foi apoiado por feministas ou que as tenha interessado, e foi mostrado que você pode aumentar a habilidade das garotas de ir bem na escola em matemática se você ensiná-las de um modo mais amigável às mulheres. Se você realmente é feminista, o que deve fazer é tornar o mundo mais amigável às mulheres. Então você precisa entender o que "amigável às mulheres" é e quais são as diferenças entre mulheres e homens.