ARTIGOS & TESES

O CIENTISTA QUE SÓ PENSAVA NAQUILO

Alfred Kinsey desbravou o estudo da sexualidade. Agora sua louca vida íntima é que é alvo de pesquisa.

Por Isabela Boscov - Revista Veja - Edição 1876 - 20/10/2004 - VEJA ONLINE

Quando o zoólogo Alfred C. Kinsey começou a fazer do sexo uma ciência, em 1938, esse era um assunto que podia, literalmente, dar cadeia: na maioria dos Estados americanos, o sexo pré-marital ou extraconjugal, a homossexualidade e o sexo oral (mesmo no casamento) eram crimes previstos em lei e puníveis com prisão. Daí o furor com que o Relatório Kinsey (como ficou conhecido o livro Comportamento Sexual no Macho Humano) foi recebido, em 1948.

A tese do cientista, amparada em milhares de entrevistas com homens e mulheres de todas as idades e camadas sociais, era a de que em matéria de sexo não existe aberração ou desvio. Existe apenas uma infinidade de práticas e preferências, que lei nenhuma é capaz de banir dos quartos conjugais, dos bancos traseiros dos automóveis ou de qualquer canto menos iluminado que se preste à intimidade. Essa curiosidade inesgotável sobre o sexo, defendia Kinsey, é simplesmente própria do "animal humano" e está além da alçada da moral. Toda a pesquisa que se seguiu à de Kinsey só fez confirmar sua visão.

Sobre o próprio autor, porém, não há consenso: de gênio pioneiro da sexualidade a um manipulador que usou a ciência para arregimentar parceiros sexuais e concretizar seus fetiches, as opiniões sobre ele abarcam hoje todas as cores do espectro. E, quase meio século após sua morte, Kinsey está de novo na ordem do dia: foi objeto de duas biografias recentes – ambas cheias de revelações –, é o protagonista de um filme a ser lançado em breve (Kinsey, com Liam Neeson no papel-título) e também o tema de The Inner Circle, um curioso híbrido de fato e ficção que chegou às livrarias americanas no mês passado. Assinado por T. Coraghessan Boyle, um dos grandes nomes da nova literatura americana, The Inner Circle se vale de um narrador fictício – o jovem e influenciável John Milk, assistente direto do professor – para pintar um retrato polêmico de Kinsey: um cientista obcecado pela pureza metodológica de seu trabalho, mas também um virtuose da persuasão e um excêntrico, tanto nos assuntos do dia-a-dia como nos noturnos.

Todos os relatos concordam que Kinsey era uma figura carismática. Sempre metido em camisas estalando de tão frescas, arrematadas com gravatas-borboleta, parecia saído do banho fosse qual fosse o clima ou a hora. Assim que entrava num recinto, monopolizava as atenções. Não só por causa da cabeleira eriçada, dos olhos azuis e do porte impecável (não obstante os ombros estreitos, herança do raquitismo na infância): Kinsey era um orador habilidoso e persuasivo, a quem ninguém conseguia dizer não. Tinha ainda faro de predador para mentiras ou hipocrisias, e adorava infligir sua independência sobre seus muitos adversários. Uma de suas diversões prediletas era se pôr seminu, de suporte atlético cor da pele, para cuidar de seu magnífico jardim nas manhãs de domingo – bem no horário em que os cidadãos respeitáveis da cidadezinha em que ficava seu campus da Universidade Indiana se dirigiam à igreja. Kinsey detestava cigarros, álcool, jogos e tudo o mais que pudesse ser interpretado como frivolidade ou ataque à saúde, e era um sovina contumaz, que guardava trapos para tecer tapetes. Ao almoço, alimentava-se exclusivamente de água e de uma mistura de frutas secas, nozes e pedaços de chocolate, que ele próprio elaborava e impingia a quem dividisse a refeição com ele.

Os hábitos mais controvertidos de Kinsey, porém, eram os particulares. Casado com Clara "Mac" McMillen e pai de três filhos, aconselhava seus colaboradores a manter a aparência de probidade, a fim de não colocar sua pesquisa sob riscos desnecessários. Mas era francamente bissexual e adepto da mais absoluta liberdade. Tomava seus assistentes como amantes – a exemplo do John Milk que narra The Inner Circle –, não se importava que sua mulher se relacionasse com eles e encorajava-os a experimentar de tudo e mais um pouco. Seu inegável traço voyeurístico se manifestava não só nas entrevistas que conduzia com anônimos para sua pesquisa – reuniu 18.000 delas, compondo aquele que até hoje é o maior acervo do gênero –, mas acima de tudo na insistência com que obrigava os integrantes de seu círculo íntimo a contribuir com seu histórico sexual. Poucos anos depois de iniciar as entrevistas (na verdade, questionários com 350 perguntas sobre os mínimos detalhes da experiência sexual dos indivíduos), concluiu que elas eram insuficientes como forma de verificação e passou a promover, digamos, sessões práticas de estudo.

Se no campus de Indiana corriam rumores sobre as peculiaridades do "Doutor Sexo", o zelo com que Kinsey protegeu seu trabalho, aliado ao conservadorismo da época, evitou que esses relatos chegassem ao público – que dava a ele tratamento de celebridade nacional. Só em anos mais recentes essas preferências e suas possíveis origens vieram à tona. Kinsey fora criado por um pai puritano, e crescera torturado por seus sentimentos de culpa e vergonha – por causa da masturbação, da curiosidade nunca satisfeita e das inclinações sadomasoquistas e homossexuais (estas, segundo sua tese, existem em quase todos os indivíduos, numa escala de 0 a 6). Foi virgem até se casar com Clara, e demorou meses para consumar o casamento. Um sofrimento inútil, dizia Kinsey – daí ele ter se imposto a missão de tratar a sexualidade como um campo da ciência, divorciando-a dos ideais românticos e, principalmente, da moral.

O quanto as proclividades pessoais de Kinsey comprometeram sua pesquisa é o que seus biógrafos discutem hoje – mas o placar vem dando vitória ao cientista. Uma revisão de seus dados, na década de 70, mostrou que nada do que ele publicou em seu primeiro relatório e no ainda mais polêmico Comportamento Sexual na Fêmea Humana, de 1953, precisa ser revogado. Como conquista social, sua obra é ainda mais relevante: Kinsey ajudou a derrubar os mitos sobre o prazer da mulher (que levariam seu tiro de misericórdia com outro relatório famoso feito nos mesmos moldes, o da feminista Shere Hite, nos anos 70), defendeu a contracepção, provou que a masturbação é uma descoberta normal do ser humano e não provoca cegueira nem pêlos nas mãos, e contribuiu para tirar da homossexualidade a pecha de doença. Ventilou, enfim, assuntos sobre os quais se guardava silêncio ou que se reservavam, na melhor das hipóteses, ao divã do psicanalista (Kinsey, aliás, detestava Freud, que considerava um mistificador). Pego em cheio pela onda moralista do macarthismo, Kinsey teve suas verbas cortadas e morreu logo em seguida, em 1956, aos 62 anos, sem testemunhar a revolução sexual da década seguinte, que ele indubitavelmente ajudou a impulsionar. É fato que o professor de gravata-borboleta era uma personalidade das mais coloridas, e que seu comportamento no campus seria inaceitável pelos padrões acadêmicos de hoje. Mas uma coisa não se pode negar: foi ele quem tirou de vez o sexo do armário.